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O destilado de flores que desafia o esquecimento

Mahua ressurge após séculos de proibição e ganha espaço no mercado

Mahua: destilado pode ser consumido puro, com gelo, ou em coquetéis como Mojito e Daiquiri (Divulgação/Divulgação)

Mahua: destilado pode ser consumido puro, com gelo, ou em coquetéis como Mojito e Daiquiri (Divulgação/Divulgação)

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 7 de julho de 2026 às 14h04.

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Assim como aconteceu com o aragh sagi — destilado iraniano de uvas-passas que sobreviveu à proibição do álcool no Irã e voltou ao mercado por meio da diáspora nos Estados Unidos — a mahua, bebida tradicional produzida a partir das flores da árvore de mesmo nome, também vive um processo de redescoberta. Após décadas de marginalização, o destilado indiano começa a ganhar espaço dentro e fora do país graças a uma nova geração de produtores.

A mahua é uma das poucas bebidas alcoólicas do mundo produzidas a partir de flores. Também conhecida como mahuli ou mahura, ela faz parte da cultura de comunidades indígenas do centro da Índia há centenas de anos.

Sua trajetória foi interrompida durante o domínio britânico. No século XIX, colonizadores proibiram sua produção e restringiram até mesmo a coleta das flores da árvore, classificando a bebida como um intoxicante perigoso. Assim como ocorreu com o aragh sagi no Irã décadas depois, a proibição empurrou a produção para a clandestinidade, favoreceu o surgimento de destilados de baixa qualidade e deixou um estigma que perdurou mesmo após o fim da restrição.

Hoje, produtores tentam recuperar esse patrimônio cultural. Um dos protagonistas desse movimento é Desmond Nazareth, fundador da marca DesmondJi, comercializada no Reino Unido pela importadora Maharaja Drinks. Segundo o Financial Times, a bebida representa uma conexão com a cultura, a biodiversidade e a história colonial da Índia.

O trabalho, no entanto, exigiu reconstruir a confiança das comunidades locais. Quando Nazareth começou a comprar flores de mahua, muitos moradores acreditavam que ele fosse um fiscal encarregado de combater a produção de álcool, reflexo das restrições que marcaram gerações. Atualmente, ele trabalha diretamente com essas comunidades e paga cerca do dobro do preço de mercado pelas flores.

Outro aspecto central da cadeia produtiva é o papel das mulheres. Elas participam da coleta, da secagem das flores, da comercialização e da destilação da bebida, além de também fazerem parte do público consumidor.

Dos campos à garrafa

A mahua tradicional passa por uma única destilação em pequenos alambiques aquecidos a fogo, resultando em uma bebida com cerca de 15% de teor alcoólico e perfil aromático intenso. Segundo o especialista em destilados indianos Aniruddha Mookerjee ao FT, os aromas da bebida remetem a almíscar, jaca madura, pimenta, doce de goiaba e vinho de arroz.

As versões contemporâneas seguem outro processo. Geralmente passam por dupla destilação em alambiques de cobre e atingem cerca de 40% de graduação alcoólica. O resultado é um destilado mais elegante, com notas florais e frutadas que lembram grappa ou rhum agricole. Essas versões costumam ser consumidas puras, com gelo, ou em coquetéis como Mojito e Daiquiri.

Um novo momento para os destilados indianos

O ressurgimento da mahua acompanha um movimento mais amplo de valorização das bebidas produzidas na Índia. Depois do reconhecimento internacional dos uísques single malt e dos gins indianos, produtores e especialistas passaram a voltar a atenção para destilados regionais quase desconhecidos fora do país.

Entre as marcas que simbolizam esse novo momento está a Six Brothers Mahura, lançada recentemente na Austrália. No estado indiano de Madhya Pradesh, apenas comunidades com tradição na produção de mahua podem destilar a bebida legalmente, o que deu origem a iniciativas como a Mond, produzida por uma cooperativa formada exclusivamente por mulheres, embora sua distribuição ainda permaneça bastante limitada.

Para especialistas, a mahua representa mais do que um novo destilado premium. Seu retorno ao mercado simboliza a recuperação de uma tradição centenária que, assim como o aragh sagi no Irã, sobreviveu à proibição, à clandestinidade e ao estigma para voltar a ocupar espaço na cultura e na gastronomia.

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