Cinema: entre Europa e América Latina, muita coisa acontece no rolo de um filme
Repórter de Casual
Publicado em 22 de julho de 2026 às 16h56.
Última atualização em 22 de julho de 2026 às 16h58.
A Espanha venceu o segundo título da história da Copa do Mundo de 2026 contra a Argentina. Mas além do confronto entre Lamine Yamal e Lionel Messi, fruto de vários memes compartilhados nos últimos dias, há uma fisga a mais a ser explorada entre os dois países: quem será que leva a taça no cinema?
Brincadeiras de Copa à parte, definir um vencedor entre essa disputa é mais difícil que um mundial de futebol. O cinema da Espanha, para começar, é bastante diferente do cinema da Argentina. As propostas visuais são diversas, a história de um é oposta à do outro, a temática latino-americana se distancia da europeia e por aí vai. Qualidade artística, relevância política e filmografia premiada, entretanto, são pontos em comum para as duas nações.
O país latino-americano, por exemplo, tende a ser marcado nas telonas pelo realismo social e pela crise política. É uma consequência dos efeitos da colonização espanhola e da formação de uma república democrática que oscila, vinda de um país que enfrentou sete anos de ditadura militar e passou por crises políticas e econômicas com o passar das décadas.
Já o europeu vai por outro caminho. Os filmes espanhóis costumam trabalhar o autoral, o melodrama, a sátira e a experimentação visual. O recorte histórico inclui o pós-guerra mundial, o franquismo e a transição democrática, que moldaram temas, censura e linguagem cinematográfica.
Diante das diferenças, será que é possível compará-los? A Casual EXAME chamou Mariane Morisawa, jornalista e crítica de cinema, e Flávia Guerra, jornalista especialista em cinema, documentarista e crítica, para traçar uma avaliação da filmografia de ambos os países. Elas analisaram história e indústria, estilo e temas, e circulação internacional para compará-los. Confira:
Na esquerda, o radical Arturo Umberto Illia, primeiro general no regime militar Argentino. Na direita, Francisco Franco, ditador da Espanha.
A formação das duas indústrias reflete o contexto político dos países. Na Espanha, o cinema enfrentou a ditadura de Francisco Franco até 1975. Entre uma série de outras censuras, o regime mirou o cinema e provocou um êxodo de talentos culturais.
Mariane Morisawa lembra esse período como formador de temática e exportador do cinema espanhol. "O franquismo é uma ditadura longa que afetou demais o país e levou os maiores cineastas a outros lugares. Luis Buñuel, um dos maiores cineastas espanhóis, fez a carreira dele quase toda fora da Espanha, por exemplo", explica ela. O fim do regime deu origem à Movida Madrilenha, movimento cultural que impulsionou a carreira de Pedro Almodóvar. Hoje, o país atua com apoio estatal e órgãos como a Egeda — a Ancine espanhola.
No que tange à política ditatorial, entretanto, a Espanha não fica distante da Argentina. O país latino também viveu a ditadura militar entre 1976 e 1985, mas carrega marcas profundas da colonização e das crises econômicas. "Os períodos de falta de democracia são nocivos para a cultura, e não foi diferente na Argentina. O cinema mundial depende de incentivos governamentais e, em geral, as ditaduras não costumam gostar muito de cultura", defende Morisawa.
Apesar da censura, essas temáticas foram levadas às telonas. Se é possível tirar algo de positivo em um cenário como esse, pode-se dizer que ele veio do reconhecimento do país de si mesmo, pautado pela cultura. "A Argentina é guerreira como no futebol; quando o assunto é cultura, eles não desistem. São nacionalistas com os títulos e histórias contadas, os filmes são de lá, os atores trabalham lá e têm orgulho disso", afirma Flávia Guerra.
Nos anos 1990, após o fim da ditadura, o INCAA (Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais) estruturou a indústria local e fortaleceu a produção. O cenário atual, sob a gestão de Javier Milei, impõe retrocessos ao setor. "A Argentina sofre com um governo que extinguiu o Ministério da Cultura e o rebaixou à condição de subsecretaria. O INCAA sofreu cortes tão drásticos que o país vai ter menos de 100 estreias no cinema nacional", alerta Flávia.
Decidir o melhor entre um e outro, nota-se, é uma tarefa impossível.
Política à parte, é importante comparar como Espanha e Argentina transportaram as marcas de suas histórias para as telas. As opções estéticas dos diretores espanhóis passeiam entre o melodrama, a sátira e a experimentação visual. A filmografia acolhe nomes como Víctor Erice e Albert Serra, a delicadeza de Carla Simón, a sátira de Pedro Almodóvar e a linguagem queer de Los Javi.
