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Menopausa e carreira: o que acontece quando a experiência encontra o silêncio?

Levantamento aponta que 80% dos brasileiros veem falta de apoio às mulheres na menopausa no trabalho

Sem apoio à menopausa, empresas arriscam perder mulheres experientes, enquanto autonomia e diálogo ajudam a preservar talentos.

Sem apoio à menopausa, empresas arriscam perder mulheres experientes, enquanto autonomia e diálogo ajudam a preservar talentos.

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Publicado em 21 de outubro de 2026 às 17h00.

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RESUMO +

A menopausa continua pouco discutida nas empresas, apesar dos impactos relatados por mulheres sobre suas carreiras. Em levantamento encomendado pela farmacêutica Astellas com 2,3 mil brasileiros, 80% consideram que falta apoio no trabalho. Estudos na Noruega e no Reino Unido apontam consequências econômicas e diferenças entre sintomas; apoio da liderança e autonomia podem ajudar.

Por Dhafyni Mendes*

Por volta dos 40 anos, as orcas deixam de se reproduzir. Mas podem viver até os 90. São uma das poucas espécies, além da nossa, em que a vida continua por décadas depois do fim do ciclo reprodutivo.

E há algo especialmente interessante no que acontece depois. Com a maturidade, as fêmeas passam a ocupar um papel importante na liderança do grupo.

Em 2015, a equipe da bióloga Lauren Brent, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, analisaram centenas de horas de imagens de orcas que vivem na costa da América do Norte.

Descobriram que as fêmeas mais velhas frequentemente assumiam a frente do grupo na busca por alimento, especialmente nos períodos de escassez.

A hipótese mais aceita me fascina: elas conhecem os caminhos, depois de anos acumulando informações sobre onde encontrar comida e como atravessar períodos difíceis.

Um conhecimento que passa a ser especialmente valioso para a sobrevivência coletiva.

O valor da experiência no envelhecimento feminino

Penso nessa descoberta quando observo a maneira como nós, humanos, lidamos com o envelhecimento feminino e, particularmente, com a menopausa no ambiente de trabalho.

Existe uma contradição nessa relação.

Valorizamos a experiência como um dos grandes atributos profissionais, mas ainda temos dificuldade para conversar sobre uma transformação biológica que acontece justamente quando muitas mulheres estão no auge de suas trajetórias.

Menopausa no trabalho: o impacto da falta de apoio nas empresas

Uma pesquisa encomendada pela farmacêutica Astellas, com 2,3 mil brasileiros, mostrou que 80% dos participantes consideram que mulheres na menopausa não recebem apoio no trabalho.

Entre as entrevistadas, 7% relataram ter deixado o emprego em razão dos sintomas, enquanto 6% disseram ter perdido uma promoção ou aumento salarial.

Estamos falando também sobre permanência, desenvolvimento profissional e sobre quanto conhecimento as organizações podem perder quando não compreendem determinadas experiências da vida. Mas talvez um dos aspectos mais reveladores seja o silêncio.

Em uma pesquisa conduzida por Denise Franca Barros, com mulheres em posições de liderança e profissionais de recursos humanos e saúde ocupacional, nenhum dos 20 entrevistados conhecia uma política de menopausa no ambiente de trabalho.

Uma das participantes resumiu: “Nunca ouvi ninguém falar sobre isso. Nem as próprias mulheres falam sobre isso.”

Alguns acontecimentos biológicos femininos foram, aos poucos, conquistando espaço nas conversas corporativas.

Hoje discutimos maternidade, amamentação, saúde menstrual e prevenção ao câncer de mama com uma naturalidade que seria menos provável algumas décadas atrás.

Com a menopausa não é assim. Parece que ela ainda ocupa um lugar quase invisível. Talvez porque falar sobre ela também nos obrigue a falar sobre envelhecimento.

E envelhecer, para as mulheres, nunca foi apenas uma questão biológica. É também uma experiência atravessada por expectativas sociais sobre aparência, vitalidade, produtividade e valor.

O que acontece quando essas expectativas encontram o ambiente profissional?

Como a menopausa afeta a renda e a permanência no mercado de trabalho

Na Noruega, as economistas Rita Ginja e Petra Persson investigaram os efeitos da menopausa sobre a trajetória econômica das mulheres.

Entre aquelas que receberam diagnósticos relacionados à menopausa, a renda era 7,4% menor quatro anos depois. Parte desse efeito estava associada à redução da jornada ou à saída antecipada do mercado de trabalho.

É um dado que merece atenção. Especialmente quando pensamos que essas profissionais podem carregar décadas de experiência, relações construídas e conhecimento sobre os negócios.

Outro estudo, realizado no Reino Unido, trouxe outra descoberta: os fogachos, talvez o sintoma mais associado à menopausa no imaginário coletivo, apresentaram pouca relação com a saída do mercado de trabalho.

Os sintomas psicológicos tiveram uma associação mais significativa com a permanência profissional. Isso nos lembra que experiências complexas raramente cabem nas explicações mais populares sobre elas.

Por que a experiência da menopausa é diferente para cada mulher?

