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O antigo escritório de companhia aérea que se tornou um acelerador de artistas

Ao trocar escritórios vazios por ateliês, Philip Haji-Touma criou um modelo de negócio que conecta artistas emergentes ao circuito profissional da arte

Espaço República: localizado em prédio tombado na República, o local funciona como 'condomínio de artistas' (Julia Ferraz / Digulgação)

Espaço República: localizado em prédio tombado na República, o local funciona como 'condomínio de artistas' (Julia Ferraz / Digulgação)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 2 de julho de 2026 às 12h04.

Última atualização em 2 de julho de 2026 às 15h26.

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Quando voltou de Beirute para São Paulo em 2021, Philip Haji-Touma encontrou um problema imobiliário. Um prédio histórico que havia herdado de sua família, no centro da cidade, estava parcialmente vazio após a pandemia.

Em vez de esperar pela retomada do mercado de escritórios ou buscar novos inquilinos para os conjuntos comerciais, ele decidiu transformar o edifício em uma plataforma para artistas independentes.

Phillip Haji-Touma: fundador do Espaço República utilizou os contatos no mundo artístico para criar um (Julia Ferraz / Digulgação)

O edifício de 21 andares na Avenida São Luís foi construído em 1957 pelo bisavô de Haji-Touma, fundador da Companhia Real de Navegação Aérea, a primeira empresa aérea privada do Brasil. Há anos no métier das artes visuais, ele enxergou no imóvel uma oportunidade para enfrentar um dos principais gargalos da carreira de novos artistas: o acesso ao circuito profissional.

"Eu sempre fui muito ligado ao setor das artes, sempre conheci muito artista, galerista", diz Haji-Touma. "Vi uma lacuna nisso de ter um espaço independente para artistas desenvolverem seus projetos."

Em dezembro de 2023, nasceu o Espaço República. O que começou com oito ateliês hoje ocupa 1.985 metros quadrados distribuídos por seis andares, com 51 ateliês, uma galeria, uma sala de cursos e um programa de residência artística.

O local foi um acidente estratégico, já que a República é uma área do centro de São Paulo que tem concentrado a atividade cultural nos últimos anos. Com exemplos efervescentes como a Galeria Metrópole, a tradicional Biblioteca Mário de Andrade, o múltiplo Copan e o circuito de vida noturna na Major Sertório, o bairro tem se destacado na cidade.

Uma pirâmide com porta de entrada

Para entender o que o Espaço República faz, é preciso entender onde ele se encaixa. O mercado de arte tem uma hierarquia clara.

"O mundo das artes é uma pirâmide", diz Haji-Touma. "As grandes galerias ficam no topo e os artistas novos ficam na base." O problema é que subir essa pirâmide exige, antes de tudo, ser visto. E, para ser visto, é preciso já ter sido visto em algum lugar.

Artista visual: o fundador do Espaço República é artista visual trabalha com diversas maneiras de tapeçaria e peças móveis (Julia Ferraz / Digulgação)

Um curador institucional assistente de um grande museu, descreve, do outro lado da equação, o caminho típico de um artista emergente: primeiro, espaços independentes como na República; depois, editais de locais como o Centro Cultural São Paulo ou o Paço das Artes; depois, o SESC; e então, uma galeria.

"O museu dificilmente coloca um artista numa exposição que já não tenha algum tipo de legitimação no circuito", diz. Ele afirma que essa hierarquia é bastante rígida e que a curadoria de uma instituição maior geralmente não "garimpa" artistas em espaços independentes. "São dois pontos que estão muito distantes no mundo da arte, infelizmente."

O que os museus olham são as galerias comerciais, os grandes colecionadores e o circuito internacional. Uma entidade independente, como o Espaço República, serve para o artista construir currículo e visibilidade até acessar esse público.

A estrutura de uma 'incubadora' de artistas

O modelo do Espaço República se organiza em quatro frentes: ateliês, galeria, cursos e um programa de residência artística.

Na prática, o espaço funciona como uma espécie de condomínio artístico. Os artistas pagam pelo uso dos ateliês e recebem infraestrutura, exposição, conexões e serviços que normalmente ficam concentrados em galerias.

