Elizabeth Holmes: fundadora da Theranos foi considerada bilionária self-made mais jovem (YouTube/Reprodução)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 28 de setembro de 2026 às 10h09.
Última atualização em 8 de outubro de 2026 às 10h51.
Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, deixou Stanford aos 19 anos para criar uma startup de exames de sangue que chegou a ser avaliada em US$ 9 bilhões. A promessa ruiu após denúncias de fraude, e Holmes foi condenada a 11 anos e três meses de prisão. Agora, sua história ganha um novo capítulo com o documentário "You Can See Everything", da A24.
Em um fundo branco, uma mulher jovem, branca, com voz grossa e olhos redondos e extremamente azuis, afirma que todas as pessoas deveriam ter o "direito humano básico" de acessar informações sobre o próprio corpo. O cabelo bagunçado e a blusa de gola alta preta à la Steve Jobs dão o tom de uma figura que, anos depois, se tornaria um dos nomes mais polêmicos do Vale do Silício. Em apenas 53 segundos, é possível ter uma ideia de quem é Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, uma das maiores promessas — e fraudes — da tecnologia.
Quando despontou, Holmes parecia ter a receita do sucesso para uma empresária da Califórnia: havia abandonado a faculdade de Stanford aos 19 anos, fundado uma startup de exames de sangue e ganhado a atenção de investidores de peso, como Larry Ellison, cofundador e diretor de tecnologia da Oracle. Durante anos, foi considerada a "versão feminina de Mark Zuckerberg", o fundador do Facebook, por sua pouca idade e sucesso comercial.
Em 2014, aos 30 anos, foi apontada como a mulher mais jovem a fazer fortuna por conta própria (self-made) no mundo, com patrimônio de US$ 4,5 bilhões, segundo a Forbes.
Mas a promessa de Holmes ruiu quando, em outubro de 2015, uma reportagem do Wall Street Journal revelou que a maior parte dos exames da Theranos era feita em máquinas de terceiros, e não no aparelho que a empresa vendia como revolucionário. Depois disso, a empresa perdeu parceiros, virou alvo de reguladores e foi dissolvida em 2018. Em 2022, a fundadora foi condenada por fraude contra investidores.
Hoje, aos 42 anos, Holmes cumpre pena de prisão, e sua história ganha um novo capítulo em 16 de outubro, quando estreia "You Can See Everything", documentário da A24 dirigido por Nathan Fielder.
Holmes nasceu em Washington, em 3 de fevereiro de 1984, e entrou em Stanford em 2002 para estudar engenharia química. Ainda caloura, convenceu o professor Channing Robertson a contratá-la em seu laboratório, onde era a única graduanda entre alunos de doutorado. Robertson seria, mais tarde, o primeiro membro do conselho da Theranos.
A ideia da empresa veio de um estágio de verão no Instituto do Genoma de Singapura, onde ela trabalhou em um chip para detectar o vírus da Sars. De volta a Stanford, patenteou um adesivo que monitorava a eficácia de um medicamento e ajustava a dose.
Holmes procurou uma professora de medicina, Phyllis Gardner, que levantou dúvidas sobre a capacidade dela de criar a tecnologia. Robertson, ao contrário, ficou encantado. Disse à Fortune, em 2014, que teve a sensação de olhar "nos olhos de um Steve Jobs ou de um Bill Gates". Holmes dizia que o projeto nasceu do seu medo de agulhas.
Foi nessa época, em um programa de mandarim de Stanford em Pequim, que ela conheceu Ramesh "Sunny" Balwani, cerca de 20 anos mais velho e futuro parceiro na empresa. Ainda no segundo ano, aos 19, deixou a faculdade para abrir a Real-Time Cures, com o dinheiro que a família havia guardado para os estudos.
A empresa virou, anos depois, a Theranos, mistura de "terapia" e "diagnóstico". Até o fim de 2004, captou US$ 6 milhões e passou anos em modo furtivo, sem site nem comunicados.
Holmes passou 11 anos em "modo invisível", sempre de preto, até apresentar a Theranos ao público em 2014. Em 2009, Balwani, com quem ela vivia desde 2005 numa relação escondida de funcionários e investidores, assumiu como presidente e diretor de operações. Em 2010, uma rodada de US$ 45 milhões avaliou a empresa em US$ 1 bilhão, segundo a Al Jazeera.
O conselho ganhou peso político a partir de 2011, com os ex-secretários de Estado George Shultz e Henry Kissinger e o general James Mattis. Entre os investidores estavam Rupert Murdoch, Larry Ellison e a família Walton, dona do Walmart.
Em 2012, a empresa se mudou para a antiga sede do Facebook, em Palo Alto, e, em 2013, anunciou uma parceria com a Walgreens para oferecer exames nas farmácias. Segundo o Departamento de Justiça, Holmes captou US$ 945 milhões.
A promessa era realizar dezenas de exames com poucas gotas de sangue da ponta do dedo, em um aparelho chamado Edison. Em 2014, a Fortune a colocou na capa e a Theranos foi avaliada em US$ 9 bilhões. Em 2015, o então vice-presidente Joe Biden visitou o laboratório em Palo Alto e a elogiou, e a Time a incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo.
O primeiro alerta público veio em fevereiro de 2015, quando a revista JAMA criticou a empresa por não publicar pesquisas em periódicos científicos. Em 15 de outubro, o repórter John Carreyrou publicou no Wall Street Journal a reportagem que mostrou que a maioria dos exames rodava em equipamentos comerciais e que o Edison era pouco confiável.
