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Como o calor extremo está mudando o calendário das coleções de moda no mundo

Fábricas na Ásia registram perdas de produtividade, grifes revisam metas climáticas e as próprias passarelas já mostram roupas pensadas para temperaturas que superam recordes históricos

Modelos abrem o desfile primavera-verão 2027 de Thom Browne no Palazzo Serbelloni, em Milão, com chapéus-boater e véus inspirados em roupas de apicultor, enquanto guarda-chuvas protegiam parte da plateia do calor durante a apresentação em 22 de junho (Divulgação)

Modelos abrem o desfile primavera-verão 2027 de Thom Browne no Palazzo Serbelloni, em Milão, com chapéus-boater e véus inspirados em roupas de apicultor, enquanto guarda-chuvas protegiam parte da plateia do calor durante a apresentação em 22 de junho (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 5 de julho de 2026 às 09h09.

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O verão europeu de 2026 entrou para o noticiário antes mesmo dos desfiles começarem. Durante a semana de moda masculina em Paris, compradores internacionais relataram que a temperatura definiu boa parte das conversas nos showrooms, com direto impacto nas peças escolhidas para as próximas coleções. Marcas como Dries Van Noten, Lemaire e Rick Owens apresentaram roupas mais leves, tecidos fluidos e alfaiataria relaxada, um movimento que compradores descreveram como resposta direta ao calor e não apenas como escolha estética da temporada.

Em Milão, a Thom Browne levou a resposta ao calor para dentro da própria encenação. Na apresentação da coleção primavera-verão 2027, em 22 de junho, a equipe distribuiu ventiladores de névoa e guarda-chuvas entre os convidados sentados sob sol direto no pátio do Palazzo Serbelloni. O desfile abriu com looks em seersucker e véus inspirados em roupas de apicultor, tecido que forma pequenas bolhas na superfície e reduz o contato direto entre a roupa e a pele.

O fenômeno não se limita às passarelas. Relatórios recentes da Business of Fashion mostram que o setor enfrenta dois problemas conectados: fábricas cada vez mais expostas a temperaturas extremas e metas de redução de emissões que a maioria das grandes marcas não vai cumprir no prazo estabelecido.

Fábricas sob temperaturas recordes

Dries Van Noten e Lemaire

Julian Klausner apostou em seda lavada e cargos semitransparentes na Dries Van Noten. Ao lado, Christophe Lemaire mostrou alfaiataria solta, ambos em Paris durante a onda de calor (Divulgação)

Um levantamento do Global Labor Institute da Universidade Cornell em parceria com a gestora britânica Schroders estimou que, até 2030, o calor extremo e as enchentes podem colocar em risco US$ 65 bilhões, cerca de R$ 338 bilhões na cotação atual, em exportações de roupas de Bangladesh, Camboja, Paquistão e Vietnã. Esses quatro países respondem por 18% das exportações globais de vestuário e concentram cerca de 10 mil fábricas, com 10,6 milhões de trabalhadores. O mesmo estudo projeta a perda de quase 1 milhão de empregos até 2030 e de 8,64 milhões até 2050 nesses mercados, caso o setor não invista em adaptação.

Centros de produção como Karachi, Colombo, Daca e a região de Dongguan, na China, aparecem entre os mais vulneráveis ao calor e à umidade. A produtividade dos trabalhadores cai cerca de 1,5% a cada grau acima de 25°C, segundo o mesmo relatório. Investigações da organização Climate Rights International, publicadas ao longo de 2025 e 2026, encontraram fábricas em Daca e Karachi que fornecem para H&M, Gap e Inditex sem protocolos adequados de proteção térmica para os funcionários, com ventilação precária e maquinário que retém calor.

A resposta das grandes marcas ainda é desigual. Kering, Hermès e Richemont concluíram, em documentos regulatórios recentes, que a exposição atual ao risco climático não é financeiramente relevante no curto prazo. A LVMH reconheceu que o custo de matérias-primas como couro, caxemira e algodão pode se tornar crítico a partir de 2030, mas afirmou que já protege parte do fornecimento com práticas mais resilientes, cobrindo hoje entre 5% e 10% do total de insumos usados pelo grupo.

As metas que ficaram para trás

O ritmo da adaptação também aparece nos números de redução de emissões. No início da década, as maiores companhias de moda se comprometeram publicamente a reduzir pela metade as emissões de suas cadeias de fornecimento até 2030. H&M e Kering já cortaram mais de um terço de suas emissões, à frente da maioria dos concorrentes, mas a maior parte das grandes marcas segue atrasada em relação ao cronograma que ela mesma definiu, de acordo com a Business of Fashion. A União Europeia, por sua vez, fechou um acordo para reduzir as exigências de relatórios ambientais e sociais das empresas, num momento de pressão comercial dos Estados Unidos, o que deve dar às marcas mais tempo antes de precisar detalhar publicamente esse tipo de risco.

Enquanto isso, o calor segue moldando o que chega às araras. Fabricantes de tecido já apontam para 2026 como o ano em que fibras termorreguladoras, tecidos que ajustam o nível de isolamento conforme a temperatura corporal, deixam de ser exclusividade da roupa esportiva e passam a aparecer em coleções de luxo. Consultorias de tendência também registram aumento na demanda por peças multifuncionais, capazes de transitar entre diferentes climas dentro da mesma viagem ou do mesmo dia, substituindo parte do guarda-roupa antes dividido rigidamente por estação.

A combinação entre fábricas mais quentes, metas atrasadas e um consumidor que já sente o calor na própria pele empurra o setor para decisões que até pouco tempo pareciam distantes, da temperatura dentro da fábrica ao tecido escolhido para o desfile de setembro.

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