O impacto desse tipo de postura no ambiente é significativo: a equipe entende que não há segundas intenções e o foco está no propósito real do trabalho (Maskot/Getty Images)
Chairman da FESA Group - Colunista Bússola
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 10h00.
Não sou um grande adepto de séries. Costumo preferir livros e conteúdos mais curtos da internet.
Ainda assim, dentro da minha nova agenda de 2026, prometi à minha esposa que assistiria mais séries com ela. E começamos bem.
Maratonei até a metade da segunda temporada de The Good Doctor e, como acontece com frequência, me vi fazendo paralelos quase automáticos com o cotidiano de CEOs e líderes C-level.
Não pela medicina em si, mas pelo comportamento do personagem central, o Dr. Shaun Murphy, e pelos efeitos que esse comportamento provoca ao seu redor.
Vale deixar algo muito claro desde o início. Shaun Murphy é um personagem de ficção, retratado como uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Ele não representa, nem pretende representar, a diversidade, a complexidade ou as múltiplas experiências reais de pessoas autistas.
O ponto aqui não é o diagnóstico, tampouco qualquer tentativa de romantização.
O que me interessa são determinados traços de conduta apresentados pelo personagem e que, curiosamente, são cada vez mais raros em ambientes corporativos sofisticados.
Shaun age com intencionalidade radical. Ele faz o que faz porque acredita, de forma genuína, que aquilo é o correto.
Não porque isso vai agradar alguém, proteger sua imagem, reforçar poder ou evitar conflitos. Existe coerência entre pensamento, fala e ação.
Não há jogo duplo, nem cálculo político, nem vaidade disfarçada de estratégia.
Esse comportamento chama atenção porque, no mundo corporativo, especialmente no topo das organizações, aprendemos cedo a sofisticar discursos, calibrar narrativas e gerenciar percepções.
Em muitos casos, esse refinamento excessivo nos afasta de algo essencial: clareza ética e consistência de comportamento.
O personagem não mente, não manipula e não usa ambiguidades como mecanismo de autoproteção. Ele erra, naturalmente, e erra bastante.
Mas seus erros não nascem do ego, de atalhos ou de desvios de caráter.
Eles decorrem de limitações humanas, algo que, paradoxalmente, torna suas atitudes mais previsíveis e, ao longo do tempo, mais confiáveis para quem trabalha ao seu redor.
O impacto desse tipo de postura no ambiente é significativo. No início, surge desconforto. Há resistência e conflito.
A franqueza direta incomoda, expõe incoerências e desmonta jogos silenciosos. Com o tempo, porém, algo se transforma.
As pessoas passam a confiar. A equipe entende que não há segundas intenções, que o feedback não está contaminado por política e que o foco está no paciente ou, fazendo o paralelo, no propósito real do trabalho.
O clima se torna mais leve e a confiança cresce. Em muitas organizações, CEOs afirmam valorizar transparência, ética e autenticidade.
Poucos, no entanto, estão dispostos a arcar com o custo cotidiano que esses valores exigem.
Liderar com coerência implica abrir mão de proteções simbólicas, de popularidade momentânea e, em alguns momentos, de conveniência pessoal.
Talvez a grande provocação que The Good Doctor nos oferece não seja sobre genialidade ou superação individual.
Talvez seja sobre algo mais simples e, justamente por isso, mais raro: o impacto de uma liderança sem ego inflado, sem vaidade performática e sem a necessidade constante de parecer algo além do que se é.
Em tempos de narrativas cuidadosamente construídas, o verdadeiro diferencial competitivo de um líder pode estar na previsibilidade ética.
Fazer o que é certo mesmo quando não é confortável. Dizer a verdade mesmo quando não é elegante ou fácil. Sustentar coerência mesmo quando ninguém está olhando.
Talvez o que mais nos desconcerte em Shaun Murphy não seja sua forma de ver o mundo, mas o espelho que ele coloca diante de líderes que, em nome da adaptação, aprenderam a negociar a própria coerência.
Aproveite as promessas de ano novo e seja mais coerente, começando por você mesmo.