A villa de Aldo Gucci na Via della Camilluccia, em Roma, cercada por um parque de 2,5 hectares com piscina (Reprodução/Nash Luxury)
Jonalista colaborador
Publicado em 29 de outubro de 2026 às 17h00.
Caminhões carregados de móveis, roupas e objetos passaram dias fazendo o trajeto entre a Via della Camilluccia, uma das ruas residenciais mais exclusivas do norte de Roma, e um mercado de usados no Viale Somalia, no Quartiere Africano. A carga saiu da villa construída por Aldo Gucci depois da Segunda Guerra e, nos últimos dias, passou a ocupar as prateleiras de uma loja franqueada que recebe colecionadores, fãs de vintage e curiosos em busca de um pedaço da história da família.
Duas formas de sapato de madeira com o nome Gucci gravado na base saíram por 34 euros (cerca de R$ 200) e 45 euros (R$ 268), uma moldura sem vidro foi vendida por 67 euros (R$ 400) e um criado-mudo de madeira pintada de verde, por 112 euros (R$ 666). Ainda estão expostos bolsas vintage, vasos, moletons nas cores da grife, uma cadeira dobrável de couro, um jogo de copos em formato de cervo e um coldre de pistola com a assinatura da marca. “Há muita procura, ligam para saber se são mesmo produtos de grife”, disse Roberto, dono da franquia, à imprensa local.
O material foi deixado em consignação por Alessandro Gucci, descendente da família, que procurou a loja pessoalmente, e o valor das vendas volta para os herdeiros. Em paralelo, o anúncio da casa desapareceu do site da Barnes International, imobiliária responsável pela negociação, mas a venda e o nome do comprador não foram confirmados oficialmente.
Aldo Gucci, filho mais velho de Guccio Gucci, que fundou a marca em Florença em 1921, mudou-se para Roma no fim dos anos 1940 para acompanhar a expansão dos negócios e concluiu a villa em 1951. O projeto mistura villa toscana e casa de campo inglesa, uma referência à origem britânica de sua primeira mulher, Olwen Price. Aldo presidiu a Gucci de 1953 a 1986.
A casa principal tem quatro andares, 12 quartos, sala de bilhar e terraço com vista para o centro de Roma. Uma segunda residência, com cerca de 900 metros quadrados, foi erguida nos anos 1960 para um dos filhos de Aldo e precisa de reforma. O conjunto fica num parque de 2,5 hectares com piscina e entrou no mercado em 2023 por 15 milhões de euros (cerca de R$ 89 milhões). Em abril deste ano, o preço caiu para 11,5 milhões de euros (R$ 68 milhões).
O valor pedido pela casa equivale a menos de 1% do que a Kering, dona da Gucci, pagou em 2024 pelo prédio da Via Monte Napoleone 8, em Milão, comprado por cerca de 1,3 bilhão de euros (R$ 7,7 bilhões). Nos últimos anos, a marca vem investindo na própria memória com projetos como o Gucci Archive, aberto em 2021 no Palazzo Settimanni, em Florença, prédio comprado pela empresa em 1953 e usado como fábrica e showroom, que recebeu o desfile Cruise 2026. Na criação, Demna estreou com a coleção La Famiglia, construída sobre personagens ligados ao imaginário da elite italiana.
A estratégia financeira do grupo, porém, tem seguido na direção de vender imóveis. Para reduzir a dívida líquida, que chegou a 10,5 bilhões de euros no fim de 2024, a Kering negociou 60% de três prédios em Paris com o fundo Ardian por 837 milhões de euros, repetiu o modelo em Nova York e, em abril, cedeu 80% do endereço da Monte Napoleone ao grupo catariano Al-Mirqab. No terceiro trimestre, a Gucci faturou 1,291 bilhão de euros, queda de 6% em base comparável, e o grupo prevê fechar ao menos 125 lojas em termos líquidos até dezembro.
Na capital italiana, a marca mantém a loja histórica da Via Condotti. O escritório de estilo, sediado em Roma desde 2009, foi transferido para o hub da Via Mecenate, em Milão, após anúncio feito em 2023.