Os 13 perfumes da coleção Dioriginals, restaurados por Francis Kurkdjian a partir das fórmulas originais (Reprodução/Dior)
Jonalista colaborador
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 16h34.
O Diorama, chipre floral e especiado que Edmond Roudnitska compôs para a Dior em 1949, passou décadas recebendo ajustes de fórmula impostos por regulamentações da indústria e por mudanças no fornecimento de matérias-primas. Ano após ano, as alterações foram se acumulando até que o perfume vendido nas lojas guardasse pouca semelhança com aquele que saiu do laboratório no pós-guerra.
O caso do Diorama se repetiu com outras criações históricas da casa e motivou a Dioriginals, coleção que reúne 13 assinaturas restauradas pelo diretor de criação de perfumes Francis Kurkdjian. As fragrâncias chegam ao mercado no frasco "Oval" de 1948, o mesmo que abrigou os primeiros ícones da marca. Kurkdjian está na Dior desde 2021 e é também o nome por trás do Baccarat Rouge 540, um dos perfumes mais vendidos do mundo.
No comunicado de lançamento, o perfumista comparou o cuidado com um perfume ao de uma obra de arte frágil, sujeita à ação do tempo. Segundo ele, a ideia foi usar novas tecnologias para recuperar as fórmulas originais e devolver o equilíbrio das composições, levando em conta que colheitas, terroir e oferta de ingredientes também mudam ao longo dos anos.
Diorissimo, floral de lírio-do-vale criado por Edmond Roudnitska em 1956 (Reprodução/Dior)
O trabalho consumiu quatro anos e envolveu o estúdio criativo de perfumes da Dior. Parte da complexidade vem da forma como a indústria operava décadas atrás, quando as grifes encomendavam perfumes a grandes fornecedores de fragrâncias e esses fornecedores mantinham os direitos sobre as fórmulas. Segundo críticos especializados, as versões originais de Higher e Dune foram desenvolvidas pela Givaudan, e a de Dolce Vita, pela IFF.
O Eau Fraîche, criado por Roudnitska em 1955 e considerado pioneiro entre os perfumes frescos, era o perfume que o próprio Christian Dior usava. Na restauração, Kurkdjian reforçou a qualidade dos cítricos, como bergamota, limão, tangerina e laranja, refez o acorde de manjericão e estragão que estava ameaçado pelas regras do setor e eliminou acréscimos que não constavam da fórmula original.
Com o Diorling, de 1963, o desafio foi substituir ingredientes hoje proibidos, como o almíscar de ambreta. Criado por Paul Vacher, o perfume é um chipre de acentos britânicos cujo nome brinca com a palavra inglesa "darling". A partir da fórmula guardada nos arquivos da marca, o perfumista recuperou os aldeídos, a qualidade do jasmim e as notas de musgo de carvalho da base.
Forever and Ever, criado por Jean-Pierre Béthouart em 2002, reúne amêndoa, rosa silvestre e ambreta (Reprodução/Dior)
Kurkdjian organizou o conjunto em duas fases. A primeira, batizada de "Dior in Grasse", homenageia as obras de Roudnitska e o Diorling de Vacher, também conhecido como o "pai" do Miss Dior. Entre as peças desse grupo está o Diorissimo, de 1956, um floral construído sobre o lírio-do-vale que o perfumista descreve como um clássico ainda ensinado em escolas de perfumaria. Para recuperar sua luminosidade, a equipe reconstruiu o acorde de muguet e introduziu uma nova qualidade de jasmim.
A segunda fase, "Dior in Paris", abrange criações lançadas entre 1979 e 2003. Fazem parte dela o Dioressence, de Max Gavarry, apontado pela marca como o primeiro perfume âmbar da casa, e o Jules, criado por Jean Martel em 1980 com lavanda, sálvia e pimenta-preta. No masculino, Kurkdjian reajustou especiarias, musgos e fava tonka, e passou a usar a lavanda em combinação de essência e absoluto.
Os anos 1990 e 2000 aparecem com o Dune, assinado por Jean-Louis Sieuzac e Dominique Ropion em 1991, o Dolce Vita, de Pierre Bourdon, lançado em 1995 com pêssego, rosa e baunilha, e o Forever and Ever, criado por Jean-Pierre Béthouart em 2002 com amêndoa, rosa silvestre e ambreta. Completam a coleção Higher, Higher Energy, Diorella e Dune Pour Homme. Nos Estados Unidos, cada frasco custa US$ 155, cerca de R$ 820 na cotação atual.