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Gestão Sustentável: irresponsabilidade climática exige coragem para liderar

No Brasil, mais de 80% dos municípios têm vulnerabilidade a inundações e deslizamentos, enquanto adaptação e prevenção seguem em segundo plano

Sem adaptação e prevenção, o risco climático transforma eventos extremos previsíveis em perdas sociais, econômicas e humanas (rafa campez/Shutterstock)

Sem adaptação e prevenção, o risco climático transforma eventos extremos previsíveis em perdas sociais, econômicas e humanas (rafa campez/Shutterstock)

Danilo Maeda
Danilo Maeda

Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 10h00.

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A vida de quem trabalha com sustentabilidade é repleta de números alarmantes que estão longe de ser uma surpresa. Recentemente, tivemos contato com mais um cenário do tipo.

O recente levantamento do Observatório do Clima, construído a partir de dados da plataforma AdaptaBrasil, revela uma radiografia trágica do país: mais de 80% dos municípios brasileiros (cerca de 4.500 cidades) apresentam vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos, como inundações e deslizamentos de terra.

Resiliência climática diante do risco nas cidades

A estatística evidencia uma falha estrutural que discutimos repetidamente no âmbito da gestão sustentável: a ausência crônica de resiliência climática em nossos modelos de gestão pública e corporativa.

São 68% das cidades com risco considerável de inundações e 53% sob a ameaça de deslizamentos. E quando esses casos se confirmarem, ainda ouviremos lamentos sobre como “era impossível prever uma situação do tipo”.

Adaptação climática precisa orientar o planejamento

É fundamental reforçar que não é nova a discussão sobre a necessidade imperativa de preparar nossas sociedades e infra estruturas para eventos extremos mais graves e muito mais frequentes.

A ciência climática não atua com sobressaltos; ela vem nos alertando há décadas com projeções precisas e cenários cada vez mais visíveis a olho nu. Temos os dados a nosso favor, mas falhamos miseravelmente na implementação.

A adaptação climática continua sendo tratada como uma pauta secundária ou um luxo de nações desenvolvidas, quando, na verdade, deveria ser o alicerce de qualquer planejamento estratégico contemporâneo.

Liderança e prevenção diante do risco climático

Isso nos leva ao ponto central do gargalo: a liderança. Convivemos com a irresponsabilidade de tomadores de decisão que, tanto no setor público quanto no privado, preferem o caminho mais fácil.

Há uma covardia sistêmica em priorizar apenas ações de impacto imediato — aquelas que geram dividendos eleitorais nos próximos dois anos ou aplausos nos relatórios trimestrais de resultados.

Investir em drenagem, contenção de encostas e no replanejamento urbano preventivo é caro, complexo e frequentemente invisível até o dia em que o desastre não acontece. E é justamente porque o sucesso da prevenção é o "não-evento" que tantos líderes fogem dessa responsabilidade.

Mudanças climáticas ampliam desigualdades

O resultado dessa inação deliberada é triste e previsível. Como os dados do estudo e o histórico de tragédias nacionais comprovam, os impactos das mudanças climáticas não são democráticos.

A exposição e a vulnerabilidade estão diretamente ligadas às condições socioeconômicas. As populações de menor renda são as mais expostas ao risco e mais impactadas pelas consequências de decisões tomadas sem seu envolvimento.

Os mais vulneráveis vão, mais uma vez, pagar uma conta desproporcional com juros altíssimos: os severos impactos financeiros em famílias que perdem o pouco que têm, as rupturas sociais profundas nas comunidades destruídas e, de forma irreparável, a trágica e contínua perda de vidas humanas.

Resiliência e adaptação como estratégia de sobrevivência

Resiliência não pode mais ser vista como um custo, mas sim como a principal métrica de sobrevivência das cidades e dos negócios. A adaptação precisa ser encarada como uma nova forma de desenvolvimento.

O Brasil tem o potencial e os recursos intelectuais para reverter esse quadro, mas isso exigirá uma mudança radical de postura. Precisamos de líderes que tenham a coragem de olhar para além do horizonte imediato, assumindo o ônus do planejamento e da ação preventiva.

O custo da inação já se provou alto demais; continuar no erro é, além de irresponsável, um projeto de colapso anunciado.

 

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