Desfile da Carnan: curvas como inspiração (Zé Takahashi/Divulgação)
Editor de Casual e Especiais
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 18h55.
Última atualização em 4 de setembro de 2026 às 19h02.
A Carnan, uma das marcas mais criativas do atual cenário, nunca havia feito um desfile. A estreia aconteceu na tarde desta sexta-feira, 4. Foi uma apresentação própria, fora do calendário tradicional da moda. E o cenário escolhido foi o Caminho Niemeyer, em Niterói, cidade natal de Breno Fernandes, um dos sócios da marca.
Trata-se do território com a segunda maior concentração de obras de Oscar Niemeyer no mundo. A coleção apresentada, Carnan & Niemeyer, nasce de uma parceria com o Instituto Oscar Niemeyer e traduz para o vestuário, em curvas, plissados, volumes e bordados, fragmentos de obras do mais celebrado arquiteto brasileiro.
Estão lá referências ao Palácio do Itamaraty, a Catedral e o Congresso Nacional em Brasília, a Pampulha, o Arco da Apoteose, o Edifício Copan e o Memorial da América Latina, além de referências internacionais como a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, e o Le Volcan, em Le Havre.
Desfilaram na passarela uma coleção com os códigos que impulsionaram a jornada marca até aqui, e também um olhar de amadurecimento natural para a alfaiataria, a pesquisa de materiais e o desenvolvimento do feminino.
Os looks desfilados da Carnan & Niemeyer destacaram-se pelas sobreposições, modelagem ampla, pontos de luz como rosa, vermelho e amarelo em meio a tons terrosos e branco, bolsas amplas como acessório. Uma moda autoral forte, sem perder de vista o apelo comercial.
Cada roupa foi desenvolvida tendo como referência uma ou mais das obras de Niemeyer, traduzindo elementos da arquitetura para o vestuário através de formas, proporções, volumes, cores, texturas, recortes e detalhes construtivos.
Look de passarela: sobreposições (Zé Takahashi/Divulgação)
O desfile também foi uma oportunidade para mostrar a estratégia da marca em estabelecer parcerias. Nos pulsos, os modelos usaram relógios Orient, da linha Special Caliber, em estilo dress watch, que mantém a proposta acessível, mas avança em acabamento, construção e design, mirando um consumidor mais informado.
A Orient nasceu no Japão, mas conta com uma operação industrial própria em Manaus. Alguns relógios montados aqui utilizam mecanismo japonês. A parceria com a Carnan para o desfile foi conduzida pela Relojoaria Impala, uma das maiores revendedoras de relógios japoneses no Brasil.
“Nosso trabalho é fazer com que o consumidor entenda o relógio para além da ficha técnica”, explica Renan Tavore, CEO da Impala, sobre a parceria. “Quando existe contexto, repertório e uma boa história por trás do produto, a relação com a peça muda completamente.”
Nos pés, as colaborações foram com a ASICS e três modelos exclusivos de Havaianas, desenvolvidos especialmente o momento.
Modelo na passarela da Carnan: cores e acessório (Zé Takahashi/Divulgação)
A Carnan nasceu no Rio de Janeiro em 2018, da união de Paulo Carneiro e Breno Fernandes, colegas na faculdade de publicidade da ESPM. Começou com peças em jeans, sarja e camisetas estampadas e evoluiu para alfaiataria, jaquetas estruturadas e tricôs, somando colaborações com nomes como Asics, Umbro e Veja.
Em 2021 mudou a sede para São Paulo e, em 2024, abriu sua primeira flagship própria, no bairro de Pinheiros, quando também estreou com acessórios de couro e lançou a linha feminina. Hoje, a marca soma mais de 70 pontos de venda pelo mundo e 30 multimarcas no Brasil.
O momento da Carnan revela como a criatividade, a linguagem de moda propriamente dita, no Brasil raramente nasce dentro das grifes ligadas a grandes grupos, mais preocupadas com escala e apelo comercial. Isso costuma vir de marcas pequenas, autorais, tocadas por um nome, uma trajetória pessoal, uma obsessão.
Também com uma linguagem muito própria, Jay Boggo transformou a própria reinvenção pessoal em método de trabalho. Depois de anos produzindo em volume para grandes marcas como a Zara, o designer catarinense radicado em São Paulo fundou a J.Boggo+, com peças sem gênero, de tamanho único, feitas à mão com técnicas como o esmerilhamento do tecido — um processo de desconstrução que garante que nenhuma peça seja igual à outra. Tem loja-galeria no bairro de Pinheiros, projetada como uma experiência sensorial, com curadoria de arte que muda a cada três meses.
Com uma trajetória mais longa, João Pimenta tem mais de 20 anos de desfiles, desde sua estreia na Casa de Criadores. Ele construiu uma alfaiataria conceitual que rompe com a formalidade tradicional, com recortes inusitados, proporções alteradas e um jogo constante entre masculino e feminino. Tem uma única loja, também em Pinheiros, que reúne ateliê, escritório e estoque em um mesmo endereço
Já a Misci, criada em 2018 por Airon Martin como trabalho de conclusão de curso, é uma das que mais tem repercutido, ganhando escala sem abrir mão da assinatura autoral. Seu projeto é traduzir a brasilidade em alfaiataria bem construída, com matérias-primas nacionais e estampas que remetem a frutas nativas e ao cangaço. Nasceu com uma loja em Pinheiros e ganhou recentemente um segundo ponto de venda no shopping Cidade Jardim.
Esses são alguns exemplos de autores de moda, com histórias diferentes, mas que propõem caminhos próprios, com forte identidade, em escala pequena. Outro ponto em comum é que todos têm endereço em Pinheiros, ao lado de outras marcas como Dod e Neriage.
O bairro se consolidou como uma espécie de polo para esse tipo de marca, como acontece com alguns bairros de capitais europeias, a exemplo do Marais em Paris. Com o desfile em Niterói, a Carnan ganha ainda mais força nesse segmento. Mas segue atendendo no mesmo pequeno ateliê da rua Cônego Eugênio Leite.