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Os dedões são os novos protagonistas dos calçados?

Copenhague transformou o maior dedo do pé em protagonista das passarelas e das ruas, mas o gesto de expor o membro já é parte da identidade do calçado nacional há décadas

A Havaianas kitten heel, apresentada na passarela da Studio Constance em Copenhague, reinterpreta a clássica tira de dedo em versão com salto (Divulgação)

A Havaianas kitten heel, apresentada na passarela da Studio Constance em Copenhague, reinterpreta a clássica tira de dedo em versão com salto (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 10h02.

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Nas ruas de Copenhague, durante a semana de moda que terminou no início de agosto, um detalhe se repetia nos pés de quem circulava entre os desfiles. Sandálias com tiras que isolam o dedão, sapatilhas de bico dividido, mules que deixam só o maior dedo à mostra. O hálux, o dedo responsável por boa parte do equilíbrio e da propulsão ao caminhar, virou o centro das atenções do styling, disputando espaço com bolsas e óculos como acessório da vez.

O modelo Tabi da Maison Margiela, que separa o dedão dos demais desde a estreia de Martin Margiela em 1989, segue como a referência mais citada do movimento, mas hoje divide vitrine com propostas novas. A Nike lançou uma versão do Air Rift, o tênis de bico bipartido criado nos anos 1990, em parceria com a Skims, em cetim, malha respirável e uma paleta de tons pastel e neutros. A Tory Burch apresentou o Multi-Buckle Monk Strap, releitura do oxford tradicional com metade do cabedal removido, deixando os quatro dedos menores à mostra e o dedão coberto por três fivelas funcionais.

Nike e Skims

O Nike Air Rift em parceria com a Skims mantém o bico bipartido original do modelo dos anos 1990, agora em malha respirável e tons neutros (Divulgação)

Sandálias com argola isolando o dedão também ganharam as ruas e as passarelas ao longo do ano. O modelo, encontrado em versões de couro ou com detalhes metálicos, foi adotado por marcas de fast fashion como Zara e Mango, além de grifes de luxo como Giuseppe Zanotti e Miu Miu. A Alohas leva a proposta ao extremo com o modelo Tebas, cujo upper inclui um anel que envolve diretamente o dedão.

Multi-Buckle Monk Strap da Tory Burch

O Multi-Buckle Monk Strap da Tory Burch reinterpreta o oxford tradicional, expondo os quatro dedos menores e mantendo o dedão coberto por três fivelas (Divulgação)

O chinelo já fazia isso

Havaianas: modelo Kitten Heel apresentado na Semana de Moda de Copenhague (Divulgação/Divulgação)

Para o Brasil, valorizar o dedão nunca foi exatamente novidade, mas vem se reinventando recentemente. Em 15 de julho, a Havaianas apresentou, na passarela da Studio Constance, uma sandália com salto kitten que reinterpreta a tira entre os dedos clássica da marca, cobrindo apenas o hálux com um bico recortado. A peça circulou nas ruas de Copenhague durante o evento, reforçando uma relação que o brasileiro já tem com esse formato de calçado desde que a Havaianas o popularizou por aqui, nos anos 1960.

Uma indústria voltada para dentro

O Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores produtores de calçados do mundo, atrás apenas de China, Índia, Vietnã e Indonésia. Diferente dos concorrentes asiáticos, a indústria nacional produz sobretudo para o próprio consumidor: dos cerca de 847,5 milhões de pares fabricados em 2025, a maior parte ficou no mercado interno, movimentando algo em torno de R$ 40 bilhões, segundo dados do setor.

O chinelo segue como o carro-chefe dessa produção. Em 2025, o modelo representou 44,7% de tudo o que o país fabricou, o equivalente a 379,2 milhões de pares, décadas antes de o dedão virar tendência em Copenhague.

Pressão do exterior

Apesar desses dados, a produção nacional de calçados caiu 1,9% em 2025, recuando para os 847,5 milhões de pares mencionados, enquanto as importações dispararam 22,5% em valor, puxadas por calçados vindos principalmente da Ásia, com preços muito abaixo dos praticados internamente. Pares chineses chegaram a ser importados por cerca de US$ 4,50, o equivalente a menos de R$ 23.

As tarifas aplicadas pelo governo dos Estados Unidos aos calçados brasileiros, elevadas a 50% no segundo semestre de 2025, também pesaram sobre as exportações do setor, que caíram em receita mesmo com o volume embarcado em alta. Segundo a Abicalçados, a capacidade instalada das fábricas brasileiras recuou de 75,9% para 73% no período, reflexo direto da combinação entre menor demanda externa e avanço dos importados no mercado interno.

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