Ulisses encara os Lestrigões em cena de "A Odisseia": os bíceps do guerreiro, à frente dos gigantes, pertencem à dublê Devyn Dalton (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 2 de agosto de 2026 às 10h37.
Em A Odisseia, de Christopher Nolan, existe uma cena em que o exército de Ulisses enfrenta os Lestrigões, criaturas canibais de proporções gigantescas inventadas para o roteiro do diretor britânico. Para dar credibilidade a essa diferença de escala na tela, a produção recorreu a um recurso antigo do cinema, a perspectiva forçada, que usa distância de câmera e atores menores para simular tamanhos impossíveis fisicamente. A responsável por viver Ulisses nesse momento específico não foi Matt Damon, e sim Devyn Dalton, dublê canadense que mede 1,37 metro.
A revelação veio do próprio Damon, em entrevista recente na qual foi questionado sobre o físico exibido durante a cena. Ao corrigir o entrevistador, o ator afirmou que aqueles bíceps pertenciam à sua dublê, descrita por ele como possuidora dos braços mais impressionantes que já tinha visto. A frase se espalhou rapidamente pelas redes e chegou até Dalton enquanto ela trabalhava em outro projeto na Nova Zelândia. Segundo relato dado ao The New York Times, ela foi acordada de madrugada por uma sequência de mensagens de amigos compartilhando o trecho da entrevista.
Dalton, com 34 anos, começou como dançarina antes de migrar para o trabalho de dublê em 2011, ano em que integrou o elenco de apoio da trilogia Planeta dos Macacos. De lá para cá, construiu um currículo que inclui participações em Weapons e na série The Last of Us. Ao Times, contou que costuma evitar detalhes sobre o trabalho quando fala com a própria mãe, para não preocupá-la com os riscos físicos da profissão.
A cena com Damon representa um marco pouco comum na carreira dela: é a primeira vez que atua como dublê de um protagonista masculino de peso em Hollywood. Segundo dados do sindicato americano SAG-AFTRA, mulheres correspondem a pouco mais de 20% dos profissionais de dublagem de ação no país, e a prática de uma mulher substituir um ator homem em cena ainda é rara, mesmo dentro desse recorte.
Um dos aspectos centrais do ofício de dublê é passar despercebido. Quando bem executado, o público não deve perceber a substituição, o que torna qualquer menção pública, como a de Damon, uma exceção dentro da rotina da profissão. Dalton descreveu ao jornal americano o processo de observação que antecede as cenas: aprender como o ator caminha, qual pé usa primeiro ao se mover, se costuma inclinar o corpo para um lado. São esses detalhes que, segundo ela, tornam a substituição convincente aos olhos da câmera.
A preparação física também ocupa boa parte da rotina profissional. Dalton mencionou treinamentos voltados a cenas subaquáticas, incluindo controle de respiração e adaptação à água fria, já que parte significativa do trabalho de ação acontece em condições adversas, muitas vezes em figurino completo, maquiagem e olhos abertos debaixo d'água.