A busca por lucro de curto prazo pode degradar relações, reputação e valor até comprometer a licença social para operar (DC Studio/Shutterstock)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 10h00.
A pressão constante por resultados imediatos frequentemente empurra as organizações para uma perigosa armadilha: a busca implacável pela maximização do retorno financeiro de curto prazo em detrimento da criação de valor no longo prazo.
Um fenômeno recente que ilustra perfeitamente essa dinâmica foi batizado de "enshittification" — um termo popularizado pelo autor Cory Doctorow para descrever a degradação progressiva de um produto ou serviço.
O conceito, que pode ser aplicado a diversos setores (desde as grandes plataformas de tecnologia até a mercantilização predatória observada nos esportes), descreve um processo bastante específico.
Nele, uma organização atrai e consolida uma base de usuários ou clientes com excelência para, logo em seguida, piorar deliberadamente a qualidade da entrega e encarecer o serviço, com o único objetivo de extrair o máximo de lucro e capturar o máximo de valor no menor tempo possível.
Um modelo de gestão que ignora a saúde do ecossistema que a sustenta.
Embora essas táticas predatórias possam inflar margens e gerar picos de receita, elas se provam profundamente contraproducentes para as próprias organizações no médio e no longo prazos.
A lógica por trás dessa degradação baseia-se na redução sistemática da qualidade aliada a um aumento contínuo de preços em nome de uma otimização contábil.
O resultado inevitável dessa equação é um desgaste profundo e rápido no relacionamento com os clientes.
Quando o público, que antes enxergava valor e propósito (ou pelo menos algum sentido) na relação comercial, passa a se sentir refém de um ambiente hostil e meramente exploratório, a base de lealdade que confere previsibilidade ao negócio começa a ruir.
Essa erosão não fica restrita ao consumidor final; ela transborda e contamina toda a estrutura do negócio.
Ao longo do tempo, o desgaste no relacionamento se traduz em severas perdas reputacionais, uma vez que a marca passa a ser publicamente associada ao oportunismo e à baixa qualidade.
Paralelamente, os elos das cadeias de valor também são impactados.
Parceiros comerciais, fornecedores e até mesmo colaboradores perdem a disposição de colaborar em um ambiente onde a regra do jogo beneficia sempre o lado mais forte.
A desconfiança generalizada toma conta das interações, aumentando os custos de transação e criando uma estrutura incapaz de inovar ou de reter talentos.
Em um cenário como esse, a empresa se vê isolada e vulnerável a qualquer instabilidade de mercado ou à chegada de concorrentes com propostas mais justas e equilibradas.
Em última análise, a adoção de estratégias baseadas na degradação para lucro rápido culmina na perda do ativo intangível mais vital de qualquer negócio: a sua licença social para operar.
A sociedade e os mercados exigem das corporações uma atuação que demonstre resiliência, gere impactos positivos e respeite as partes interessadas.
Quando uma organização ignora esse princípio fundamental em prol de dividendos efêmeros, ela sabota a própria viabilidade.
A verdadeira gestão sustentável compreende que segurança e perenidade financeira nascem de relações de confiança.
Reconhecer que o sucesso corporativo depende da vitalidade e da integridade de todo o seu ecossistema é a única forma de garantir que a rentabilidade de hoje não se transforme no fracasso de amanhã.