Bússola
Um conteúdo Bússola

Vozes: Mais mulheres no Congresso, mas quais mulheres?

Câmara e Senado têm a maior presença feminina da história. Quando cruzamos gênero e raça a pergunta que fica é: quem ficou de fora da fotografia?

A conta que importa não é só quantas mulheres ocupam as cadeiras, mas quais conseguem chegar até lá (Shutterstock)

A conta que importa não é só quantas mulheres ocupam as cadeiras, mas quais conseguem chegar até lá (Shutterstock)

Bússola
Bússola

Plataforma de conteúdo

Publicado em 22 de outubro de 2026 às 10h00.

Priorizar nos meus resultados Google
RESUMO +

As eleições de 4 de outubro de 2026 definiram uma Câmara dos Deputados com 109 mulheres e elegeram 12 senadoras, recordes de representação feminina no Congresso. Segundo o TSE, as mulheres são 52,84% do eleitorado e conquistaram 21,2% das cadeiras da Câmara. O levantamento da Alma Preta mostra que o crescimento foi maior entre mulheres brancas.

Por Pétala Augusto*

Em 4 de outubro, as urnas produziram um recorde que merece ser celebrado.

A Câmara dos Deputados terá 109 deputadas a partir de fevereiro de 2027, a maior bancada feminina da sua história e 21,1% a mais do que em 2022.

No Senado, foram eleitas 12 mulheres entre as 54 vagas em disputa, o maior número em um único pleito desde a redemocratização. Em 2002, o recorde anterior havia sido oito.

Além disso, o Distrito Federal terá, pela primeira vez, uma bancada formada só por mulheres.

Cada uma dessas cadeiras é resultado de décadas de organização, formação e coragem de mulheres que abriram caminho. Celebrar é justo, e este texto começa assim.

Mas devemos observar também o que os mesmos números mostram quando olhamos com mais atenção.

As mulheres foram 37% das candidaturas à Câmara e conquistaram 21,2% das cadeiras. Entretanto, elas somam 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o TSE1.

Entre os governos estaduais definidos no primeiro turno, só uma mulher venceu, em Pernambuco, e três unidades da Federação (Distrito Federal, Piauí e Roraima) não elegeram nenhuma deputada federal.

Existe uma inquietação diante desse quadro, porque a pergunta que ele impõe vai além de quantas mulheres chegaram ao poder, número que, vale lembrar, ainda está longe de refletir a população: quais mulheres chegaram?

Presença não é o mesmo que projeto

A bancada feminina é plural, e isso é próprio da democracia.

Na Câmara, o PT elegeu o maior número de deputadas (25), seguido de perto pelo PL (22).

Segundo levantamento da Alma Preta, com dados do TSE e uma classificação acadêmica dos partidos, 43% das eleitas na Câmara vêm de partidos de esquerda ou centro-esquerda, e 40% de direita ou extrema-direita.

No Senado, cinco das 12 eleitas pertencem a legendas de direita, e a maior bancada feminina é a do PL.

Ter mais mulheres no Congresso não garante, por si só, mais defesa dos direitos das mulheres.

A presidenta da União Brasileira de Mulheres de São Paulo, Cláudia Rodrigues, lembra que eleger uma mulher só por ser mulher não basta: o que importa é o compromisso com as trabalhadoras, com as mulheres pretas e com um projeto de país para a maioria.

O Ministério das Mulheres afirma algo parecido: o avanço só vira igualdade se houver compromisso com os direitos das mulheres e com o combate à misoginia, ao racismo e à LGBTfobia.

Um exemplo ilustra essa diferença: Carol de Toni (PL-SC), eleita ao Senado, apresentou em 2020, quando era deputada pelo PSL, o Projeto de Lei 4213/20, que prevê a extinção da reserva mínima de 30% das vagas para mulheres nas candidaturas proporcionais.

À época, a autora afirmou que a proposta não buscava marginalizar a participação feminina, e sim reduzir a insegurança jurídica enfrentada pelos partidos.

Quem fica de fora da fotografia

É aqui que a interseccionalidade deixa de ser conceito e vira critério de leitura.

