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Marcelo de Sá: Como está se desenhando o modelo de gestão dos novos tempos?

Incerteza econômica e tensões políticas aceleraram a mudança nas organizações e a tolerância dos profissionais com modelos de gestão desalinhados à realidade entrou em colapso

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Modelo previsto por Neil Jacobstein está cada vez mais próximo (Freepik/Reprodução)

Modelo previsto por Neil Jacobstein está cada vez mais próximo (Freepik/Reprodução)

Um mundo sem empregos, em que se exerça uma atividade pela satisfação pessoal e o impacto na sociedade. Há quase dez anos, a imagem além dos modelos de gestão que Neil Jacobstein, presidente do departamento de pesquisa sobre inteligência artificial e robótica da Singularity University, nos EUA, previa para o futuro do trabalho pode estar próxima.

A incerteza econômica e as tensões políticas dos últimos anos aceleraram a mudança no design das organizações e a tolerância dos profissionais com modelos de gestão desalinhados à realidade entrou em colapso. Tempos atrás, as empresas poderiam contar com a disposição da maioria de seus colaboradores para apoiar uma transformação organizacional. Hoje, no entanto, é mais fácil eles pedirem demissão do que passar por uma experiência frustrada que abale sua saúde mental.

O mundo está mais complexo agora. A nova ordem é desconstruir o trabalho como ele vinha se apresentando até esse momento, extinguindo modelos de gestão tradicionais e restritivos e priorizando trabalhos flexíveis, colaborativos e com impacto social.

Esse movimento está relacionado com o fato de, segundo pesquisas do Gartner, a grande maioria dos trabalhadores, hoje em dia, desejam que a organização os veja como pessoas críticas, não apenas como subordinados. E isso significa que eles querem ativamente fazer parte das iniciativas de mudança.

O modelo de gestão top-down, que se caracteriza por lideranças tradicionais, hierarquias duras e gerenciamento fechado, vem aos poucos se esgotando. Acompanhamos a estratégia das organizações considerarem o colaborador como o ativo mais importante da empresa, inclusive com ganhos de produtividade e receita.

Empresas humanizadas possuem rentabilidade 3,5 vezes superior à média das 500 maiores companhias do país. Os dados demonstram que organizações abertas a modelos de gestão mais alinhados às práticas ESG têm mais chances de sucesso, uma vez que iniciativas como essa impactam não só colaboradores, mas também clientes, parceiros e a sociedade, que são indiretamente impactados.

Quem não lembra da história inspiradora de uma mensagem deixada nas redes sociais do O Boticário, há pouco mais de 2 anos, que terminou com uma carta assinada pelo próprio fundador da empresa de cosméticos e perfumes brasileira à consumidora, dedicando a fabricação de algumas unidades de uma fragrância antiga que a fazia lembrar do filho perdido durante a pandemia.

Coincidência ou não, o Grupo Boticário registrou faturamento recorde em 2021. Além dos avanços em inovação e olhar atento às necessidades do consumidor, Fernando Modé, CEO do Grupo, declarou: “Concretizamos importantes alavancas internas de crescimento potencializadas pelo nosso novo modelo organizacional. Os números históricos provam que conseguimos fazer isso de forma sólida”.

Iniciativas como esta reforçam a importância de modelos de gestão mais humanizados e colaborativos. Ao pensar nos clientes e colaboradores como pessoas e não apenas como consumidores e prestadores de serviço, as empresas tendem a compreender melhor suas necessidades e, a partir da empatia, geram conexões reais com impactos positivos que ultrapassam as expectativas.

Por isso, é compreensível ver profissionais sendo incentivados por organizações a se envolverem no processo de trabalho de maneira mais abrangente, isto é, desde o planejamento estratégico até a execução de atividades, já que, de forma direta, afeta sua vida.

Novas práticas, velhas teorias

Participar efetivamente e contribuir com o processo de decisão dentro das corporações pode ser atual, mas o pensamento de uma gestão mais horizontal, com

um modelo descentralizado de administração de negócios, já era um desejo antigo de trabalhadores mais conscientes de seus papéis sociais.

“Vamos participar todos das decisões coletivas. Vamos tentar fazer com que nada venha de cima para baixo porque as melhores soluções sempre estão com quem está com a mão na massa, em qualquer ambiente corporativo que seja. Em qualquer sociedade é assim. Quem põe a mão na massa sabe onde tem problema e qual é a solução”.

A citação acima, que poderia se encaixar no discurso de um profissional da nova geração, é de Sócrates, jogador de futebol e médico, que em meados dos anos 80, em plena ditadura militar no Brasil, tentava imbuir nos companheiros de time a vontade de combater a imposição de autoridades, muitas vezes contrária ao trabalho produtivo dos atletas.

Seus argumentos tinham coerência e suas ideias, colocadas em prática hoje, certamente alcançariam resultados sustentáveis nas empresas. Entretanto, o que parecia óbvio para alguns, demorou para se tornar realidade nas rotinas de trabalho. Talvez, não fosse a pandemia e a mudança na visão das pessoas em relação ao trabalho, as empresas sequer teriam colocado luz na urgência da construção de modelos de gestão mais humanizados.

O fato é que somente há pouco tempo a gestão compartilhada deixou de ser apenas teoria e passou a ser praticada pelas organizações, pelo menos as de vanguarda, que buscam aproveitar as transformações para aprender e evoluir.