As fontes eram ex-funcionários como Erika Cheung e Tyler Shultz. A Theranos ameaçou processar o jornalista e uma das fontes, a Walgreens suspendeu a parceria e, em janeiro de 2016, o órgão regulador CMS alertou que os testes colocavam pacientes em risco.
Um acordo com o Arizona mostrou a dimensão do problema. Ao menos 10% dos 1,5 milhão de exames vendidos no estado entre 2013 e 2016 tiveram de ser anulados ou corrigidos. Em 2018, a SEC acusou Holmes e Balwani de fraude de mais de US$ 700 milhões, e a empresa foi dissolvida em setembro daquele ano.
Elizabeth Holmes: em 2023, chegou a uma prisão federal em Bryan, Texas, para começar a cumprir sua pena (AFP/AFP)
O julgamento começou em 8 de setembro de 2021, depois de ser adiado pelo menos quatro vezes. Holmes, que havia tido um bebê em julho, depôs por sete dias e admitiu erros, mas negou ter enganado.
Disse que a Theranos não revelou o uso de máquinas comerciais para proteger o que considerava um segredo industrial. Reconheceu que tudo o que Erika Cheung havia apontado estava correto e afirmou ao júri que Balwani a abusou emocional e sexualmente durante a relação. Ele negou "categoricamente" as acusações, segundo documentos apresentados à Justiça. Perguntada pelo promotor se "todos os caminhos levam ao CEO", respondeu que achava que sim.
Em 3 de janeiro de 2022, o júri a considerou culpada em quatro de 11 acusações, todas de fraude contra investidores, inocentou-a em outras quatro e não chegou a consenso nas três restantes. Balwani, julgado separadamente, foi condenado nas 12 acusações e recebeu 155 meses de prisão. Holmes foi sentenciada em 18 de novembro de 2022 a 135 meses, ou 11 anos e três meses, e os dois foram condenados a pagar juntos US$ 452 milhões em restituição.
Ela se apresentou ao presídio federal de Bryan, no Texas, em 30 de maio de 2023. A condenação foi mantida pelo Tribunal de Apelações do Nono Circuito em fevereiro de 2025, e em março de 2026 o juiz Edward Davila reduziu a pena em 12 meses, por uma mudança retroativa nas diretrizes federais. O Bureau de Prisões projeta hoje a saída para 22 de fevereiro de 2030.
Ela deve ser transferida em 23 de agosto de 2027 para uma casa de transição em Del Valle, perto de Austin, segundo a NBC News. Holmes também pediu a Donald Trump, em dezembro de 2025, a comutação da pena. O pedido segue como "pendente", e a Casa Branca não comentou, segundo a Forbes.
"You Can See Everything" foi dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim e exibido sem aviso no Festival de Telluride neste mês. O filme tem 174 minutos e começou a ser gravado semanas antes de Holmes entrar na prisão, quando ela morava em Del Mar, na Califórnia, com o parceiro, Billy Evans, e os dois filhos. Em uma das cenas, ela assiste à série que dramatizou a própria história.
Em um trecho do trailer, ela pergunta a Fielder: "Por que eu enganaria você?" — a pergunta de quase um bilhão de dólares. Literalmente.
Elizabeth Holmes é a fundadora da Theranos, startup americana de exames de sangue criada em 2003. A empresa prometia realizar dezenas de testes com poucas gotas de sangue e chegou a ser avaliada em US$ 9 bilhões. Holmes foi condenada por fraude contra investidores.
A Theranos entrou em colapso depois que uma investigação do Wall Street Journal, publicada em outubro de 2015, revelou que a empresa não utilizava seu aparelho Edison para a maior parte dos exames e que havia problemas com a confiabilidade dos testes. A empresa perdeu parceiros, foi alvo de reguladores e acabou dissolvida em 2018.
Holmes foi condenada por quatro acusações de fraude contra investidores. O júri a considerou culpada em quatro das 11 acusações, inocente em outras quatro e não chegou a um consenso nas três restantes. A sentença foi de 135 meses, ou 11 anos e três meses, de prisão.
Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Elizabeth Holmes captou US$ 945 milhões para a Theranos. Entre os investidores estavam nomes como Rupert Murdoch, Larry Ellison e a família Walton, dona do Walmart.
A Theranos chegou a ser avaliada em US$ 9 bilhões em 2014. Naquele período, Elizabeth Holmes era apresentada como uma das principais jovens empreendedoras do Vale do Silício e chegou a ser apontada pela Forbes como a mulher mais jovem a construir uma fortuna bilionária por conta própria.
Elizabeth Holmes começou a cumprir sua pena em 30 de maio de 2023, em uma prisão federal em Bryan, no Texas. Em março de 2026, sua pena foi reduzida em 12 meses após uma mudança retroativa nas diretrizes federais. O Bureau de Prisões projeta atualmente sua saída para 22 de fevereiro de 2030.
“You Can See Everything” é um documentário da A24 dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim. O filme acompanha Elizabeth Holmes antes de sua prisão e foi gravado enquanto ela vivia na Califórnia com o parceiro, Billy Evans, e os dois filhos. A produção tem 174 minutos de duração.
Ramesh “Sunny” Balwani foi presidente e diretor de operações da Theranos e manteve um relacionamento com Elizabeth Holmes. Ele foi julgado separadamente e condenado nas 12 acusações apresentadas contra ele, recebendo uma pena de 155 meses de prisão.