A principal é a receita de aluguel do espaço dos ateliês, da galeria e da sala de cursos. Há também um sobreprice que remunera os serviços de visibilidade, como assessoria de imprensa, curadoria, fotografia e produção de conteúdo. Outra fonte de renda são as vendas das obras dos artistas em exposições próprias do Espaço, que fica com 30% do valor das compras.

Prédio tombado: construído em 1957, o edifício agora abriga mais de 50 artistas (Julia Ferraz / Digulgação)

Desde a inauguração, já foram feitas 18 exposições e cerca de 5 mil pessoas circularam pelo espaço em ativações e mostras. "Muitos desses artistas não seriam chamados individualmente, mas aqui é uma incubadora", diz o fundador. "O coletivo é o que dá essa visibilidade."

A seleção de artistas, por sua vez, não passa por análise de portfólio. "Se eu trabalho com portfólio, eu entro no mercado e fecho portas. Quero fazer o contrário", diz Haji-Touma.

O próximo passo é expansão geográfica. Com conversas em andamento para uma unidade no Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, o fundador projeta um modelo replicável, cada um adaptado ao que a cidade comporta, com trocas de artistas entre as unidades.

"A ideia é pegar essa marca que estou criando e fazer essa expansão pelo Brasil", diz. O prédio da família, por enquanto, ainda tem conjuntos a preencher. "Tirar os inquilinos antigos e abrir mais ateliês. É isso."

Quem está dentro

Mazzo Heck foi um dos primeiros artistas a ocupar um ateliê, quando o espaço era ainda embrionário. Ele trabalhou por décadas sozinho, mas aceitou entrar em um espaço compartilhado e, agora, prepara sua primeira exposição individual no espaço.

Pintura e exposição: após trabalhar por décadas sozinho, Mazzo Heck se tornou um dos primeiros artistas a ocupar o Espaço República (Julia Ferraz / Digulgação)

Para ele, o diferencial não é só a estrutura ou a colaboração. "O Philip sendo bem relacionado sempre abre espaço para a gente", diz.

Alberto Boni chegou depois de 15 anos no mercado financeiro e um retorno à prática artística. Seu ateliê divide pesquisa visual, com desenhos e pinturas sobre o corpo masculino, e produção de tênis customizados para clientes corporativos, feitos à mão com aerógrafo.

Arte têxtil: Alberto Boni e Alexis Lopes trabalham com tênis personalizados, feitos à mão (Julia Ferraz / Digulgação)

"O corporativo é o que viabiliza minha pesquisa de arte", diz. Sua entrada no espaço seguiu um caminho que se tornou recorrente na República. Ele participou do festival Vórtices, que aconteceu no próprio prédio, foi eleito escolha do público e logo depois fechou um ateliê.

A República como polo cultural emergente

O bairro da República, onde o espaço está instalado, é um dos principais trunfos do projeto. Haji-Touma iniciou o Espaço República em dezembro de 2023 e reconhece que o momento coincidiu com um movimento maior de transformação do centro. "Foi uma brecha que achei no mercado", diz. "E ao mesmo tempo teve essa história da requalificação do centro. Tudo isso fez virar esse boom."

Uma artista visual e curadora aponta que ali convivem sebos especializados, ateliês, espaços expositivos e instituições culturais como a Biblioteca Mário de Andrade e a Caixa Cultural. "Você acaba tendo as várias etapas do circuito artístico em um mesmo bairro", diz.

Ela trabalha com fotografia e descreve a República como território de abastecimento e produção: compra filmes por lá, encontra assistência técnica para câmeras e equipamentos na Rua Sete de Abril. "Muita gente que trabalha com artes mora pelo centro", diz. "Então tem um polo de sociabilidade ali."

Para além do Espaço República, o bairro abriga a Pivô Arte e Pesquisa, no Copan, e a Galeria Metrópole, além de um circuito de exposições em espaços públicos.

O curador institucional diz que a região da Paulista ainda concentra o peso dos grandes nomes, com MASP, IMS, Itaú Cultural e dois SESC. Porém, a República vem construindo uma identidade própria, mais porosa e menos consagrada. "A República está se consolidando como um dos novos espaços", diz.

Para o artista Alberto Boni a percepção é mais intuitiva do que analítica. "Essa região está virando um quadrilátero criativo", diz. "Você tem design, escritórios de arquitetura, galerias de arte — uma coisa que conversa com a outra, mesmo que não seja a mesma conexão."

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