Conhecida como uma das empresas mais humanizadas do Brasil, o Grupo Malwee costuma declarar que foca em sustentabilidade antes mesmo de virar moda. E que resultados duas vezes melhores do que a média nos últimos 16 anos não surpreendem, uma vez que as decisões são pautadas nas pessoas, considerando o impacto que terão na vida delas. E isso costuma refletir em clientes mais satisfeitos e colaboradores mais felizes.

A gestão dos novos tempos propõe um olhar mais voltado para relacionamentos, diversidade e inovação, o que significa colocar as pessoas no centro das estratégias de negócio, mas sem dispensar o uso das novas tecnologias. Pelo contrário, a integração de pessoas e tecnologia provavelmente conduzirá a ações mais efetivas que realmente concretizarão o que pensávamos para o futuro do trabalho.

A tecnologia como aliada

Com o mercado aquecido e ávido por novos produtos e serviços digitais, e a concorrência acirrada na busca por talentos para manter a produtividade em alta, com um time enxuto, executivos se apoiam na tecnologia como motor de crescimento.

Levantamento feito pela TOTVS em parceria com a H2R Pesquisas Avançadas mostrou que 85% das empresas ampliaram os investimentos em TI durante a pandemia e que 3 em cada 4 organizações incluíram a área em discussões de negócio.

A ressignificação do papel do setor de tecnologia da informação nas empresas sugere que usar ferramentas tecnológicas pode ser um critério interessante para garantir modelos de negócios atualizados e preparados para as futuras mudanças.

Longe de substituir o capital humano, as novas tecnologias visam automação e otimização de processos, operacionalizando análises de dados mais rápidas e precisas, que ajudam a potencializar a produtividade e a rentabilidade dos negócios.

Com o auxílio das máquinas, aos colaboradores sobram menos tarefas repetitivas e mais tempo para se dedicarem a funções estratégicas e processos criativos, que demandam habilidades cognitivas, revelando mais uma vez a importância de competências comportamentais no novo cenário corporativo.

O futuro do trabalho

Quem diria, há cinco anos, que o modelo de trabalho remoto seria adotado por um terço das empresas brasileiras? Quem apostaria em um aumento expressivo no número de profissionais que trabalham no Brasil para empresas do exterior, algumas, inclusive com possibilidades de atuar a qualquer hora, de qualquer lugar? E você apostaria que segurança psicológica seria um fator tão determinante para o profissional dessa geração? Acreditaria se contassem, em 2018, que muitos CEOs trabalhariam por projetos dali a 5 anos? E que as habilidades comportamentais se destacariam diante das técnicas?

Pois é, tudo isso aconteceu em um espaço de tempo muito curto. A sociedade evoluiu de forma acelerada e as relações de trabalho também. As carreiras não são mais lineares e os desejos dos trabalhadores não são mais os mesmos de gerações anteriores. É fato: empresas que não estavam preparadas, ou que não foram ágeis o bastante para se adaptar e mudar, ficaram para trás, e muitas que ainda não ficaram obsoletas entrarão em processo de decadência e logo devem ser extintas.

As mais atentas aos recentes modelos de gestão e liderança, com práticas de governança e gestão de risco bem estruturadas, seguem no processo de melhoria contínua. No campo de pessoas, uma das principais percepções que impactaram diretamente os trabalhadores foi em relação ao papel de cada indivíduo na organização. As empresas também trataram de se alinhar aos novos tempos.

Se antes as organizações investiam grandes esforços na experiência do cliente com expectativas de resultados de negócio eficientes, hoje sabem que trabalhar uma cultura organizacional receptiva ao colaborador pode fazer toda a diferença no alcance de níveis mais altos de performance e crescimento empresarial.

Em menos de uma década, acompanhamos pelo menos 3 mudanças expressivas marcarem os novos tempos do mercado de trabalho:

  1. A competitividade entre os colegas dar lugar à cooperação;
  2. A ambição, que girava em torno de poder e dinheiro, tornar-se também por propósito;
  3. O compartilhamento de ideias virar sinônimo de sucesso, quando, a partir disso, se prolifera a cultura da inovação.

As organizações sabem que as evoluções no campo profissional não devem parar por aí. E quanto maior o nível de maturidade, mais fácil será para superar desafios e atingir seus objetivos. Se por um lado a força de trabalho continuará a se reinventar para acompanhar cada mudança, ciente do seu papel, por outro, as companhias finalmente se convenceram que ter uma estrutura de trabalho centrada nas pessoas é o caminho para profissionais mais felizes e produtivos.

Mas, o que parece simples na teoria, na prática requer muito mais do que vontade. Mesmo com mudanças significativas na estrutura das empresas, estudo recente realizado pela Reconnect Happiness at Work em parceria com a Feedz revelou que a maioria dos trabalhadores no Brasil não se sente engajado com o trabalho ou está sobrecarregado. O que passa a impressão de que as empresas não conseguiram realmente mudar como esperam os colaboradores.

Características como flexibilidade, criatividade para inovar e adaptação parecem ser as palavras-guias que ecoam dos modelos de gestão dos novos tempos. No entanto, sem um plano bem definido, uma cultura sólida e um líder forte para conduzir todo o processo de transformação, tudo não passará de um manifesto de marca inspirador, cheio de (somente) boas intenções.

*Marcelo de Sá é CFO do Grupo Petrópolis

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