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Avanço da recarga rápida muda estratégia financeira dos eletropostos

Avanço de 32,8% na estrutura de pontos rápidos altera modelo de negócios, que passa a lucrar com tempo de permanência e conveniência do consumidor

Expansão da rede de recarga de elétricos no Brasil muda o foco do setor, agregando valor à jornada de consumo durante o tempo de espera do motorista (Leandro fonseca/Exame)

Expansão da rede de recarga de elétricos no Brasil muda o foco do setor, agregando valor à jornada de consumo durante o tempo de espera do motorista (Leandro fonseca/Exame)

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Publicado em 4 de outubro de 2026 às 13h00.

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A expansão de pontos de recarga para veículos elétricos no Brasil atingiu 8.601 estações rápidas em maio de 2026, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). O crescimento impulsiona uma mudança na receita dos eletropostos, que deixam de focar apenas na venda de energia para explorar a jornada de consumo dos motoristas. A estratégia prioriza serviços agregados durante o tempo de carregamento.

Por Paulo Sergio Fernandes Junior, CEO da Apollo Energy*

A infraestrutura de recarga rápida está avançando em um ritmo que começa a mudar não apenas a mobilidade elétrica, mas a lógica econômica dos lugares onde os motoristas param.

Segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico, em parceria com a Tupi Mobilidade, o número de pontos rápidos em corrente contínua no país saltou de 6.479 em fevereiro para 8.601 em maio de 2026, crescimento de 32,8% em apenas três meses.

No total, o Brasil já reúne mais de 25 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga. A expansão é relevante, porém olhar para esses locais apenas como pontos de venda de energia pode limitar o potencial do negócio.

Em muitos casos, o maior valor do carregador estará no cliente que ele consegue atrair e no tempo que esse consumidor permanece no estabelecimento.

O tempo de permanência como diferencial nos eletropostos

A diferença em relação ao posto de combustível começa justamente no relógio. Abastecer um carro a combustão costuma ser uma passagem rápida, enquanto a recarga cria uma janela maior de permanência, capaz de ser convertida em consumo, relacionamento e conveniência.

Um levantamento do Transportation Energy Institute, nos Estados Unidos, registrou no quarto trimestre de 2025 duração média de 32,8 minutos por sessão de recarga, com 30,7 minutos em lojas de conveniência e 33 minutos em supermercados. O comportamento brasileiro não precisa reproduzir exatamente esses números para que a lógica seja válida.

Quando o consumidor deixa de permanecer por poucos minutos no local e passa a ter tempo para tomar um café, fazer compras, trabalhar ou utilizar algum serviço, muda também o valor econômico daquela visita.

Integração da recarga à jornada de consumo

Por isso, avaliar um eletroposto exclusivamente pela margem obtida na recarga é uma leitura incompleta. A própria regulação brasileira abre espaço para diferentes estratégias. A ANEEL permite a exploração comercial da recarga de veículos elétricos com preços livremente negociados.

Essa liberdade é importante, porém não significa que toda a rentabilidade precise ser construída sobre o kWh. O carregador pode funcionar como uma ferramenta de aquisição de clientes para alimentação, varejo, estacionamento, serviços e programas de fidelidade.

Dependendo da operação, a energia pode ser menos o produto final e mais o motivo pelo qual alguém escolheu aquele endereço em vez do concorrente.

Sinergia entre infraestrutura de recarga e o comércio local

Essa lógica também ajuda a entender por que alguns negócios partem com vantagem. Muitos postos tradicionais já possuem localização estratégica, fluxo, banheiros, iluminação e lojas de conveniência.

Supermercados podem transformar o período de compras em tempo de recarga. Hotéis e restaurantes conseguem incorporar o serviço à experiência que já oferecem, enquanto estacionamentos podem combinar vaga e energia em uma proposta única.

Escolher onde instalar um carregador, portanto, não deveria depender apenas da potência disponível, do acesso à rede elétrica ou do tráfego de veículos. Também é preciso avaliar o que existe ao redor e se o motorista encontra razões para permanecer naquele espaço.

A evolução das baterias e o desafio da recarga ultrarrápida

Existe, naturalmente, um argumento contrário. Baterias e carregadores estão evoluindo e a tendência é que a espera diminua. A Agência Internacional de Energia mostra no Global EV Outlook 2026 que, em veículos capazes de aproveitar maior potência, 15 minutos em um carregador de 150 kW podem acrescentar quase 180 quilômetros de autonomia.

Isso impede que qualquer modelo de negócio seja construído supondo que o consumidor ficará 30 ou 40 minutos parado para sempre. Ainda assim, a recarga mais rápida não elimina a importância da experiência. Pelo contrário, aumenta a competição por preferência.

Se dois pontos entregam energia em velocidade semelhante, fatores como conforto, segurança, alimentação, facilidade de pagamento e serviços passam a ajudar o motorista a decidir onde parar.

Vantagem competitiva na era da mobilidade elétrica

A corrida pela infraestrutura de recarga, portanto, não será vencida apenas por quem instalar mais equipamentos ou cobrar menos pela energia. O ativo mais difícil de replicar pode ser justamente a combinação entre localização, infraestrutura e experiência.

Para postos, estacionamentos, supermercados, hotéis e centros comerciais, o carregador precisa ser tratado como parte de uma jornada de consumo, e não como uma tomada sofisticada no estacionamento.

O posto do futuro certamente poderá vender energia, mas sua vantagem competitiva será construída também em torno do que acontece durante os minutos em que o carro recupera autonomia.

*Paulo Sergio Fernandes Junior é CEO da Apollo Energy, empresa brasileira especializada em infraestrutura e soluções para recarga de veículos elétricos. Atua no desenvolvimento de projetos de eletrificação para condomínios, empresas e estacionamentos, com foco em infraestrutura elétrica, implantação de carregadores, gestão inteligente e escalabilidade.

'Perguntas frequentes'

Qual é o crescimento da infraestrutura de recarga rápida no Brasil? +

Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), em parceria com a Tupi Mobilidade, o número de pontos rápidos em corrente contínua cresceu 32,8% em três meses, saltando de 6.479 em fevereiro para 8.601 em maio de 2026.

Como o tempo de recarga afeta o consumo nos eletropostos? +

O tempo de permanência maior para carregar um veículo elétrico, em comparação ao abastecimento a combustão, permite converter a espera em consumo. Nos Estados Unidos, a duração média de uma sessão de recarga supera 30 minutos, segundo levantamento do Transportation Energy Institute.

A regulação permite vender energia para recarga de forma livre? +

Sim. A regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) permite a exploração comercial da recarga de veículos elétricos com preços negociados livremente, incentivando a criação de modelos de negócio baseados não só na tarifa por kWh.

A evolução tecnológica pode reduzir o tempo nos eletropostos? +

Segundo o Global EV Outlook 2026, da Agência Internacional de Energia, 15 minutos em um carregador de 150 kW podem adicionar quase 180 quilômetros de autonomia a veículos compatíveis, apontando para uma futura redução da espera no carregamento.

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