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A dona do TikTok está gastando quase tudo o que ganha para não perder a corrida da IA (Li Hongbo/VCG via Getty Images/Getty Images)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 09h50.
No verão de 2023, dentro de um galpão de tijolos reformado no centro de Xangai, dezenas de funcionários da ByteDance, empresa dona do famoso TikTok, embarcaram em uma missão secreta. O projeto não tinha nome, e os engenheiros sabiam apenas que faziam parte da unidade de "inovação em IA".
A tarefa: construir o próximo superaplicativo da empresa chinesa, um chatbot de inteligência artificial para as massas, à la ChatGPT. Dois anos depois, esse protótipo, batizado de Doubao ("pãozinho de feijão", em tradução livre), virou o aplicativo de IA mais popular da China, com cerca de 336 milhões de usuários mensais. Para muitos chineses, a palavra "doubao" se tornou sinônimo da própria inteligência artificial.
Mas o fundador da ByteDance, Zhang Yiming, quer mais. Segundo o Financial Times, o executivo tem planos de transformar a dona do TikTok na líder chinesa em todas as camadas da IA, dos modelos de fronteira e geração de vídeo à infraestrutura de nuvem e chips próprios, o que o CEO da Nvidia, Jensen Huang, chama de "bolo de cinco camadas" da inteligência artificial.
Nos últimos três anos, a ByteDance investiu em IA de forma mais agressiva que qualquer outra gigante de tecnologia chinesa, elevou o orçamento de investimento em infraestrutura de IA para cerca de 200 bilhões de yuans (US$ 29,4 bilhões) neste ano — e algumas projeções apontam que o valor pode chegar a US$ 70 bilhões conforme a empresa avança para novas frentes, como chips.
A conta tem custo visível: o lucro líquido de 2025 caiu mais de 70% na comparação anual, recuo que a companhia atribui principalmente a ajustes contábeis ligados aos investimentos em IA.
Os investidores, por ora, aprovam. No mercado secundário, o valor da ByteDance subiu para cerca de US$ 600 bilhões, um salto de 50% em relação ao ano anterior, embalado pelo otimismo crescente com os avanços chineses em IA, o mesmo clima que impulsionou a estreia estrondosa da fabricante de memória CXMT na bolsa. O contraponto é o momento: as ações de semicondutores despencaram nas últimas semanas em meio a temores sobre excesso de oferta e a sustentabilidade do boom da IA.
A história da ByteDance ajuda a entender o apetite. Catorze anos atrás, a empresa era uma dúzia de pessoas num apartamento apertado em Pequim. Zhang manteve a sede num apartamento de propósito: os prédios comerciais da cidade desligavam o ar-condicionado à noite, o horário mais produtivo dos programadores.
Ele havia convencido um investidor-anjo a colocar US$ 80 mil no negócio numa reunião de menos de dez minutos, na qual, aos 29 anos, desenhou a ideia num guardanapo.
O "molho secreto" era um algoritmo que microanalisava o comportamento do usuário e previa seus interesses com precisão, mantendo-o fisgado. Foi essa tecnologia que deu origem ao Douyin, em 2016, e à sua versão internacional, o TikTok, um ano depois.
A popularidade dos dois abriu à ByteDance as portas do e-commerce e a tornou uma das empresas de tecnologia mais lucrativas da China, superando Alibaba e Tencent em 2023.
Nem tudo foi tranquilo. Quando a DeepSeek lançou seu modelo de raciocínio R1, em janeiro de 2025, o Doubao foi ultrapassado quase da noite para o dia em usuários ativos diários. "Construímos um ótimo produto, com muitas funções e interfaces bonitas. A DeepSeek tinha só uma página web sem graça", contou um ex-funcionário do Doubao ao FT. "Foi desanimador e um alerta de que, não importa quão bonito seja seu produto, é o modelo por baixo que decide o quão inteligente ele realmente é."
A ByteDance reagiu rápido. Em fevereiro de 2025, contratou Wu Yonghui, cientista sênior vindo do Google DeepMind, para liderar sua equipe de modelos fundacionais, a Seed, que cresceu para cerca de 2.000 pessoas, uma das maiores da China.
O episódio expõe a tensão que a empresa vive: equilibrar a comercialização de produtos com a pesquisa de fronteira, enquanto disputa talentos escassos com Alibaba, Tencent e até laboratórios ocidentais, o mesmo fenômeno que faz Meta e Google perderem pesquisadores para Anthropic e OpenAI.
A frente mais ambiciosa da estratégia é vender IA para empresas por meio da Volcano Engine, o braço de nuvem da ByteDance. Apesar de ter chegado tarde a um mercado saturado, a unidade se tornou a segunda maior fornecedora de infraestrutura e software de IA da China, atrás só da Alibaba, ganhando espaço com preços agressivos.
Seu consumo de tokens, a medida de uso de IA, chegou a 180 trilhões por dia em junho, e a empresa afirma deter quase metade do mercado chinês de modelos como serviço.
Um trunfo da Volcano Engine é a capacidade de se expandir para fora, aproveitando a experiência da ByteDance em mais de 100 países. A empresa tem uma equipe dedicada a construir data centers em cinco países, e o Brasil é um deles, ao lado de Malásia, Singapura, Irlanda e Noruega.
Essa infraestrutura vai sustentar as operações locais da companhia e também oferecer serviços de nuvem e de modelos a clientes de cada país.
O maior gargalo, porém, é o mesmo de todas as empresas chinesas de IA: a falta de poder computacional avançado, restringido pelos controles de exportação dos Estados Unidos. Quanto mais usuários o Doubao ganha, mais capacidade de processamento consome, cada vez mais cara e escassa na China.
A ByteDance é tida como a gigante chinesa mais bem posicionada nesse quesito, por ter comprado chips da Nvidia cedo e em volume, além de processadores domésticos da Cambricon, e já projeta seu próprio chip de IA. Se a transformação ousada da dona do TikTok vai dar certo pode, no fim, depender exatamente disso: garantir silício suficiente para alimentar a própria ambição.