Sala de neve da Spa Butler, cujo modelo padrão parte de R$ 651,5 mil, virou item de status entre famílias de alta renda (Divulgação/Architectural Digest)
Jonalista colaborador
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 11h30.
Enquanto ondas de calor recordes atingem a Europa e os Estados Unidos neste ano, um novo tipo de pedido tem chegado às mesas de arquitetos e designers que atendem clientes de altíssima renda. A ideia agora é transformar a própria casa em uma estrutura capaz de reagir ao clima, com ambientes que mudam de temperatura ao longo do dia, tetos e paredes que se abrem ou se fecham conforme a hora, e até porões que recriam o inverno em pleno verão.
Em Las Vegas, o termômetro chegou a marcar 42,8°C durante uma visita recente a uma obra residencial, segundo o arquiteto Grant Kirkpatrick, sócio fundador do escritório KAA Design, segundo reportagem da Architectural Digest. Ele está projetando ali uma propriedade com piscina e pavilhão de eventos cujo teto e paredes de vidro são retráteis, permitindo manter o ambiente refrigerado quando fechado ou aberto para o ar livre nas noites mais amenas do deserto. Para Kirkpatrick, o luxo contemporâneo está menos associado à ideia de um bunker fechado contra o calor e mais ligado a espaços que respondem às condições do dia e das estações.
Entre os pedidos mais recentes está a instalação de salas de neve, ambientes fechados revestidos de gelo e neve, às vezes com flocos caindo artificialmente. Segundo reportagem do New York Times, esse tipo de espaço tem virado item de status entre famílias de alta renda.
Tyler Slater, diretor de operações e sócio da Spa Butler, empresa texana que fabrica e instala esses ambientes, afirma que a procura cresceu de forma expressiva neste ano. Um modelo padrão de 2,1 por 3 metros parte de 128 mil dólares, o equivalente a cerca de R$ 651,5 mil na cotação atual. Segundo Slater, a maior parte dessas instalações não fica isolada, mas integra suítes de bem-estar maiores dentro da casa, muitas vezes ao lado de banheiras de gelo, versão mais intensa do cold plunge que já é comum em spas residenciais nos Estados Unidos.
Adega da JZA+D em Princeton mantém vinhos brancos a 10°C, aproveitando a temperatura natural do solo (Divulgação/Architectural Digest)
Outra frente de trabalho tem sido o uso do subsolo das casas para aproveitar a temperatura natural da terra. Em Princeton, Nova Jersey, o escritório JZA+D transformou o porão de um cliente em um espaço de 186 metros quadrados com cinema, academia, sala de estar e uma adega mantida a 10°C, temperatura considerada ideal para vinhos brancos. Casacos de inverno ficam disponíveis por perto para os convidados que passam mais tempo ali dentro. O arquiteto Joshua Zinder, sócio-diretor do escritório, explica que a partir de 1,2 metro de profundidade a temperatura do solo se mantém estável, geralmente não passando de 12,8°C, o que faz a terra em contato com as paredes do porão retirar calor do ambiente de forma natural.
O mesmo raciocínio tem levado clientes de alta renda a pedir a volta das antigas adegas subterrâneas de alimentos. Joseph Carline, sócio do escritório nova-iorquino Kligerman Architecture & Design, diz ter visto aumento na demanda por esse tipo de estrutura, usada para conservar produtos, frios e vinhos com baixo consumo de energia. Segundo ele, o crescimento de hortas e jardins comestíveis dentro das propriedades tem tornado esse armazenamento ainda mais necessário durante o verão.
Uma parte dos compradores de alto padrão tem optado por outra estratégia, adquirir imóveis em regiões de clima mais frio para se deslocar conforme a temporada. Philip White, presidente e CEO da Sotheby's International Realty, afirma que esse público vem montando portfólios de propriedades que permitem viver onde e quando quiserem, acompanhando as estações.
Segundo ele, o movimento não se resume a uma semana de fuga do calor, mas a um estilo de vida distribuído entre diferentes destinos ao longo do ano. Entre os locais que mais atraem interesse neste momento estão Verbier e St. Moritz, na Suíça, Whistler, no Canadá, e Queenstown, na Nova Zelândia, cidade cuja altitude ajuda a suavizar as temperaturas de verão sem abrir mão da infraestrutura de luxo esperada por esse comprador.