Mais do que isso, vale lembrar que não existe uma única experiência da menopausa. Somos mulheres diversas. Para algumas, quase não há sintomas.

Já outras relatam mudanças bruscas no sono, na concentração, no bem-estar e na rotina. Há ainda diferenças nas condições de trabalho, no acesso à informação e nos cuidados com a saúde.

Reconhecer essas particularidades é essencial para que a conversa avance sem transformar uma fase natural da vida em uma suposta limitação profissional.

Como as empresas podem apoiar mulheres na menopausa?

A boa notícia é que existem caminhos relativamente simples.

Uma revisão de estudos conduzida por pesquisadoras de Amsterdã identificou a importância de fatores como apoio da liderança, autonomia sobre a rotina e condições adequadas no ambiente de trabalho. Informação e abertura para conversar também fazem diferença.

Um exemplo vem da Suécia. Em 2018, a televisão pública de lá exibiu um programa em que mulheres compartilharam suas experiências com a menopausa.

As economistas Rita Ginja e Petra Persson, mais uma vez, avaliaram os efeitos da campanha.

E observaram que as mulheres que foram ao ginecologista logo depois da transmissão receberam mais diagnóstico e tratamento do que as que tinham ido pouco antes. Nos anos seguintes, a renda delas caiu menos.

É curioso pensar que uma conversa pública sobre uma experiência tão comum possa produzir efeitos que chegam até a vida econômica.

Talvez porque aquilo que conseguimos nomear também se torne mais fácil de compreender, compartilhar e cuidar.

Dia Mundial da Menopausa: uma oportunidade para valorizar a experiência

Neste 18 de outubro, Dia Mundial da Menopausa, vejo uma oportunidade para as empresas ampliarem seu repertório sobre as diferentes fases da vida profissional feminina.

Uma conversa que interessa às mulheres, às lideranças e às organizações que desejam preservar e desenvolver seus talentos.

Volto, então, às orcas. Gosto de imaginar aquelas fêmeas mais velhas nadando à frente do grupo.

Não porque a natureza ofereça um modelo pronto para nossas relações sociais, mas porque essa imagem nos convida a refletir sobre o valor da experiência.

Elas conhecem caminhos que as mais jovens ainda não percorreram.

E talvez exista aí uma boa pergunta para o mundo do trabalho: quanto conhecimento podemos ganhar quando aprendermos a conversar sobre o envelhecimento das mulheres?

*Dhafyni Mendes é uma voz ativa no debate sobre liderança feminina no Brasil, com mais de 20 anos de atuação em iniciativas voltadas às mulheres. É cofundadora da Todas Group, ecossistema para ampliar a presença feminina em cargos de liderança na América Latina, que já impulsionou mais de 30 mil mulheres em cinco países.  Seus estudos em Antropologia e atuação como Jovem Patrona do MASP, atravessam a forma como lê cultura, representação, história, identidade e cotidiano. É mãe de Nicholas e Sofia.

'Perguntas frequentes'

Como a menopausa pode afetar a carreira das mulheres? +

A menopausa pode estar associada a dificuldades de permanência, desenvolvimento profissional e remuneração. Segundo pesquisa encomendada pela farmacêutica Astellas, 7% das mulheres entrevistadas deixaram o emprego em razão dos sintomas, enquanto 6% relataram ter perdido uma promoção ou aumento salarial.

Quantos brasileiros consideram que falta apoio à menopausa no trabalho? +

Uma pesquisa encomendada pela farmacêutica Astellas, com 2,3 mil brasileiros, mostrou que 80% dos participantes consideram que mulheres na menopausa não recebem apoio no ambiente profissional. O levantamento evidencia a percepção de falta de suporte durante essa fase da vida.

Qual é o impacto da menopausa na renda das mulheres? +

Na Noruega, as economistas Rita Ginja e Petra Persson identificaram que, entre mulheres que receberam diagnósticos relacionados à menopausa, a renda era 7,4% menor quatro anos depois. Parte dessa associação estava relacionada à redução da jornada ou à saída antecipada do mercado de trabalho.

Quais sintomas da menopausa mais se relacionam à saída do mercado de trabalho? +

Um estudo realizado no Reino Unido encontrou pouca relação entre os fogachos e a saída do mercado de trabalho. Os sintomas psicológicos apresentaram associação mais significativa com a permanência profissional, segundo a pesquisa citada no texto.

O que as empresas podem fazer para apoiar mulheres na menopausa? +

As empresas podem oferecer apoio da liderança, autonomia sobre a rotina e condições adequadas de trabalho. Uma revisão de estudos conduzida por pesquisadoras de Amsterdã também identificou a importância da informação e da abertura para conversar sobre a menopausa no ambiente profissional.

O que as orcas ensinam sobre envelhecimento feminino e liderança? +

As orcas fêmeas mais velhas frequentemente lideram seus grupos na busca por alimento, especialmente em períodos de escassez, segundo pesquisa de 2015 conduzida pela equipe da bióloga Lauren Brent, da Universidade de Exeter. A descoberta inspira uma reflexão sobre o valor da experiência acumulada e do conhecimento das mulheres maduras no ambiente profissional.

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