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A China pode ser a nova potência mundial do foie gras?

Fazendas industriais no interior do país produzem 11 mil toneladas do fígado gordo por ano, quase metade da oferta global, e disputam preço com produtores europeus tradicionais

Foie gras: iguaria francesa que agora tem a China como maior produtora mundial (Luna Wang/Unsplash)

Foie gras: iguaria francesa que agora tem a China como maior produtora mundial (Luna Wang/Unsplash)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 13 de julho de 2026 às 18h02.

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Insumo símbolo da gastronomia francesa, o foie gras, o país europeu ganhou um concorrente que poucos esperavam. A China se consolidou como o maior produtor mundial do ingrediente, com uma produção anual estimada em 11 mil toneladas, o equivalente a cerca de 45% de toda a oferta do produto no mundo, segundo reportagem do Wall Street Journal.

O crescimento chinês transformou um alimento associado ao luxo francês em um item cada vez mais presente em cardápios asiáticos, dos restaurantes de alta gastronomia às casas mais informais.

De iguaria rara a item de cardápio comum

Ignace Lecleir, fundador do TRB Hospitality Group, grupo que administra oito restaurantes de alto padrão em Pequim, disse ao WSJ que a demanda pelo foie gras chinês está "definitivamente mais alta do que antes".

O empresário relatou surpresa ao ver o produto ganhar espaço não só em endereços de cozinha ocidental, mas também em estabelecimentos chineses de perfil mais casual, sinal de que o consumo deixou de se restringir a um público restrito.

A guerra de preços 

A expansão chinesa também mudou a lógica comercial da região. Hugo Ao, gerente de vendas da distribuidora de alimentos Olivier Pacific, vende foie gras espanhol para restaurantes e cassinos de Macau. Segundo o WSJ, ele vem perdendo clientes para fornecedores chineses mais baratos, que oferecem o produto por cerca de US$ 17 a libra, o equivalente a aproximadamente R$ 93, contra US$ 28 do espanhol, cerca de R$ 154. A diferença tem forçado a distribuidora a reduzir margens para tentar manter contratos.

Neste ano, a União Europeia reforçou as regras de rotulagem do foie gras, impedindo que produtores estrangeiros usem termos como estilo Périgord para dar a impressão de origem francesa. A medida é vista como uma resposta direta ao avanço de concorrentes fora do continente.

Zhou Menghan, analista do setor avícola na consultoria Beijing Orient Agribusiness Consultants, avalia que a disputa deve se intensificar em mercados ainda pouco consolidados. Ela projeta que a China vai se tornar uma concorrente forte da França especialmente no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, regiões onde o consumo de foie gras ainda está em expansão.

O mesmo movimento no caviar

O avanço chinês não se limita ao fígado de pato. A marca Kaluga Queen, desenvolvida com apoio do Ministério da Agricultura do país, tornou-se a maior fornecedora mundial de caviar, com produção concentrada na província de Zhejiang. As exportações chinesas de caviar saltaram de cerca de US$ 12 milhões em 2012, aproximadamente R$ 66 milhões em valores atuais, para US$ 98 milhões em 2024, algo em torno de R$ 539 milhões, segundo dados do International Trade Centre.

O salto ocorreu no mesmo período em que a guerra na Ucrânia afetou a cadeia produtiva russa, tradicional fornecedora do produto.

Even Pay, diretora da consultoria Trivium China e especialista em agricultura chinesa, resume a mudança de percepção que acompanha esse crescimento. Ela nota que, por décadas, o selo "Made in China" foi associado a produtos baratos e de qualidade inferior, mas que, na última década, surgiram marcas chinesas capazes de entregar produtos de alto padrão a preços mais competitivos.

Produtores franceses acompanham o movimento com cautela. Segundo o WSJ, representantes do sindicato francês do setor, o CIFOG, confirmam que empresas chinesas já participam de feiras internacionais de alimentos e começam a buscar espaço em mercados fora da Ásia, incluindo regiões onde o produto francês ainda domina as prateleiras de maior prestígio.

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