Peça da coleção Damier da Louis Vuitton, com o monograma LV aplicado de forma mais visível ao look completo (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 14 de julho de 2026 às 06h42.
O monograma nasceu como uma ferramenta prática. As primeiras versões documentadas surgiram por volta de 350 a.C., em moedas gregas, quando cidades-estado combinavam as iniciais de seus nomes para identificar a origem da cunhagem. A cidade de Acaia, por exemplo, usava as letras alfa e qui unidas num único símbolo. Séculos depois, artesãos e membros de guildas passaram a adotar a mesma lógica para marcar suas próprias obras, uma função de autenticação que se manteve por toda a Idade Média. Hoje, o símbolo voltou a ganhar espaço, mas com um propósito quase oposto ao original: em vez de anunciar, ele sussurra.
Malão da colaboração entre Louis Vuitton e Supreme, de 2017, que levou o monograma da grife ao universo do streetwear (Divulgação)
O uso de monogramas em roupas e acessórios de luxo consolidou um caminho próprio a partir do final do século 19. Em 1896, Georges Vuitton criou o padrão que se tornaria um dos mais reconhecíveis do mundo como uma homenagem ao pai, Louis Vuitton, e também como forma de proteger o design da casa contra falsificações. A versão em lona que conhecemos hoje só chegou em 1959. Em 2026, a marca celebra os 130 anos do monograma com uma coleção que revisita as técnicas originais de fabricação de seus malões, dividida entre peças em couro natural e reinterpretações da estampa histórica em efeito trompe-l'oeil.
Ao longo das décadas, o monograma da Louis Vuitton também se tornou terreno de colaborações com artistas e criadores, do bordado de Stephen Sprouse em 2001 às intervenções de Takashi Murakami e Jeff Koons, passando pela parceria entre Kim Jones e a Supreme em 2017. Cada movimento reforçou a mesma ideia: o monograma funciona como uma tela em branco, disposta a receber releituras sem perder a identidade original.
Mas o fenômeno atual não está restrito às grifes. Alfaiatarias como a Turnbull & Asser, fornecedora oficial da realeza britânica, mantêm em sua unidade de Manhattan um departamento de sob medida que oferece mais de mil tecidos, 25 opções de colarinho e punho e cerca de 20 variações de monograma, além de 18 medidas corporais usadas para desenvolver um molde exclusivo para cada cliente. A Burberry permite personalizar tecido, forro, botões e bordado em sua linha bespoke, enquanto a Cartier oferece gravações personalizadas em joias.
Monograma bordado no punho de camisa social, iniciais discretas que sinalizam sob medida sem chamar atenção (Divulgação)
O mercado global de bens de luxo pessoal deve alcançar cerca de US$ 484 bilhões (aproximadamente R$ 2,6 trilhões) em 2026, segundo a consultoria Mordor Intelligence. O crescimento, no entanto, perdeu o ritmo acelerado dos anos anteriores. Segundo a Bain & Company, o setor deve fechar o ano entre 1.440 e 1.470 bilhões de euros, praticamente estável em relação a 2025. Nesse cenário mais seletivo, a personalização se firmou como um dos principais diferenciais das marcas para reter clientes de alto poder aquisitivo, que buscam menos volume e mais exclusividade.
É dentro dessa lógica que o monograma pessoal, discreto e sem qualquer relação com logotipos de grife, ganhou espaço. Diferente da estampa de uma bolsa ou de um cinto reconhecíveis à distância, as iniciais bordadas no punho de uma camisa ou gravadas num copo de uísque comunicam status apenas para quem já entende o código. A peça continua parecendo simples à primeira vista, mas carrega a informação de que foi pensada e produzida sob medida, algo que dificilmente acontece com uma compra pronta para vestir.
O movimento também acompanha a virada estética conhecida como quiet luxury, que prioriza corte, tecido e acabamento em vez de branding evidente. Nesse contexto, o monograma funciona como o último degrau da personalização: não substitui a qualidade da peça, mas confirma que ela pertence a alguém específico, com um processo de criação que começou antes da primeira prova de alfaiataria.