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Burnout dos gestores pode ser fonte do esgotamento dos times

Quando gestores operam no limite, o impacto atinge a produtividade e a saúde mental de todo o time. Entenda como prevenir esse risco sistêmico

Líderes sobrecarregados podem comprometer a saúde mental e o engajamento de toda a equipe (valentinrussanov/Getty Images)

Líderes sobrecarregados podem comprometer a saúde mental e o engajamento de toda a equipe (valentinrussanov/Getty Images)

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Publicado em 8 de maio de 2026 às 17h00.

Por Allesandra Canuto*

A sobrecarga na liderança é um fenômeno cada vez mais presente dentro das organizações e os seus efeitos vão muito além do esgotamento individual dos gestores.

Quando líderes operam constantemente no limite, o impacto se espalha silenciosamente pelas equipes, comprometendo o bem-estar das equipes, a produtividade e até a cultura organizacional.

O impacto do esgotamento dos gestores

O relatório global da Gallup sobre o estado dos gestores no trabalho aponta que os líderes estão entre os grupos mais propensos ao burnout dos gestores, especialmente quando acumulam responsabilidades sem suporte proporcional.

Em levantamentos recentes, gerentes relatam níveis mais altos de estresse diário do que outros colaboradores, o que afeta diretamente seu desempenho e o clima das equipes.

O estudo anual mostrou que gestores são mais estressados que suas equipes. Em 2025, 45% dos gestores relataram estresse diário, contra 39% dos colaboradores individuais, o que confirma que a liderança está mais exposta a pressões constantes.

Ainda de acordo com os dados, globalmente, a queda de engajamento custou US$ 438 bilhões em produtividade para as empresas. O relatório da Gallup deixa claro um ponto crítico: a sobrecarga da liderança não é apenas um problema individual, é um risco sistêmico.

Riscos para a tomada de decisão e cultura

Outro estudo, dessa vez da Harvard Business Review, indica que a sobrecarga contínua reduz a capacidade de tomada de decisão, empatia e visão estratégica — três pilares essenciais da liderança eficaz.

Quando essas competências se deterioram, o impacto se espalha para toda a equipe, aumentando conflitos, retrabalho e insegurança.

Em muitos contextos, espera-se que líderes sejam simultaneamente estratégicos, operacionais, inspiradores, disponíveis e resilientes.

Esta multiplicidade de papéis, somada a metas agressivas e ambientes de alta pressão, cria uma rotina marcada por decisões constantes, interrupções e pouca margem para recuperação. O resultado é um estado contínuo de sobrecarga cognitiva e emocional.

Deterioração da empatia e comunicação

O problema é que líderes sobrecarregados tendem a perder qualidade em aspectos essenciais da liderança. A escuta ativa diminui, a empatia dá lugar à reatividade e a clareza na comunicação se deteriora.

Pequenos sinais de desgaste, tais como: impaciência, microgerenciamento ou dificuldade em delegar — começam a aparecer e, com o tempo, afetam diretamente o clima da equipe.

Além disso, há um efeito de espelhamento. Equipes frequentemente modelam seus comportamentos com base no que observam em seus líderes.

Quando um gestor está sempre exausto, indisponível ou trabalhando em ritmo insustentável, isso normaliza padrões prejudiciais.

Os colaboradores passam a sentir que também precisam operar no limite, o que aumenta o risco de estresse crônico, queda de engajamento e burnout.

O impacto na confiança e segurança dos times

Outro ponto crítico é a tomada de decisão. Sob sobrecarga, o cérebro tende a recorrer a atalhos cognitivos, priorizando soluções rápidas em detrimento das mais eficazes.

Isso pode gerar inconsistência nas decisões, mudanças frequentes de comportamento e insegurança dentro da equipe.

A confiança, elemento central para times de alta performance, começa a se fragilizar.

Para as organizações, ignorar a sobrecarga na liderança é um erro estratégico. Não se trata apenas de cuidar do indivíduo, mas de proteger o sistema como um todo.

Líderes saudáveis são multiplicadores de ambientes saudáveis. Quando estão equilibrados, conseguem promover segurança psicológica, incentivar autonomia e construir relações de confiança.

Estratégias de mitigação e sustentabilidade

Mitigar esse problema exige ação em múltiplos níveis. No plano organizacional, é fundamental revisar expectativas irreais, redistribuir responsabilidades e criar estruturas de apoio, como coaching, mentoria e espaços seguros para troca.

Já no nível individual, líderes precisam desenvolver consciência sobre seus próprios limites, aprender a priorizar com rigor e cultivar práticas de recuperação — seja por meio de pausas estruturadas, gestão de energia ou estabelecimento de fronteiras claras.

Encerro dizendo que é importante reconhecer que a sobrecarga não é um sinal de competência, mas um alerta. Sustentar a ideia de que bons líderes são aqueles que “aguentam tudo” apenas perpetua ciclos de desgaste.

Liderar bem, hoje, passa necessariamente por saber cuidar de si para cuidar dos outros. O futuro das organizações depende menos de líderes heroicos e mais de líderes sustentáveis.

*Allessandra Canuto é especialista em Inteligência Emocional e Saúde Mental para o Desenvolvimento de Equipes de Alta Performance. Atua na formação de consultores, mentores e líderes conscientes por meio de projetos como People Shaper, Skill Flow e PODeSENTIR.

Acompanhe tudo sobre:LiderançaGestãoBurnout

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