Com a IA reduzindo o tempo de execução, o desafio do RH passa a ser medir impacto, aprendizado, decisões e capacidade de resolver problemas (eber86/Shutterstock)
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Publicado em 15 de setembro de 2026 às 10h00.
Por Andréa Migliori*
Passei boa parte da minha carreira ouvindo falar da associação entre desempenho e dedicação. E dedicação, quase sempre, era traduzida da mesma forma: quem chega antes, sai depois, participa de todas as reuniões e está sempre disponível parece ser a pessoa mais valiosa da equipe.
O problema é que esse raciocínio foi construído para um modelo de trabalho que está desaparecendo diante dos nossos olhos.
Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades exigidas pelo mercado devem mudar até 2030. E tenho visto muitas discussões sobre o futuro do trabalho tratarem 2030 como se fosse um horizonte distante. Não é.
Estamos a menos de quatro anos desse cenário. Falar de uma transformação tão grande “até 2030” significa, na prática, falar de mudanças profundas que já estão acontecendo e que vão se acelerar em um intervalo muito curto.
Pensamento analítico, criatividade, resiliência, curiosidade e aprendizado contínuo aparecem entre as competências mais valorizadas pelas organizações. Curiosamente, nenhuma delas pode ser medida pelo número de horas que alguém passou diante do computador.
Não à toa, nos últimos meses, tenho observado um fenômeno interessante nas empresas. Algumas pessoas estão produzindo resultados relevantes em menos tempo do que nunca. Não porque trabalham menos, mas porque trabalham diferente.
Uma tarefa que antes consumia uma manhã inteira agora pode ser concluída em poucos minutos com apoio de inteligência artificial. Um relatório que exigia horas de consolidação de dados é gerado automaticamente. Uma apresentação nasce a partir de um prompt bem construído.
Ainda assim, muitas organizações continuam avaliando profissionais como se a escassez de tempo fosse a principal evidência de valor.
Existe quase uma nostalgia corporativa pelo excesso de trabalho. Como se uma agenda lotada fosse sinônimo de importância ou se responder mensagens à noite demonstrasse comprometimento.
Finalmente começamos a enxergar que isso não é verdade. E agora, o que o RH faz? Se antes era relativamente simples identificar quem entregava mais, agora boa parte da geração de valor acontece em competências menos tangíveis.
Temos que avaliar quem faz as melhores perguntas, quem conecta informações dispersas, quem percebe riscos antes dos demais, quem questiona uma resposta produzida pela IA quando todos os outros simplesmente aceitam.
Nenhuma dessas contribuições aparece facilmente em uma planilha de produtividade. Talvez por isso tantas empresas estejam enfrentando dificuldades para revisar seus modelos de avaliação. Continuamos buscando métricas objetivas para mensurar atividades que se tornaram subjetivas.
Para o RH, isso significa desenvolver uma capacidade de observação muito mais sofisticada. É preciso entender como as equipes resolvem problemas, aprendem, colaboram e tomam decisões. Assim, torna-se possível discutir impacto ao invés de tempo.
*Andréa Migliori é CEO e fundadora da Workhub, HRTech que integra inteligência artificial a intranets corporativas e já atende mais de 240 mil usuários. Com mais de 25 anos de experiência em tecnologia, inovação e liderança, atua como mentora e conselheira de startups, além de ser coautora do livro “Elas no Conselho”.