Agentes de IA assumem papel central nas operações, exigindo nova postura de líderes (Reprodução)
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Publicado em 21 de junho de 2026 às 07h00.
Por Gabriel Marostegam*
A inteligência artificial (IA) foi introduzida ao mercado corporativo como uma ferramenta de produtividade: automatizar tarefas, acelerar processos, reduzir custos e aumentar eficiência eram as principais promessas. Mas, em diversos setores, ela já deixou de ocupar um papel periférico para assumir funções centrais nas operações das empresas, alterando fluxos de trabalho e estruturas organizacionais inteiras.
Se a primeira fase da corrida por IA foi marcada pela compra acelerada de ferramentas e pela corrida para “ter IA”, a rápida evolução da tecnologia (superando até a capacidade de sustentação da infraestrutura corporativa) faz com que o debate migre para outro ponto: quais empresas realmente estão conseguindo transformar essa tecnologia em inteligência operacional?
A diferença parece simples, mas é profunda. Existe uma distância enorme entre adquirir ferramentas de IA e reorganizar uma empresa para funcionar com elas. Em muitos casos, organizações investiram milhões em pilotos, plataformas e testes sem conseguir integrar a tecnologia de forma efetiva ao negócio.
Não por acaso, um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) indica que cerca de 95% dos pilotos corporativos de IA fracassam antes de gerar impacto relevante.
Na saúde brasileira, o acesso às ferramentas é fácil, contudo o desafio está na interoperabilidade, na governança, na integração de dados e na segurança. Enquanto a Estônia opera com 99,1% de seus serviços conectados digitalmente, conforme levantamento da Black Book Research, empresas e instituições ainda enfrentam ambientes fragmentados, com dezenas de sistemas que não se comunicam e dificuldade de integração de dados em larga escala: até 97% das informações hospitalares permanecem sem uso estruturado, segundo relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF).
Hospitais acumulam enormes volumes de dados sem utilização prática, com dados fragmentados e armazenados em sistemas que não conversam entre si e incapazes de gerar inteligência operacional em tempo real. Já não basta possuir sistemas avançados se eles operam isoladamente. A capacidade de integrar informações, interpretar contextos e conectar fluxos começa a ser mais valiosa do que simplesmente automatizar tarefas específicas.
A IA já não é mais um software, tendo um papel mais próximo ao de um colaborador invisível dentro das empresas.
Como se fosse funcionários sem crachá, os agentes organizam fluxos, interpretam dados, geram análises, automatizam decisões e executam tarefas operacionais ao lado de equipes humanas, sendo que muitas vezes as pessoas sequer percebem sua participação direta no processo.
O fenômeno altera inclusive a lógica de liderança corporativa. Se antes o debate girava em torno da substituição de empregos, agora surge outra discussão: como gerenciar times compostos por humanos e agentes digitais?
Em vez de simplesmente operar ferramentas, líderes começam a assumir o papel de “orquestradores” de sistemas, processos e inteligências distintas.
Talvez por isso uma das competências mais valiosas da próxima década seja justamente a capacidade de orquestração. O diferencial competitivo deixa de estar apenas no acesso à tecnologia e passa a depender da habilidade de coordenar pessoas, dados, automações e agentes de IA de maneira integrada.
Um exemplo disso é o Dragon Copilot, que ao fazer as anotações do prontuário clínico em uma consulta, devolve tempo (em média cinco minutos) para que os médicos se preocupem com o que realmente importa: os pacientes - 93% deles afirmaram ter uma experiência melhor com o auxílio da tecnologia.
A ferramenta ainda resultou na melhora de 70% da sensação de esgotamento e fadiga dos médicos.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a regulamentação está chegando antes da infraestrutura necessária para suportar essa transformação. Empresas enfrentam pressão crescente por segurança, rastreabilidade, governança e conformidade regulatória enquanto ainda tentam organizar ambientes internos extremamente fragmentados.
Na prática, muitas organizações ainda operam estruturas incompatíveis com a complexidade da IA atual. Dados espalhados, sistemas desconectados, ausência de padrões semânticos e dificuldade de integração criam um ambiente onde a tecnologia avança mais rápido do que a capacidade corporativa de absorvê-la.
Muito em breve, veremos claramente dois níveis organizacionais bem distintos: o de quem comprou IA e o de quem absorveu inteligência. De um lado, empresas que adquiriram ferramentas. Do outro, organizações que conseguiram reorganizar operação, cultura e tomada de decisão para funcionar ao lado da inteligência artificial.
A diferença entre esses dois grupos provavelmente definirá os próximos vencedores corporativos da transformação digital. Porque a nova corrida tecnológica não deve mais sobre quem possui as ferramentas mais sofisticadas, mas sobre quem consegue transformar IA em inteligência real dentro da empresa.
*Gabriel Marostegam é diretor sênior de IA Aplicada a Negócios na Avanade