Mulheres não partem do mesmo ponto.

Raça, classe, território, orientação sexual, identidade de gênero e deficiência determinam quem consegue se candidatar, quem tem acesso a recursos de campanha, quem sustenta uma candidatura e quem sobrevive à violência política.

Os dados da Alma Preta, com base na autodeclaração de raça/cor no registro de candidatura, mostram um avanço desigual.

Na Câmara, a bancada feminina cresceu sobretudo por causa das mulheres brancas, que passaram de 56 para 73 deputadas.

As mulheres negras (pretas e pardas) foram de 31 para 34, praticamente estáveis: 6,6% das cadeiras, embora representassem 18,2% das candidaturas.

Já os homens brancos, que eram 33,7% das candidaturas, ficaram com 58,7% das cadeiras.

No Senado, das 12 eleitas, 10 se autodeclararam brancas e 2 pardas. Nenhuma é preta.

Em 2018, na última eleição que também renovou dois terços da Casa, eram cinco brancas e uma negra.

O padrão se repete: mais mulheres, mas o ganho está concentrado em quem já tinha mais chances na partida.

Isso não diminui as conquistas das eleitas.

Revela que o recorde de gênero convive com um limite de raça, e que o filtro está antes da urna: financiamento, tempo de TV, apoio partidário.

A mesma análise mostra que a maior proporção de mulheres negras eleitas está na esquerda e na centro-esquerda: das 13 deputadas pretas, 12 estão nesses partidos. Na direita, a maioria das eleitas é branca.

Há sinais de que o limite pode ser rompido, mas eles dependem de campanhas extraordinárias.

Erika Hilton (PSOL-SP), primeira deputada federal negra e trans da história do país, recebeu 1.596.472 votos, a maior votação já registrada por uma mulher para a Câmara, superando os 1.078.666 de Joice Hasselmann em 2018.

É mais de seis vezes a votação que ela teve em 2022, quando recebeu 256.903 votos.

Ana Elisa (PT-MG), mulher negra de 21 anos, teve 524.219 votos, a sétima maior votação do país.

São vitórias que merecem aplauso e que mostram o que acontece quando há mobilização. O que desejamos é que deixem de ser exceção.

Por que insistir na interseccionalidade? Porque a média esconde.

Se olhássemos apenas o gênero, o resultado de 2026 seria uma boa notícia, são mais mulheres em todas as Casas.

Foi o cruzamento com raça que mostrou onde o filtro age e quem ele barra.

Sem esse olhar, a desigualdade que opera antes da urna continua invisível e, portanto, sem solução: não se corrige o que não se enxerga.

Quando falamos de interseccionalidade, falamos de uma pergunta simples e exigente: quem está na sala onde se decide, e o que está sendo decidido?

O caminho começa antes da urna

A desigualdade que vemos no resultado começa nas candidaturas, no acesso ao financiamento, na formação política e no apoio que as mulheres recebem, ou não, para se imaginarem líderes.

A Lei nº 14.192/2021 reconhece a violência política contra a mulher como obstáculo à democracia, e o Ministério das Mulheres lembra que o acesso a recursos e o enfrentamento às discriminações são condições para que elas apresentem propostas.

Pense numa adolescente de 15 anos decidindo se a política é um lugar para ela. Ela observa quem governa, quem legisla, quem aparece e quem fica de fora.

Quando não se enxerga, precisa de, no mínimo, mais coragem.

E o olhar interseccional vale já nessa idade: a menina negra, periférica ou de uma comunidade historicamente negligenciada tende a encontrar mais barreiras do que outra com mais acesso, antes mesmo de pensar em candidatura.

Foi para enfrentar essa desigualdade desde a base que a Elas no Poder realizou o Meninas Cidadãs, que contou com a parceria do UNICEF e atendeu meninas e jovens de 12 a 21 anos de comunidades vulneráveis ou historicamente negligenciadas.

Presente em oito cidades (Manaus, Belém, Recife, São Luís, Salvador, Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro), o projeto ofereceu oficinas, mentorias e atividades coletivas sobre direitos humanos, justiça racial e de gênero, saúde mental e políticas públicas.

