A falta de supervisão humana pode criar sistemas vulneráveis e difíceis de auditar (Happy Kikky/Getty Images)
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Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 15h00.
Por Fabrício Dias*
O desenvolvimento de software entrou em uma nova fase. Se antes escrever código seguia um caminho mais linear de análise, desenvolvimento, testes e entrega, hoje a inteligência artificial encurta esse percurso por meio do “vibe coding”.
A prática é simples de entender: o desenvolvedor descreve, em linguagem natural, o que deseja construir, e a IA gera automaticamente trechos de código. O efeito é imediato na velocidade, na experimentação e no ritmo de entrega dos times.
Não por acaso, o Dicionário Collins elegeu “vibe coding” como a palavra do ano de 2025. E segundo o relatório State of AI-assisted Software Development 2025, do programa DORA do Google Cloud, 90% dos desenvolvedores já utilizam IA no dia a dia.
A mensagem é clara: a tecnologia já está em uso. A diferença está em como ela é usada. É nesse ponto que o debate se divide entre oportunidade e risco. O vibe coding pode acelerar entregas, mas sem equipes preparadas pode amplificar falhas que só aparecem quando já é tarde demais.
O principal ganho do vibe coding é reduzir drasticamente a distância entre ideação e implementação. Escrever um endpoint, um fluxo de negócio ou uma interface e receber código funcional em pouco tempo muda completamente o ritmo do trabalho.
Criar protótipos em horas, validar hipóteses de modo mais rápido e desenvolver MVPs sem depender de longos ciclos de sprint já faz parte da rotina dos desenvolvedores.
Para empresas com backlog acumulado, times enxutos ou alta pressão por inovação, a prática do vibe coding é essencial. Portanto, quando bem aplicado, o vibe coding libera o time para focar em decisões de maior valor, como entender o negócio, testar caminhos e ajustar soluções com rapidez.
O risco do vibe coding não está na metodologia em si, mas na ilusão de que “a IA faz tudo sozinha”. Na prática, acontece exatamente o oposto. Quanto mais a IA acelera, maior precisa ser o nível de responsabilidade humana.
O vibe coding intensifica pontos importantes do desenvolvimento de software: segurança. Modelos de IA podem reproduzir vulnerabilidades conhecidas, incorporar dependências inseguras, gerar código sem aderência a padrões internos ou até expor credenciais e dados sensíveis. Em ambientes regulados, isso é um problema técnico com risco legal e reputacional.
Outro ponto de atenção é em relação a rastreabilidade e responsabilidade. Quem é responsável por um trecho de código gerado por IA? O desenvolvedor, o time, a empresa?
Sem versionamento adequado, histórico de prompts, revisão formal e auditoria, o código se torna uma caixa-preta difícil de explicar, corrigir ou defender em um incidente de segurança ou auditoria de compliance.
Ou seja, com o vibe coding, o papel do desenvolvedor se torna ainda mais estratégico. O profissional deixa de ser apenas executor e passa a atuar ainda mais como curador, auditor e arquiteto das decisões técnicas.
A IA acelera, mas é o humano quem interpreta a real intenção do negócio, avalia riscos técnicos e operacionais, garante aderência a padrões de arquitetura, segurança e compliance, e decide o que pode ou não escalar.
Times despreparados até conseguem entregar mais rápido, mas muitas vezes entregam soluções frágeis, não escaláveis, difíceis de manter e arriscadas do ponto de vista regulatório. Em tecnologia, poucas coisas custam mais caro do que velocidade sem critério, especialmente quando o custo aparece meses depois, na forma de retrabalho, incidentes, falhas de segurança ou bloqueios de crescimento.
Usar vibe coding de forma responsável exige regras claras. É preciso continuar com versionamento do código gerado, rastreabilidade dos prompts, controle rigoroso sobre dados sensíveis, revisões obrigatórias de segurança, padrões arquiteturais bem definidos e auditorias contínuas.
Empresas que entendem essa combinação (velocidade com preparo técnico, compliance e governança) conseguem transformar o vibe coding em vantagem competitiva real. As que resistem à mudança perdem ritmo. As que adotam sem critério assumem riscos que, cedo ou tarde, cobram seu preço.
O futuro do desenvolvimento de software não está na substituição de pessoas por IA. Está na parceria entre inteligência humana e artificial. E, nesse modelo, equipes capacitadas, maduras e responsáveis nunca foram tão essenciais.
*Fabrício Dias é Diretor de Produto e Tecnologia na Lecom Tecnologia, com mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de software e liderança de times de P&D.