Governança sólida e agilidade são cruciais para aproveitar a janela de M&A antes das eleições (Natee Meepian/Shutterstock)
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Publicado em 2 de junho de 2026 às 17h00.
Por Franklin Tomich*
O Brasil atravessa um momento raro para empresas que avaliam fusões, aquisições ou captação de recursos.
Após um período de maior restrição, o capital internacional voltou a olhar para o país, ao mesmo tempo em que os juros iniciaram uma trajetória de queda no primeiro semestre.
Esse movimento abre uma janela de oportunidade para transações, marcada por maior liquidez, melhora de valuation e apetite comprador, que já se reflete no mercado de M&A, com o melhor início de ano dos últimos cinco anos.
Segundo levantamento da Seneca Evercore, o volume de transações no Brasil somou US$ 15,9 bilhões entre janeiro e março de 2026, o que representa um crescimento de cerca de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior e o resultado mais robusto desde 2021.
No mesmo intervalo, o número de operações recuou de 198 para 153, indicando um ambiente mais seletivo e concentrado em ativos com maior grau de preparo.
Na prática, isso significa que a atual janela de oportunidade não está igualmente aberta para todas as empresas.
As operações que avançaram nesse início de ano têm características bastante específicas, com estruturas de governança mais maduras, demonstrações financeiras confiáveis e uma gestão capaz de sustentar processos de diligência mais rigorosos.
Em um ambiente mais exigente, a diferença entre acessar ou não o capital disponível passa, sobretudo, pelo nível de organização e previsibilidade do negócio.
Apesar desse contexto, é comum observar um desalinhamento na forma como as empresas estão avaliando o momento.
Enquanto a maioria dos líderes empresariais já ajustou seus planos diante da volatilidade geopolítica recente, ainda há pouca atenção dedicada ao calendário político doméstico, que historicamente exerce influência direta sobre decisões de investimento de longo prazo.
Esse descompasso tende a se tornar mais evidente à medida que o ano avança.
Tradicionalmente, o período entre julho e agosto marca o início de uma desaceleração no ritmo das transações, acompanhando o avanço do ciclo eleitoral.
Nesse intervalo, investidores estrangeiros tendem a adotar uma postura mais cautelosa, aguardando maior previsibilidade sobre o ambiente político e econômico, enquanto compradores estratégicos postergam decisões relevantes.
Como consequência, processos em andamento entram em compasso de espera, mesmo quando permanecem economicamente viáveis.
Esse movimento não decorre, necessariamente, de uma deterioração dos fundamentos das empresas envolvidas, mas de uma mudança no timing das decisões.
Ainda assim, a narrativa predominante entre empresários de médio porte segue sendo a de aguardar um cenário mais favorável, como se o melhor momento ainda estivesse por vir. Ocorre que, neste caso, parte relevante dessa janela já está em curso.
A atual trajetória de queda dos juros contribui para elevar o valor presente dos fluxos de caixa e, consequentemente, os valuations.
Ao mesmo tempo, há liquidez disponível e interesse ativo por parte de investidores e compradores estratégicos.
Trata-se, portanto, de um ambiente que combina condições financeiras mais favoráveis com uma janela temporal limitada, o que exige decisões mais ágeis.
Esse fator se torna ainda mais crítico quando se observa a situação de grande parte das empresas brasileiras.
Dados da Serasa Experian indicam que o país já soma mais de 8 milhões de CNPJs negativados, com um volume expressivo de passivos acumulados, o que reduz a margem de manobra dessas empresas e limita a possibilidade de adiar decisões estratégicas.
Além disso, é importante considerar que o processo de preparação para uma transação não é imediato.
Estruturar governança, organizar informações financeiras, revisar processos e se posicionar adequadamente diante de potenciais investidores pode levar de seis a doze meses.
Empresas que iniciam esse movimento ainda no primeiro semestre tendem a acessar o mercado em condições mais favoráveis, enquanto aquelas que postergam essa decisão podem encontrar um ambiente mais restritivo, com maior cautela por parte dos compradores e custo de capital mais elevado.
Nesse contexto, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre a decisão de vender ou não vender e passa a envolver o nível de prontidão da empresa para aproveitar oportunidades quando elas surgem.
A governança, nesse sentido, não apenas aumenta a atratividade de um ativo, mas também amplia a capacidade de escolha do empresário em relação ao momento e às condições de uma eventual transação.
A janela atual existe e apresenta características objetivamente mais favoráveis do que as observadas nos últimos anos.
No entanto, como ocorre em ciclos anteriores, ela tende a se fechar à medida que o ambiente eleitoral avança e introduz novas camadas de incerteza.
A questão central, portanto, não é se o mercado vai melhorar, mas se as empresas estão preparadas para operar dentro dessa janela antes que ela se torne mais estreita.
A experiência mostra que, em operações de M&A, o principal erro raramente está em iniciar um processo cedo demais, mas sim em reconhecer tarde demais que o momento mais favorável já passou.
*Franklin Tomich é sócio-fundador da Accordia, plataforma de inteligência analítica voltada para M&A e finanças corporativas.