Em 2024, realizou oficinas com 240 adolescentes e identificou cerca de 70 com perfil de liderança; já em 2025, cerca de 125 participaram diretamente, organizadas em sete núcleos territoriais, e o projeto levou as demandas das próprias adolescentes a representantes municipais do Legislativo e do Executivo.

A aposta é simples: quem aprende a ocupar espaços de decisão na adolescência chega à urna, à candidatura e ao mandato com mais rede e mais confiança.

O que desejamos, e o que pedimos

Desejamos um Congresso em que todas as mulheres, em toda a sua diversidade, possam chegar, permanecer e transformar. Para isso, deixamos três convites a quem lê:

  • Acompanhe os mandatos. Quem foi eleita, como vota, que pautas defende. Fiscalizar é parte de participar, e vale para eleitas de qualquer campo.
  • Apoie lideranças diversas antes das próximas campanhas, com formação, mentoria e financiamento.
  • Abra espaço para meninas e adolescentes nas escolas, nas comunidades e nas conversas sobre voto e participação política.

O segundo turno é em 25 de outubro, e quatro mulheres ainda disputam governos estaduais (Acre, Amazonas, Tocantins e Distrito Federal).

Seja qual for o resultado, o recorde de 2026 é um ponto de partida, e não de chegada.

A conta que importa não é só quantas mulheres ocupam as cadeiras, mas quais conseguem chegar até lá e como a presença se reflete para aquelas que ainda estão fora.

*Pétala Augusto é coordenadora de Gestão de Voluntárias na Elas no Poder.

Nota de transparência: Inteligência Artificial foi usada na revisão e organização das referências.

'Perguntas frequentes'

Quantas mulheres foram eleitas para a Câmara dos Deputados em 2026? +

A Câmara dos Deputados terá 109 deputadas a partir de fevereiro de 2027, a maior bancada feminina de sua história. O número representa um crescimento de 21,1% em relação às eleições de 2022.

Quantas mulheres foram eleitas para o Senado em 2026? +

Foram eleitas 12 mulheres entre as 54 vagas em disputa no Senado em 2026, o maior número registrado em um único pleito desde a redemocratização. O recorde anterior era de oito senadoras, eleitas em 2002.

Qual é a participação das mulheres no Congresso após as eleições de 2026? +

As mulheres conquistaram 21,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados nas eleições de 2026, embora representassem 37% das candidaturas. Segundo o TSE, elas correspondem a 52,84% do eleitorado brasileiro, o que evidencia a distância entre participação eleitoral e representação política.

Quantas mulheres negras foram eleitas deputadas federais em 2026? +

Segundo levantamento da Alma Preta, com base em dados de autodeclaração racial do TSE, 34 mulheres negras, entre pretas e pardas, foram eleitas para a Câmara dos Deputados em 2026, ante 31 em 2022. Elas representam 6,6% das cadeiras, embora correspondessem a 18,2% das candidaturas.

O que é o projeto Meninas Cidadãs, da Elas no Poder? +

O Meninas Cidadãs é um projeto realizado pela Elas no Poder, em parceria com o UNICEF, para formar meninas e jovens de 12 a 21 anos de comunidades vulneráveis ou historicamente negligenciadas. A iniciativa ofereceu oficinas, mentorias e atividades sobre direitos humanos, justiça racial e de gênero, saúde mental e políticas públicas em oito cidades brasileiras.

Quando será o segundo turno das eleições de 2026 e quais mulheres disputam governos estaduais? +

O segundo turno das eleições de 2026 está marcado para 25 de outubro. Segundo o texto, quatro mulheres disputam governos estaduais no Acre, Amazonas, Tocantins e Distrito Federal.

Acompanhe tudo sobre:MulheresPolítica

Mais de Bússola

Chatbot revela como o brasileiro fala sobre dinheiro

Menopausa e carreira: o que acontece quando a experiência encontra o silêncio?

Como evitar que demissões apaguem o conhecimento acumulado nas empresas

Festival Fisweek espera 15 mil pessoas para debater inovação em saúde