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ESG: A longa estrada da igualdade de gênero

Não apenas as pesquisas, mas a vida cotidiana, mostram o quanto é longo o caminho para chegarmos a um lugar decente; mas imagina que coisa boa seria viver lá

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Está na hora de acelerar o passo em busca da igualdade. (Feodora Chiosea/Getty Images)

Está na hora de acelerar o passo em busca da igualdade. (Feodora Chiosea/Getty Images)

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Renato Krausz*

Publicado em 9 de março de 2023, 20h00.

Há um ano, numa aula da pós-graduação da FIA Business School, nós alunos fomos divididos em grupo e recebemos a missão de produzir um podcast com temas vinculados à sustentabilidade e ao ESG. Meu grupo resolveu falar sobre diversidade de gênero e abordar o machismo no ambiente de trabalho.

Aí surgiu uma ideia: vamos fazer uma pesquisa com nossas colegas de classe para saber quantas já sofreram ou presenciaram algum gesto de discriminação. Rodamos um Google Forms e, surpresa, quer dizer, surpresa nenhuma: todas já haviam sido vítimas de machismo.

Então gravamos depoimentos com algumas delas. E haja socos no estômago. Nas histórias, havia desde o machismo mais escancarado até o mais sutil, porém não menos devastador para a vida de uma mulher. Por exemplo, quando um chefe homem pergunta para uma gestora recém-promovida: “Você se casou recentemente, mas não pretende ter filhos agora, né?”.

Ou quando a única engenheira mulher de um certo departamento é escolhida para realizar uma tarefa burocrática, embora tenha a mesmíssima formação de todos os seus colegas homens. E o que dizer do machismo que se revela pela face mais ignóbil do assédio sexual, como o sofrido pela estagiária que acabou literalmente cercada por colegas bêbados numa happy hour do escritório?

Essas e outras histórias estão lá no podcast, que pode ser ouvido aqui. Não espere uma superprodução, até porque ninguém do grupo era dessa área de podcast nem nunca trabalhou em rádio ou TV. Eu próprio não sabia nem que botão apertar para gravar ou editar.

Já ia esquecendo! Tem também a discriminação que não vem de nenhum vilão. Vem de um chefe ou colega que sempre foi admirado pela equipe, inclusive pelas mulheres. O cara é uma pessoa boa, correta, mas, às vezes involuntariamente, reproduz hábitos ruins enraizados na nossa cultura. Aconteceu com uma colega sabem onde? Num evento de sustentabilidade.

Isso me colocou uma pulga do tamanho de um hamster atrás da orelha. Nesses 30 anos em que estou no corre de jornal-revista-agência, quantas centenas, talvez milhares, de vezes não fui EU este cara? Ou pior, outras quantas não fui eu o sujeito do machismo escancarado?

Bem, sei que não é o bastante, mas lanço agora mesmo um enorme pedido de desculpas retroativo – e outro vindouro, pelos deslizes que, sem querer, ainda venha a cometer. E há mais coisas que eu e todos nós podemos fazer. Podemos ler, estudar, participar de grupos de diversidade. Tenho feito. Podemos simplesmente perguntar se isso ou aquilo ofende. Esta semana mesmo perguntei para duas colegas do trabalho se era machismo eu chamar de “encontro de cavalheiros” um tipo de reunião em que nosso cliente seria orientado a ir “desarmado” e sem o propósito de expor suas discórdias com os anfitriões.

Podemos ainda conhecer e aderir ao movimento ElesPorElas, da ONU (indicação de outra colega de trabalho), e outras iniciativas que se dediquem a promover a igualdade de gênero, com engajamento dos homens e dos meninos.

Da minha parte, também me comprometo, enquanto possuir este espaço aqui na Bússola, conquistado sabe-se lá por qual devaneio benevolente dos editores, a usá-lo como uma tábua de remissão e de discussão propositiva da urgência deste tema – e de todas as diversidades. Já fiz aqui e ali e continuarei fazendo.

Comprometo-me a contar histórias de quem está fazendo a diferença e a trazer dados, números e gráficos que mostrem o quanto ainda é longa a estrada que precisamos percorrer para chegar a algum lugar decente. Ontem mesmo, no Dia Internacional das Mulheres, foram divulgadas pesquisas que deixam isso claro.

Mas aí acabei caindo na tentação de comparar o Tejo com o rio que corre pela minha aldeia e ocupei o espaço quase todo para falar de uma enquete que fiz um ano atrás, com uma amostra reduzida, porém muito querida. Desculpem por isso também.

Rapidamente: vale muito a pena conhecer a pesquisa do Instituto FSB para a CNI (Confederação Nacional da Indústria), que mostrou que as mulheres ocupam apenas 29% dos cargos na indústria brasileira.

E também a da Ipsos, realizada em 32 países, com os seguintes resultados no Brasil:

  • 36% dos brasileiros afirmaram ter presenciado comentários sexistas dentro do seu ciclo de convívio no último ano. O percentual é maior que o da média global, de 27%;
  • oito em cada dez de nós (78%) acreditam que há desigualdade entre homens e mulheres no país em termos sociais, políticos e econômicos. Estamos em terceiro lugar nesse ranking, que é liderado pela Índia, com 81%;
  • 23% dos conterrâneos afirmam que presenciaram situações de discriminação contra mulheres dentro do ambiente de trabalho no último ano; e
  • 21% disseram ter presenciado uma mulher ser assediada sexualmente no país no último ano, contra uma média global de 14%.

Ou seja, quando falamos em estrada longa, não é brincadeira. É uma realidade triste. Mas imagine só que mundo magistral, em todos os sentidos, encontraremos no fim dela. Vamos acelerar esse passo?

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