Flávia destaca que a abordagem política surge de forma indireta nos filmes espanhóis. A temática se mistura a assuntos universais e gera identificação entre públicos de dentro e de fora do país. "A Espanha nunca deixou de tratar de seus temas políticos, mas faz isso de forma um pouco mais indireta em diversos filmes e séries", destaca ela.
Já o cinema da Argentina construiu identidade pelo realismo social, pela crítica às instituições e, sobretudo, pelas histórias focadas em relações familiares. Em 1985, ao fim do regime militar, foi o primeiro país latino-americano a conquistar o Oscar de Melhor Filme Internacional, com A História Oficial, cuja narrativa foca na vida de uma professora da classe média que descobre que a criança que adotou pode ser filha de presos políticos da ditadura.
Embora tenha conquistado espaço internacional no século passado, foi a partir dos anos 2000 que os títulos argentinos ganharam fôlego nas bilheterias. O estilo de filme do país virou modelo para a América Latina e viu o ápice nas produções estreladas por Ricardo Darín.
"Na época do boom, muitos dos títulos eram filmes sobre famílias. Filmes bem feitos, com roteiros redondos, bem atuados, muitos deles estrelados pelo Darín. Fizeram muito sucesso internacional, inclusive no Brasil", relembra Mariane.
Ela ressalta, ainda, que houve um ponto de virada temático a partir das obras de Lucrecia Martel, que abriu portas para um estilo de filme mais crítico e político. "O Pântano foi um dos que conseguiu fugir desse modelo de histórias de família, daquelas mais reconfortantes. Eram obras visualmente mais ousadas e tinham um olhar crítico sobre a classe média, sobre a sociedade argentina em geral."
Na conexão com o espectador por meio de histórias humanas e atuações marcantes, a Argentina leva vantagem na América Latina, porque se aproxima da vivência de seus países vizinhos. Mas a Espanha não fica nada atrás pela pluralidade de temas e estilos.
Entre Espanha e Argentina, as temáticas se diferenciam
Nos dias atuais, na comparação entre os dois países, a Espanha leva vantagem no circuito global. O financiamento contínuo do governo e a atuação da Egeda garantem presença em festivais como Cannes e Veneza e na disputa por premiações como o Oscar.
O país já recebeu quatro estatuetas do Oscar de Melhor Filme Internacional, com Começar de Novo (1982), Belle Époque (1993), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Mar Adentro (2004). Em Cannes, Viridiana, de Luis Buñuel, venceu a Palma de Ouro, e outros 12 títulos receberam prêmios do júri, de atuação e de direção.
"Depois da indicação de Sirat ao Oscar e agora, com a provável indicação de La Bola Negra neste ano, o país mostra que se consolidou como forte polo de cinema contemporâneo europeu. Isso tudo é fruto de investimento no audiovisual como política pública", complementa Flávia. O país também se firmou como um polo produtor de séries para plataformas de streaming a partir do sucesso de La Casa de Papel.
"A Espanha está com tudo no cinema mundial. A gente tem visto dois, três filmes por ano na competição de Cannes. É um governo que investe na cultura, e isso se reflete no que a gente vê nas telas", acrescenta Morisawa.
A Argentina, por outro lado, construiu histórico de reconhecimento no exterior pela nacionalidade dos títulos. Foram, até agora, duas estatuetas do Oscar — a primeira em 1985 e a segunda com O Segredo dos Seus Olhos (2009) —, além de um recente respiro nas premiações com Argentina, 1985, estrelado por Darín. O título concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional, mas perdeu a estatueta para o alemão Nada de Novo no Front, em 2023.
Apesar da crise orçamentária atual e do corte de incentivos, a força do cinema argentino reside na capacidade de resistência dos criadores. "O audiovisual do país, que nunca parou e resiste, vai voltar mais forte assim que a política permitir", conclui Guerra.
Em resumo, a disputa entre as duas cinematografias revela forças distintas em cada lado do Oceano Atlântico. A Espanha domina o momento atual com investimentos públicos, presença constante em festivais globais e estabilidade de mercado. A Argentina, por sua vez, carrega um histórico de conexão com o público latino-americano, roteiros marcantes e capacidade de resistência cultural diante de crises políticas.
No placar geral, é difícil definir um vencedor. Melhor deixar os títulos e vitórias para o futebol e assistir ao que há de bom nos dois países da poltrona do cinema.