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Além dos brindes: como o champanhe vem ganhando espaço no Brasil

Maisons como Krug e Moët & Chandon trazem safras antigas e ediçõs especiais, e o consumidor brasileiro começa a entender o espumante como vinho, e não como gesto

Ivan Ralston: TUJU vira embaixada da Krug (Krug/Divulgação)

Ivan Ralston: TUJU vira embaixada da Krug (Krug/Divulgação)

Pedro Fadanelli
Pedro Fadanelli

Especialista em vinhos

Publicado em 6 de julho de 2026 às 15h31.

Última atualização em 7 de julho de 2026 às 09h42.

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Champanhe sempre foi a bebida do brinde. Abre-se para comemorar um contrato fechado, um aniversário, uma vitória, e a garrafa costuma sumir da mesa assim que o gesto termina. Esse hábito vem de longe: Napoleão abria suas garrafas a cavalo, com a espada, ao fim de cada batalha vencida, e o gesto de celebração ficou colado ao produto desde então.

O que está mudando agora, no Brasil, é o depois do brinde. Cada vez mais gente pede a garrafa inteira para o jantar, guarda uma taça para o fim do dia, trata o champanhe como trataria um Borgonha ou um Barolo, prestando atenção em safra, produtor e terroir em vez de só levantar a taça e seguir em frente.

Um sinal recente e concreto dessa mudança veio da Krug. A maison acaba de anunciar o TUJU, de Ivan Ralston, eleito o melhor restaurante de 2026 segundo ranking Casual EXAME, como sua mais nova embaixada global, unindo-se ao Kinoshita, que ocupa o posto desde 2008. São 214 embaixadas em 42 países, e o Brasil passa a ter duas, as únicas da América Latina.

A inauguração oficial do TUJU como embaixada acontece hoje, segunda-feira, 6 de julho. A escolha de Ralston não é aleatória. Músico de formação, o chef encontrou na Krug uma casa que descreve seus próprios champanhes como composições de camadas, do mesmo jeito que notas formam uma harmonia. Olivier Krug, sexta geração da família à frente da maison, resume a lógica das embaixadas como lugares onde a casa ganha vida através de quem já compartilha seus valores, não como pontos de venda.

A Moët & Chandon também escolheu o Brasil para apresentar sua nova cuvée de prestígio, a Collection Impériale Création N.º 1, criada para marcar os 280 anos da maison e abrir a contagem regressiva para os 300 anos, em 2043. É uma homenagem a Claude Moët, fundador da casa, construída sobre a safra de 2013 e sete colheitas reunidas na composição.

Marie-Christine Osselin, à frente de vinho e enologia da marca, esteve em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia para apresentar o rótulo, e o volume de eventos por si só já diz algo sobre o tamanho que o mercado brasileiro ganhou para a casa.

Crescimento do mercado brasileiro

Do outro lado do espectro cresce a disputa por nomes de produtores pequenos, os chamados grower champagnes, que engarrafam a própria uva em vez de comprar de terceiros. Leclerc Briant, fundada em 1872 e pioneira em biodinâmica na região desde os anos 1970, é referência nesse movimento. Olivier Horiot, no Aube, trabalha com parcelas mínimas e vinificação parcela a parcela. Georges Laval, em Cumières, produz cerca de 10 mil garrafas por safra, com arado a cavalo e sem uso de produtos químicos desde 1971.

Aurélien Lurquin, em Chamery, vinifica à mão e sem aditivos numa propriedade que quase não aparece em listas de importação. Jérôme Prévost, com seu Les Béguines, trabalha apenas dois hectares de Pinot Meunier em Gueux e é hoje um dos nomes mais cobiçados por quem já esgotou o repertório dos rótulos grandes. São garrafas que chegam em lotes de poucas dezenas e somem das importadoras em dias.

Ao mesmo tempo, os importadores especializados vêm trazendo mais safras antigas e edições especiais das grandes casas, como vintages de Dom Pérignon, Cristal e RD de Bollinger, categorias que antes só se encontravam em viagem. É um sinal direto de maturidade: essas garrafas não vendem por impulso, exigem um comprador que já sabe o que uma safra específica representa.

O Brasil ainda responde por menos de 2% do consumo global de champanhe, mas é um dos poucos mercados do mundo onde a bebida cresce junto com o consumo de vinho como um todo, movimento que também trouxe a Charles Heidsieck ao país em 2026.

O ponto comum a tudo isso é a mudança de hábito. O champanhe brasileiro segue nascendo do brinde, herança direta daquele gesto napoleônico, mas cada vez mais ele também aparece fora da comemoração, aberto num jantar a dois ou como taça única no fim do dia. Entender o champanhe como vinho, e não só como gesto, é o que está transformando um mercado que crescia por reflexo em um mercado que começa a crescer por repertório.

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