Impactos de desastres climáticos no Brasil exigem resiliência e adaptação proativa (Anselmo Cunha/AFP)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 22 de julho de 2026 às 10h00.
Mais do que o samba e o futebol (ainda?), o que representa o Brasil são os desastres climáticos.
Essa é uma das conclusões possíveis ao descobrirmos que 91,5% dos nossos municípios relataram ao menos um evento do tipo nos últimos 30 anos.
Os dados de um estudo recente do Cemaden, da USP e do Inpe com apoio da Fapesp indicam que o território brasileiro é profundamente marcado por nossa brutal e sistêmica exposição a eventos climáticos extremos com consequências sociais e econômicas de largo alcance.
A magnitude enterra em definitivo a percepção de que tragédias socioambientais são fatalidades isoladas.
Estamos lidando com quase 60 mil registros de inundações, secas, tempestades e deslizamentos, que custaram a vida de milhares de pessoas e impuseram perdas econômicas que superam os US$ 123 bilhões.
Esses desastres são fundamentalmente socionaturais, o que significa que suas proporções trágicas se agravam por fatores antropogênicos e também refletem falhas históricas na gestão pública e ausência de um planejamento urbano preparado para cenários multirriscos, ignorando o efeito cascata das mudanças do clima.
A vulnerabilidade crônica ganha urgência quando olhamos para o horizonte imediato.
A emergência climática, que já dita o novo ritmo da nossa economia, soma-se de maneira perigosa à previsão de um super El Niño para este ano.
Esse encontro de vetores forma a tempestade perfeita, capaz de exacerbar de forma aguda os nossos passivos: desde as secas severas que asfixiam a economia no Nordeste e no Norte, até os temporais devastadores que levam o Sul e o Sudeste ao colapso de infraestrutura.
No universo corporativo, não se trata mais de questionar se um evento extremo vai acontecer, mas sim de saber qual será a real capacidade de resiliência das nossas estruturas socioeconômicas.
A inação custa vidas, quebra cadeias de valor e afugenta investimentos.
Diante desse cenário, a transição da gestão de crises para a gestão sistêmica de riscos é o único caminho racional.
Para isso, são fundamentais investimentos pesados e inteligentes em infraestrutura e resiliência climática.
A lógica reativa, onde bilhões são drenados anualmente apenas para reconstruir o que os desastres levaram, precisa ceder espaço à adaptação proativa.
Paralelamente à robustez física, o país precisa de preparação tática, com o aprimoramento contínuo das defesas civis para respostas rápidas e protocolos de recuperação que sigam o princípio de não naturalizar prejuízos recorrentes.
Reconstruir deve sempre significar construir melhor.
Adicionalmente, a adaptação às consequências jamais substituirá a necessidade de combater as causas primárias.
A preparação para o inevitável precisa estar atrelada à contínua mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
Proteger nossos biomas e acelerar a descarbonização das operações são obrigações morais e estratégias de sobrevivência para os negócios.
Reconhecer a gravidade desta radiografia apresentada pela ciência é o primeiro passo para garantir que o nosso futuro seja obra de planejamento ativo, e não refém do acaso.