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Gestão Sustentável: crise climática coloca mais de 1 bilhão de crianças em risco

Relatório do Unicef acende alerta global e mostra por que a proteção da infância virou um imperativo estratégico para a gestão de negócios

Crise climática afeta mais de 1 bilhão de crianças, exigindo novos compromissos das empresas (Reprodução/Reprodução)

Crise climática afeta mais de 1 bilhão de crianças, exigindo novos compromissos das empresas (Reprodução/Reprodução)

Danilo Maeda
Danilo Maeda

Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola

Publicado em 24 de junho de 2026 às 10h00.

Quando discutimos o impacto das mudanças climáticas no ambiente corporativo, é comum que a atenção dos conselhos de administração se volte rapidamente para riscos regulatórios, precificação de carbono ou a disrupção das cadeias de suprimentos globais. Embora essas sejam preocupações financeiras e operacionais relevantes, elas frequentemente ofuscam a dimensão mais dramática e socialmente profunda da policrise que enfrentamos.

Um relatório recente do Unicef joga luz sobre essa realidade de forma inescapável, ao revelar que mais de um bilhão de crianças — o equivalente a metade da população infantil do planeta — enfrentam simultaneamente pelo menos três riscos climáticos sobrepostos, como ondas de calor extremo, secas prolongadas, tempestades e inundações severas.

O dado não é apenas um alerta humanitário; é um choque de realidade sobre o ambiente em que as empresas operam e precisam prosperar.

A vulnerabilidade social no centro do debate

A tendência de enxergar a crise climática como uma abstração de longo prazo ou um mero desafio tecnológico cai por terra diante das evidências. Quando crianças em Mianmar, Bangladesh ou na região do Sahel africano são expostas a tempestades de poeira e calor insuportável, ou quando meninas em Papua-Nova Guiné perdem o acesso à escola porque chuvas extremas destruíram pontes e tornaram os rios intransitáveis, testemunhamos em tempo real a degradação da própria estrutura social.

E engana-se quem pensa que o problema está restrito às nações em desenvolvimento.

O próprio Unicef aponta que países do Norte Global, como a Itália, contabilizam milhões de crianças sob a ameaça dos riscos climáticos combinados. Para os gestores de negócios, ignorar o peso dessa vulnerabilidade sob a justificativa de que ela foge ao escopo restrito das operações empresariais é um grave erro estratégico e de avaliação de risco.

O novo paradigma do engajamento empresarial

O apelo do Unicef para que governos e empresas acelerem a redução de emissões e invistam em adaptação reflete uma mudança de paradigma essencial: o engajamento socioambiental se consolida como o alicerce da responsabilidade básica da gestão de negócios. Uma organização não é uma ilha imune ao seu entorno.

As crianças que hoje têm sua saúde física, sua segurança e seu desenvolvimento cognitivo prejudicados pelos extremos do clima compõem a força de trabalho, a base de consumidores e as lideranças comunitárias das próximas décadas. A saúde e a estabilidade do tecido social representam o maior e mais valioso ativo intangível que permite a própria existência dos mercados.

A urgência da materialidade

Assumir essa responsabilidade exige que a governança corporativa transcenda a visão complacente dos relatórios ESG genéricos e incorpore uma materialidade profunda no coração de sua estratégia. As organizações precisam compreender que a lentidão em suas metas de descarbonização contribui diretamente para a intensificação dos perigos sistêmicos.

Reduzir emissões não é um exercício de conformidade para agradar investidores, mas um compromisso de mitigação frente à habitabilidade do planeta. Além disso, o momento exige um compromisso incisivo com a adaptação climática.

Negócios que operam em áreas de vulnerabilidade ou dependem de cadeias de valor nessas regiões devem atuar como agentes de resiliência, catalisando investimentos que fortaleçam a infraestrutura, a saúde e a educação das comunidades locais.

Resiliência para a longevidade dos mercados

A maturidade corporativa na era climática é medida pela capacidade dos líderes compreenderem as interdependências irrefutáveis do nosso modelo econômico. A proteção da infância global não é apenas uma pauta delegável ao terceiro setor ou aos formuladores de políticas públicas; ela é um imperativo para qualquer estratégia empresarial que pretenda se manter relevante a longo prazo.

Quando as empresas conectam seus esforços de transição climática à proteção da vida das populações mais expostas, elas não estão apenas cumprindo um dever fiduciário e ético perante a sociedade. Estão, de maneira fundamental, criando resiliência corporativa, mitigando os próprios riscos operacionais e garantindo as fundações do mercado no qual pretendem operar no futuro.

A inação corporativa diante dessa realidade já não representa apenas uma falha moral; é o preâmbulo seguro para a obsolescência.

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