Crise hídrica e desigualdade: mulheres são as mais impactadas pela escassez de água no mundo (AscentXmedia/Getty Images)
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Publicado em 24 de março de 2026 às 10h00.
Janaina Padoveze*
O dia 22 de março é considerado mundialmente o Dia Mundial da Água. Em outras palavras, o “Dia da Vida, já que foi através da existência dela que se fez vida neste planeta.”
Este ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o tema da data como “Água e Gênero”.
É um lembrete crucial de que o 22 de março é também um dia de luta e de reforçar a necessidade de ações para a sua conservação.
Infelizmente, os dados sobre a água não estão gentis, assim como os dados relacionados a gênero.
O ano de 2025 registrou o maior índice de feminicídios no Brasil.
Paralelamente, de acordo com um relatório emitido pela UNU (United Nations University), o planeta Terra entrou em estado de “falência global da água”.
Isso significa que estamos gastando mais água do que a natureza consegue repor e que não existe mais equilíbrio entre disponibilidade e uso.
O surpreendente é que as mudanças climáticas e a violência de gênero estão intrinsecamente conectadas.
Há tempos organizações vêm sinalizando que, “quanto mais o clima piora, mais a violência de gênero piora.”
O motivo é uma cadeia de eventos: o aumento da temperatura global e os eventos climáticos extremos contribuem para um cenário de maior insegurança física e econômica.
Pessoas perdem casas, empregos, ficam sem recursos naturais e as necessidades básicas não são atendidas.
Além disso, as redes de apoio das mulheres também ficam enfraquecidas, agravando o cenário de agressões.
A realidade em 2024 era de que mais de 1 em cada 4 mulheres e meninas não tinham acesso a água potável gerida de forma segura.
Em 2023, cerca de 14% dos países ainda tinham mecanismos limitados de integração da perspectiva de gênero na gestão de recursos hídricos.
A sobrecarga recai sobre elas: mulheres eram responsáveis por buscar água em 7 de cada 10 casas sem água encanada.
A necessidade de coleta afasta meninas da escola, impede mulheres de trabalharem e compromete a saúde feminina.
No dia 16 de março de 2026, foram lançadas as Estratégias Transversais do Plano Clima do Brasil, e uma delas é a Mulheres e Clima.
O objetivo é impulsionar a equidade de gênero juntamente com a transição para uma economia sustentável.
As empresas têm um potencial enorme de causar impactos na sociedade, o que chamamos de “externalidades”.
Para que as organizações prosperem, o cuidado com toda a comunidade é necessário.
Há inúmeras maneiras de agir, como adotar políticas de diversidade e inclusão e priorizar fornecedores com uma política séria em relação a gênero.
Eu sou parte do grupo de pessoas que “possui a estranha mania de ter fé na vida”, como escreveu Milton Nascimento.
Existe muita gente criando ideias e colocando em prática para construir um mundo melhor.
Minha convicção é de que é através da união das mulheres que a gente vai conseguir progredir.
A palavra é “sororidade”, mulheres se apoiando para deixar de reproduzir padrões que reforçam a desigualdade.
*Janaina Padoveze é gerente de Sustentabilidade da Ajinomoto do Brasil.