Desfile outono / inverno da Prada na Semana de Moda de Milão em 2025: identidade e resultados (Victor Virgile/Gamma-Rapho/Getty Images)
Editor de Casual e Especiais
Publicado em 26 de abril de 2026 às 10h00.
Última atualização em 26 de abril de 2026 às 11h36.
Como era a Prada em 2006, ano em que foi lançado O Diabo Veste Prada, e agora em 2026, quando chega nos cinemas a continuação do filme?
O filme poderia ter sido O Diabo Veste Gucci, O Diabo Veste Louis Vuitton, Chanel, Dior, Hermès. Ou qualquer outra grife de moda. Não foi nenhum desses nomes. O Diabo veste é Prada mesmo.
Existe um motivo para isso. Para entender como a marca se transformou e destacou nesse intervalo de 20 anos é preciso voltar ao começo de tudo.
Mario Prada costumava dizer que mulheres e negócios não deveriam se misturar. É o que reza a lenda. Ironicamente, a grife que ele fundou em 1913 tornou-se um símbolo da moda feminina graças à forte presença de sua neta.
A Prada nasceu vendendo baús e artigos finos de couro, com uma primeira loja na Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão. Nos anos 1960, consolidou-se no segmento de calçados. Até que em 1975, Miuccia, a neta de Mario, uma feminista militante do Partido Comunista Italiano, entra para o negócio.
Miuccia casou-se com Patrizio Bertelli. Foi uma união de talento criativo com processo industrial e disciplina financeira. Miuccia desenhou a identidade da marca e Bertelli estruturou a empresa. A primeira coleção de moda feminina foi lançada em 1988. A masculina, em 1993.
A Prada carregava então o estigma de ugly chic, uma certa estranheza no meio, devido principalmente ao lançamento de uma mochila preta de nylon na década anterior. Até então, os tecidos permitidos na indústria da moda iam da seda ao couro, do linho à vicunha.
O nylon então estava em ambientes menos nobres, do uso militar aos esportes outdoor. A Prada criou uma versão própria do tecido sintético chamada pocone, mais sedosa, mas ainda assim resistente e repelente à água, como um manifesto. O novo material foi incorporado também ao ready-to-wear, que já carregava uma estética então pouco óbvia.
A Prada encontrou um caminho próprio, com uma identidade forte, e conquistou uma nova clientela. Não é exagero dizer que era, em meados dos anos 2000, a marca do momento. Vale lembrar que na época de lançamento do filme fazia apenas quatro anos que estava presentes nos Estados Unidos. O filme com Meryl Streep e Anne Hathaway captou o zeigeist.
Em 2006, a receita do grupo girava em torno de 1,5 bilhão de euros, segundo estimativas de mercado compiladas por bases como Companies Market Cap, abaixo de concorrentes diretos como Gucci, do grupo Kering, com cerca de 2,1 bilhões de euros, e muito distante das marcas de conglomerados como LVMH.
Hoje, a empresa comemora 20 trimestres consecutivos de crescimento, um ponto fora da curva em uma indústria que em geral tem andado de lado ou apresentado quedas expressivas, como a própria Gucci. Em 2025, o faturamento foi de 5,7 bilhões de euros, um crescimento de 9% em relação ao ano anterior.
Os principais mercados da Prada são Ásia-Pacífico, com 33% de market share, Europa com 31% e 18% Américas. O grupo está listado na Bolsa de Hong Kong desde 2011. “Foi um crescimento mesmo em um cenário de desafios macroeconômicos e todo o contexto da nossa indústria”, afirmou no reporte aos investidores o chairman, ele ainda, Patrizio Bertelli.
A trajetória de uma empresa nunca é linear. A Prada tentou ser uma house of brands, com aquisição das marcas Jil Sander, Helmut Lang e Church’s. Bertelli mesmo reconheceu depois que essas compras foram erros estratégicos, tiraram o foco da marca principal. A Church’s segue no grupo.
Já o lançamento da Miu Miu, abreviação de Miuccia, em 1993, revelou-se um sucesso. Em 2025, a marca para um público mais jovem respondeu por pouco mais de um quarto do total do faturamento. Mais do que isso, foi a grande responsável pelo resultado do ano passado, com um incremento de 35%. A Prada mesmo cresceu apenas 1%.
No ano passado, a Prada voltou a fazer aquisições. Desta vez o alvo foi a Versace, por 1,4 bilhão de euros. Pode-se dizer que foi uma espécie de movimento de resistência. Nas últimas duas décadas, marcas italianas como Gucci, Bottega Veneta e Fendi foram sendo compradas por grupos franceses. Os comandos locais foram então diminuídos.
E qual é a identidade da Prada hoje? Em 2020, Raf Simons foi anunciado como co-diretor criativo da Prada e passou a dividir a autoria das coleções com Miuccia. Foi uma configuração inédita no luxo: dois designers de mesmo nível, com igual poder de decisão. Muita gente apostou no fracasso. Até agora, foram cinco anos de sucesso.
Na última Semana de Moda de Milão, em fevereiro, a Prada arrancou muitos elogios da crítica especializada por apresentar uma coleção extremamente enxuta, que serviu como reflexão sobre o excesso de consumo na moda. Foram apenas 15 modelos, que desfilaram quatro vezes cada. A cada aparição, elas apareciam com uma peça a menos.
Saias, paletós, jaquetas, tricôs iam aparecendo a cada nova entrada. Tudo dentro da identidade da marca, que traz formas amplas, relaxadas, com cinturas pouco marcadas, blazers um pouco mais desestruturados.
A Prada também ficou marcada pelo uso das chamadas roupas utilitárias, como macacões e calças e casacos com bolsos. Miuccia sempre disse que para ela o importante é valorizar a beleza das roupas comuns. A empresa tem em torno de 20 fábricas próprias e seu modelo de distribuição é quase todos de canal direto.
A Prada levou sua marca para outros territórios. Em 1993, mesmo ano em que a Miu Miu foi lançada, foi criada a Fondazione Prada, um espaço cultural em Milão onde antigamente funcionava uma destilaria. O projeto é de Rem Koolhaas. São sete edifícios com salas de exposição e um bar projetado por Wes Anderson. Para quem está pela cidade.
É dessa forma, disruptiva, porém lucrativa, com o nome presente além das passarelas, nas galerias das artes e nas competições sobre as águas, como sinônimo de moda no cinema, que a Prada conquistou até o Diabo.