Espreguiçadeiras à beira da piscina com vista para as montanhas, em hospedagem que reflete a busca por clima ameno e paisagens áridas (Unsplash)
Jonalista colaborador
Publicado em 14 de julho de 2026 às 09h04.
O turismo de luxo vive uma mudança de rota que vai muito além da moda. Dados recentes da Global Travel Collection, rede de assessoria de viagens ligada à Internova Travel Group e responsável por mais de US$ 2,4 bilhões (cerca de R$ 13,3 bilhões) em vendas anuais no setor, mostram viajantes de alto poder aquisitivo abandonando os destinos tradicionais de verão em favor de climas mais frios, temporadas intermediárias e experiências de baixa densidade turística.
O fenômeno já tem nome no mercado: "cool is the new hot". A Escandinávia e o Ártico se tornaram um dos segmentos que mais crescem entre viajantes de luxo, com lodges ultraprivativos, cruzeiros de expedição e imersões voltadas ao bem-estar atraindo quem antes buscava praia.
O norte europeu, especialmente Alemanha, Dinamarca e Polônia, ganha força, enquanto a Groenlândia deixa de ser curiosidade geográfica para se tornar destino desejado por quem já esgotou os roteiros convencionais.
O Mediterrâneo segue como a região de luxo mais procurada do mundo, mas o mapa dentro dele se expande. Turistas cansados da superlotação em lugares como a Costa Amalfitana e Santorini migram para Croácia, Montenegro, Albânia e regiões menos conhecidas da Grécia, onde encontram paisagem e gastronomia semelhantes sem as filas. Puglia, a ilha de Paros e o litoral albanês surgem como destinos em ascensão, impulsionados por viagens de iate, vilas privadas e hotelaria boutique.
Vilarejo branco de Santorini, na Grécia, um dos destinos mediterrâneos que buscam alternativas ao calor extremo do verão (Unsplash)
Relatórios do setor apontam um deslocamento geral da demanda para o outono e a primavera, períodos antes considerados intermediários e hoje disputados por quem busca fugir do calor extremo de agosto. Segundo o Virtuoso Luxe Report 2026, referência no segmento, quase metade dos viajantes de luxo já afirma alterar planos de viagem por causa das condições climáticas, e cresce a procura por destinos de clima ameno associada a maior preocupação com segurança e previsibilidade.
Esse movimento também aparece em relatos de operadoras que atuam diretamente no mercado europeu. Executivos do setor descrevem 2026 como o ano em que o cliente de luxo deixou de seguir o calendário tradicional das estações para negociar suas próprias datas de viagem, priorizando climas amenos e evitando picos de calor em regiões antes certeiras no verão.
Aurora boreal vista de uma cabana na Lapônia, região nórdica que vive alta procura entre viajantes de luxo (Unsplash)
Paralelamente à busca por clima, a privacidade se consolidou como valor central nas decisões de viagem de alto padrão. Vilas privadas, iates e propriedades de uso exclusivo ganham espaço frente aos hotéis tradicionais, e a exclusividade em regiões polares e nórdicas, incluindo Lapônia, Islândia, Noruega e Antártica, é hoje apontada por operadoras como uma das áreas de crescimento mais acelerado do setor.
Além do clima e da privacidade, cresce entre viajantes de alto padrão o interesse por hospedagens e experiências ligadas à regeneração ambiental, como restauração de ecossistemas, recuperação de corais e arquitetura resiliente ao clima. Uma pesquisa do Booking.com mostra a dimensão dessa virada: em 2016, apenas 42% dos entrevistados demonstravam interesse em viajar de forma mais sustentável, número que chegou a 93% em 2025.
Operadoras especializadas em expedições já relatam experiências até então impensáveis em regiões polares, como acampamentos móveis na Groenlândia e monitoramento de fauna marinha na Antártida, viabilizados justamente pelo derretimento do gelo e pela abertura de novas rotas de acesso.
O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) estima que o turismo responda por cerca de 10% do PIB mundial e gere mais de 350 milhões de empregos. Dentro desse ecossistema, o segmento de luxo movimenta atualmente US$ 2,5 trilhões (aproximadamente R$ 13,9 trilhões), com projeção de alcançar US$ 4,8 trilhões (cerca de R$ 26,7 trilhões) na próxima década. Especialistas do setor resumem a mudança de forma direta: o luxo deixou de ser medido em metros quadrados de hospedagem para ser avaliado pelo tempo de qualidade que uma viagem proporciona.
Diante desse cenário, marcas e operadoras de viagem enfrentam o desafio de reposicionar datas, comunicar com transparência os riscos climáticos de cada destino e demonstrar o impacto positivo que o turismo pode gerar em regiões vulneráveis, sem abrir mão da exclusividade que sustenta o segmento.