Aos 50+, experiência vira ponto forte na hora de mudar de carreira (Kinga/Shutterstock)
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Publicado em 30 de julho de 2026 às 10h00.
Por Jacqueline Resch*
Meio século bate na porta, mas o susto não é completar 50 anos! É perceber que ainda há muito tempo pela frente para continuar numa carreira que já não faz mais sentido para a vida.
Durante décadas, fomos ensinados a acreditar que a vida profissional é como uma linha reta: escolher uma profissão, crescer dentro dela e permanecer no mesmo caminho até a aposentadoria.
Mas, como ensina a reflexão atribuída ao filósofo grego Heráclito, "ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois, na segunda vez, nem o rio nem a pessoa são os mesmos."
A vida mudou. As pessoas vivem mais, trabalham por mais tempo e já não aceitam, com tanta facilidade permanecer em lugares que não representam quem elas são.
É nesse momento que a transição de carreira deixa de ser apenas uma ideia ou um sonho distante e passa a dominar os pensamentos.
Às vezes, ela nasce de uma demissão inesperada. Em outras, de um cansaço que se acumulou dia após dia de trabalho. Pode surgir também do desejo de transformar um talento antigo, uma habilidade, um interesse ou um hobby numa nova possibilidade profissional.
O número de pessoas acima dos 50, 60 e 70 anos que buscam novas ocupações formais vem crescendo. Em 2024, o Brasil registrou o maior nível de ocupação de pessoas com 60 anos ou mais desde o início da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): 24,4%. Na prática, uma em cada quatro pessoas nesta idade estava trabalhando.
A população com 60 anos ou mais chegou a 34,1 milhões, crescimento de 53,3% em relação a 2012. A expectativa de vida aumentou nove anos desde 1940, chegando a 76,6 anos na média. Metade dos que permanecem no mercado, no entanto, é por necessidade
E acredite: mudar de carreira depois dos 50 tem o seu valor. Quem chega a essa fase carrega décadas de experiência, relações construídas, erros que se transformam em aprendizado, capacidade de tomar decisões e maturidade para reconhecer o que funciona e o que não funciona.
A liderança desenvolvida em uma função pode ser usada num negócio próprio. A habilidade de cuidar de pessoas pode abrir espaço para uma atuação em gestão, educação ou consultoria. A experiência técnica pode se transformar em mentoria. Até aquilo que parecia pertencer exclusivamente à antiga carreira pode ganhar uma nova função quando colocado no novo projeto.
Foi o que aconteceu com a escritora Clarisse Escorel. Depois de construir uma carreira como advogada por vinte e quatro anos, ela transformou a experiência acumulada ao longo de décadas em matéria-prima para a ficção.
A vivência profissional e a maturidade adquirida nesse percurso ajudaram a dar profundidade aos personagens e às histórias que escreve, com um olhar atento às relações humanas. Hoje, ela tem dois livros publicados - Depois da chuva e O amor na sala escura - e participa de importantes eventos literários, como a FLIP 2026.
"Deixar para trás uma carreira sólida, segura, não foi uma decisão fácil. Entre outras razões porque percebi, de cara, que a minha escrita tinha sido moldada para funcionar naquele contexto jurídico. Fui me desfazendo disso aos poucos, deixando florescer a escrita com a qual eu me identificava. A maturidade e uma certa paz de espírito com as minhas escolhas me ajudaram a escrever da forma que eu desejava. Mas é um processo sem fim. Um aprimoramento permanente. E isso é apaixonante."
É claro que mudar exige planejamento. É necessário estudar o novo mercado, atualizar conhecimentos, entender as próprias condições financeiras e aceitar que, em alguns momentos, será preciso voltar a aprender.
Mas aprender novamente não diminui ninguém. Ao contrário: demonstra disposição para continuar crescendo, principalmente em uma época na qual não se acredita mais em formação e conhecimento estático e se fala em aprendizado para toda a vida (life long learning).
A sociedade ainda costuma associar juventude à inovação e maturidade à estabilidade, mas isso já não cabe mais nos dias de hoje. Depois dos 50, a mudança costuma nascer menos da pressa e mais da consciência. Já não se trata de provar alguma coisa para todo mundo, mas de construir uma rotina mais coerente com os próprios valores, talentos e desejos.
É o caso de Marcus Cal Kung, advogado e criador da AMBERJ, a primeira associação legalizada de bodyboard do Brasil. A trajetória dele deu algumas voltas.
Depois de se formar em Direito e atuar como Oficial de Justiça, decidiu trocar a carreira pelo bodyboard e se dedicou ao desenvolvimento da modalidade no país. O trabalho ganhou reconhecimento internacional: no Havaí, recebeu o prêmio de Personalidade Mundial do Bodyboard, considerado o "Oscar" do esporte.
Anos depois, voltou à advocacia, desta vez unindo a formação jurídica à experiência que acumulou no esporte para atuar nas áreas esportiva e cível.
A nova carreira talvez não seja mais fácil. Mas pode ser mais verdadeira e mais prazerosa.
E essa pode ser uma das grandes vantagens de mudar nessa fase: finalmente compreender que sucesso não é apenas subir de cargo, aumentar o salário ou colecionar títulos. Sucesso também pode significar simplesmente a vontade de começar cada dia.
"Hoje vejo que cada etapa teve um propósito. O Direito me deu uma base sólida, o esporte me trouxe uma experiência que poucos profissionais têm, e a junção dessas duas coisas acabou definindo o caminho que sigo até hoje. E sou muito feliz com a carreira e trajetória que eu trilhei", contou Marcos Kung.
Se você se preparar bem, a transição de carreira pode ser a grande oportunidade de escrever um próximo capítulo com mais liberdade, consciência e verdade, pois não existe prazo de validade para descobrir novos caminhos.
Mas, é preciso admitir. A mudança nos assusta. Nos assusta porque nos obriga a abandonar um lugar conhecido antes de termos a certeza de que conseguiremos habitar o próximo.
É como um trapezista: para alcançar a barra seguinte, ele precisa inevitavelmente soltar a primeira. Há um instante em que não está preso a nenhuma delas, suspenso no vazio. Mesmo sabendo que existe uma rede de proteção, o salto exige coragem, porque a sensação de perda de controle é inevitável.
As transições da vida têm essa mesma natureza: existe um intervalo entre quem fomos e quem ainda estamos nos tornando. É justamente nesse espaço de aparente vazio que a transformação acontece. Não existe mudança sem o momento em que deixamos de ser quem éramos antes de nos tornarmos quem seremos.
*Jacqueline Resch é graduada em psicologia pela PUC-Rio e tem MBA pela COPPEAD (UFRJ). É certificada em Coaching e Coaching de Equipe, em Facilitação Sistêmica de Processos Coletivos, em Práticas de Colaboração e Diálogo pelo Taos Institute (EUA) e cursou a pós-graduação em Perspectiva e Prática Profissional Generativa pela Universidade de Manizales (Colômbia). Atua há mais de 40 anos como consultora, coach, facilitadora de diálogos, professora e palestrante.