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Espaço República amadurece e transforma ateliês em ponte para o mercado de arte

Quase três anos após abrir as portas no centro de São Paulo, espaço amplia exposições, cursos e conexões entre artistas, galerias e colecionadores

 (Felipe Ghirello / Espaço República)

(Felipe Ghirello / Espaço República)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 28 de setembro de 2026 às 10h26.

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Quando criou o Espaço República, em dezembro de 2023, Philip Haji-Touma tinha uma ideia relativamente simples: transformar os conjuntos vazios de um prédio de família, no centro de São Paulo, em ateliês para artistas. O edifício de 21 andares na Avenida São Luís, construído em 1957, havia sido esvaziado pela pandemia, em parte.

O que nasceu com oito ateliês já cresceu para 51 espaços de trabalho, uma galeria, uma sala de cursos e uma residência artística.

Agora, quase três anos depois, o projeto começa a testar uma etapa diferente. A ideia é acompanhar o percurso um pouco mais adiante, até o momento em que uma pesquisa artística encontra um colecionador, uma galeria ou uma nova oportunidade profissional.

A segunda edição de “Vestígios: cartografias de gestos”, que abre ao público nesta quarta-feira, 30, é um retrato desse momento.

Com curadoria de Ana Carolina Ralston, a exposição reúne 34 artistas e olha para o que foi produzido nos ateliês ao longo do ano. A primeira edição, em 2025, tinha 19 artistas.

Ana Carolina Ralston: curadora já atuou em instituições culturais e agora busca frescor em espaços como o República (Felipe Ghirello / Espaço República)

“Quando você compartilha, você é contaminado pelos outros”, diz Ralston. A curadora passou dias acompanhando os artistas de perto, observando pesquisas em andamento e, em alguns casos, propondo desafios para a criação de novas obras.

“A gente faz uma leitura de portfólio e uma análise da produção atual de cada artista para escolher a obra que vai compor a coletiva. Porque, na verdade, toda obra é sobre processo”, afirma.

Para Ralston, esse contato próximo permite chegar a artistas antes que eles sejam descobertos pelo circuito institucional. Ela já trabalhou com exposições de nomes como Louise Bourgeois e Tracey Emin, mas vê no trabalho independente a possibilidade de acompanhar artistas que ainda estão começando ou saindo da universidade.

“Então você está em contato com artistas que estão começando, artistas que estão na universidade, que estão saindo. Então tem um frescor no nosso olhar”, diz.

Para “Vestígios”, ela também convidou galeristas e agentes do mercado. A curadoria, nesse caso, acaba funcionando como uma ponte entre as pesquisas desenvolvidas nos ateliês e quem pode passar a acompanhá-las de perto.

O calendário começa a ganhar forma

“Vestígios” é parte de uma programação que ficou mais intensa neste ano. Em agosto, o Espaço República abriu uma chamada para uma exposição de arte têxtil e recebeu 80 inscrições. Foram selecionados 36 artistas, quatro deles residentes do próprio espaço. Até o fim do ano, estão previstas outras cinco exposições.

A intenção é que a programação deixe de ser episódica e passe a fazer parte do calendário do espaço. “A ideia é que ela entre num calendário. Então, as pessoas sabem que isso vai acontecer”, afirma Haji-Touma.

Artista visual: o fundador do Espaço República é artista visual e trabalha com diversas maneiras de tapeçaria e peças móveis (Julia Ferraz / Digulgação)

É uma mudança pequena na aparência, mas importante para o projeto. O República começa a se comportar menos como um endereço que eventualmente recebe exposições e mais como um espaço cultural com uma programação própria.

Desde a inauguração, já foram realizadas 18 exposições e cerca de 6 mil pessoas passaram pelo local em mostras e ativações. O movimento acontece dentro de uma região que também ganhou força como polo cultural. A República, que já concentra instituições como a Biblioteca Mário de Andrade e espaços como a Pivô Arte e Pesquisa, no Copan, e a Galeria Metrópole, apareceu recentemente na lista de bairros mais legais da revista britânica Time Out.

O endereço também se beneficia da vida cultural que se espalha pelo centro, de eventos como a Virada Cultural ao circuito de bares que já fez da região um dos pontos de encontro da cidade, como mostrou o ranking da EXAME Casual em 2023.

O passo seguinte é comercial

A novidade mais significativa acontece nos bastidores. O Espaço República contratou Vivian Checco, profissional com passagem pelo mercado de arte e por galerias, para cuidar da frente comercial.

Vivian Cecco: representante comercial busca conectar compradores e artistas, com o gosto dos clientes e a pesquisa do artista sempre em mente (Acervo pessoal)

O trabalho começa antes da venda. Vivian procura entender a pesquisa de cada artista, sua técnica, referências e trajetória. Depois, cruza essas informações com os interesses de colecionadores e o perfil de diferentes galerias.

“Cada coleção tem um perfil”, explica. Há colecionadores interessados em determinadas técnicas ou pesquisas, enquanto algumas galerias trabalham com linguagens mais conceituais. A aproximação precisa fazer sentido para os dois lados.

Ela também olha para acabamento, técnica e evolução da produção, sem reduzir o trabalho à possibilidade de valorização financeira. “Arte a gente tem que olhar e comprar o que gosta”, afirma.

Para quem começa a colecionar, Vivian recomenda visitar museus, exposições e feiras para desenvolver repertório e descobrir o próprio gosto. Ela também procura artistas em diferentes regiões do Brasil e acompanha coletivos, que considera importantes para a formação de redes entre artistas.

“Ninguém cresce sozinho”, resume. A frente comercial, portanto, não será apenas uma área de vendas. Uma aproximação com uma galeria ou um colecionador, assim como a criação de novas conexões em torno dos artistas, também faz parte do trabalho.

Para Haji-Touma, esse é o passo que faltava para completar a estrutura do espaço. “A minha bola no gol é essa. A primeira para mim é o artista ser visto por um galerista”, diz.

Uma porta que continua aberta

A artista Gisele Haster, que chegou ao República no início deste ano, percebe o valor dessa estrutura menos pela perspectiva comercial e mais pela convivência.

Gisele Haster: artista tem obra focada na memória e em materiais que remetem à esfera doméstica (Felipe Ghirello / Espaço República)

“Você tem um espaço seu, mas que tem várias pessoas trocando”, afirma. Para ela, mostrar o trabalho é importante não apenas pelo contato com possíveis compradores, mas também pela possibilidade de receber retornos, acompanhar a montagem e trocar ideias com outros artistas.

A convivência também aparece na maneira como Gisele enxerga o próprio trabalho. Sua pesquisa parte de objetos guardados e da memória cotidiana, buscando aquilo que esses objetos carregam de afeto e lembrança. Estar cercada por outros artistas, diz ela, permite compartilhar técnicas, referências e maneiras diferentes de pensar a produção.

É essa troca que aparece também em “Vestígios”. A exposição reúne pesquisas diferentes, mas nasce de um mesmo lugar, seis andares em que artistas trabalham lado a lado.

Neste ano, o espaço decidiu levar essa convivência também para quem está do lado de fora. Durante a mostra, 12 artistas oferecerão oficinas gratuitas de pintura em cerâmica, colagem, aquarela e outras técnicas, com oito vagas por atividade.

A intenção de Haji-Touma continua sendo abrir portas. O República já entrou em roteiros de semanas de arte e recebeu atividades ligadas a design e arquitetura. Agora, tenta criar uma ponte mais estruturada entre seus artistas e o mercado.

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