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O mistério por trás do uísque japonês

A falta de regulamentação permitiu que destilados estrangeiros fossem vendidos como japoneses. Agora, o setor tenta mudar essa história

Publicado em 6 de junho de 2026 às 09h56.

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Vou começar essa coluna com uma revelação, para os que já não sabem. Nem todo uísque japonês é japonês de verdade. Até hoje, quase não há leis no Japão relativas à produção e comercialização de uísque. Quer dizer, mais ou menos.

E, por conta disso, ainda é permitido que um uísque destilado e maturado em outro país e engarrafado no Japão seja rotulado como uísque japonês. Ou seja, alguém pode criar uma marca de uísque japonês sem nunca ter destilado uma gota de nada. Comprar líquido de outro país, engarrafar no Japão, estampar a garrafa com um samurai ou a grande onda de Kanagawa — porque redundância nunca é demais quando se quer enganar o outro — e rotular como uísque japonês.

Essa prática pode parecer absurda, mas, historicamente, faz sentido. No começo, o Japão possuía poucas destilarias. E importar o produto a granel e misturá-lo com uísque japonês feito no Japão — note que o pleonasmo é proposital — era uma forma de aumentar a qualidade sensorial. A total ausência de lei, assim, tinha uma função.

Essa omissão, por muito tempo, foi inofensiva. Especialmente porque o uísque japonês não era a febre que é hoje. A história, porém, passou a mudar lá por 2015. Naquele ano, o Jim Murray – um dos mais conhecidos especialistas em uísque da atualidade – elegeu o Yamazaki Single Malt Sherry Cask 2013 como melhor uísque do mundo. Segundo o autor, em uma declaração eivada de humildade, aquela escolha era uma chamada para que a indústria do uísque escocês despertasse. Messiânica, essa missão de Murray.

Soma-se a isso uma novela, chamada Massan, que contava a história romantizada da aurora do uísque nipônico. Além de um filme, estrelado por uma jovem Scarlett Johansson e dirigido por Sofia Coppola. Encontros & Desencontros. Ou, no original, Lost in Translation, que trazia um dos product placements mais inteligentes da história do cinema, com o Suntory Hibiki.

O uísque japonês se tornou inacreditavelmente cobiçado. Consequentemente, o estoque de uísques  verdadeiramente japoneses mais maturados quase zerou. E, os que restaram, passaram a ser vendidos a preços astronômicos. Além disso, a falta de regulamentação deu espaço para o oportunismo. Certas empresas passaram a se aproveitar desta permissividade histórica para ludibriar o consumidor. Comprar uísques baratos e engarrafá-los no Japão, rotulando-os como uísque japonês.

Porém, em 2021, a obsolescência da ausência de regras foi notada. Uma associação de produtores de bebidas japonesas – a Japan Spirits & Liqueur Makers Association – resolveu agir. Criaram uma série de regras, semelhantes àquelas da Escócia, para regulamentar a produção e rotulagem de uísque no Japão.

A regulamentação, que entrou parcialmente em vigor, determina que a malteação, fermentação, destilação e maturação do uísque devem ser feitas no Japão. Diz também que a graduação alcoólica mínima deve ser 40%, e o tempo de maturação mínimo, 3 anos.

E, mais importante que isso, não deve haver quaisquer expressões ou termos entre as palavras “japanese” e “whisky”, exceto para indicar o tipo de uísque – por exemplo, single malt ou blended. E para os espertinhos, sinônimos também estão abarcados pela regra. Então, nada de um uísque nipônico, por exemplo.

Mas é importante apontar que, ao contrário da Escócia e sua Scotch Whisky Association, as regras não têm força de lei. Mas são válidas para os integrantes da associação. O que, na prática, não significa o fim do uísque japonês não japonês. Mas é um passo importante na transparência de um mercado já há anos carente de alguma transparência.

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