A governança e a análise de dados são as bases invisíveis que sustentam o sucesso das franquias (treety/Getty Images)
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Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 15h00.
Por Julio Monteiro*
Durante muito tempo, o crescimento das redes de franquias foi associado quase exclusivamente à expansão física. Mais lojas, mais cidades, mais presença.
Esse modelo funcionou em um determinado momento do varejo brasileiro, mas hoje ele se mostra insuficiente para sustentar resultados consistentes.
Em um cenário de margens pressionadas, consumidores mais exigentes e concorrência ampliada, crescer sem controle deixou de ser estratégia e passou a ser risco.
Não como discurso técnico ou tendência passageira, mas como a base que sustenta decisões estratégicas e garante previsibilidade para franqueados, investidores e para a própria marca.
A governança é o ponto de partida. Redes maduras entendem que escalar exige regras claras, processos bem definidos e critérios objetivos de tomada de decisão.
Isso vale para expansão, operação, marketing e relacionamento com franqueados. Sem essa estrutura, o crescimento acontece de forma desigual e os resultados variam de unidade para unidade, enfraquecendo o todo.
Mas governança, por si só, não se sustenta sem dados confiáveis. O franchising moderno é orientado por leitura constante de informações.
Vendas, ticket médio, fluxo de clientes, tempo de atendimento, giro de produtos e comportamento de consumo precisam ser acompanhados em tempo real.
Quando os dados são tratados como ativo estratégico, eles deixam de ser relatórios estáticos e passam a orientar decisões práticas do dia a dia.
Foi a partir desse tipo de leitura que a Megamatte, por exemplo, conseguiu identificar um padrão claro no comportamento do seu consumidor.
A análise detalhada dos dados mostrou que grande parte da jornada de consumo estava ligada à rapidez e à praticidade, especialmente em ambientes urbanos e de alto fluxo.
Esse insight levou a uma mudança estrutural na operação da rede, com a implementação de um modelo de atendimento e entrega dos produtos em até quatro minutos.
Essa decisão não nasceu de uma aposta ou de uma percepção isolada, mas de uma leitura consistente de dados operacionais e de consumo.
O resultado foi um impacto direto na experiência do cliente, no giro dos produtos e na eficiência das lojas, além de maior padronização entre as unidades franqueadas.
A automação é o terceiro pilar desse processo. À medida que a rede cresce, processos manuais se tornam gargalos.
A eficiência operacional de controles, auditorias e indicadores permite escala sem perda de qualidade.
Além disso, reduz erros, aumenta a velocidade de resposta e libera as equipes para atuar de forma mais estratégica.
No varejo de alimentação, esse conjunto se reflete diretamente no resultado financeiro. Um controle mais preciso de estoque reduz desperdício.
A leitura constante de desempenho permite ajustes rápidos em cardápio e preços. O acompanhamento de indicadores operacionais garante consistência na experiência do consumidor, independentemente da unidade.
Outro efeito importante está na relação com o franqueado. Quando a franqueadora opera com transparência e compartilha dados de forma estruturada, o franqueado deixa de agir no escuro.
Ele entende onde está performando bem, onde precisa ajustar e quais ações geram impacto real no resultado.
Isso fortalece a relação, reduz conflitos e cria um ambiente mais colaborativo dentro da rede. Do ponto de vista de expansão, governança e dados também se tornaram critérios decisivos.
O novo perfil de franqueado e de investidor busca previsibilidade, suporte estruturado e modelos testados.
Redes de franquias que conseguem demonstrar controle e decisões baseadas em dados ganham vantagem competitiva.
O varejo brasileiro vive um momento em que eficiência é tão importante quanto crescimento.
Não se trata apenas de abrir mais lojas, mas de garantir que cada unidade opere bem, gere resultado e fortaleça a marca.
Governança, dados e automação não aparecem na vitrine, mas são eles que sustentam tudo o que o consumidor vê na ponta.
O futuro do franchising pertence às redes que entendem que crescer melhor é mais importante do que crescer mais rápido.
São essas empresas que constroem negócios resilientes, preparados para enfrentar ciclos econômicos, mudanças de consumo e um mercado cada vez mais competitivo.
*Julio Monteiro é CEO do Grupo Rhodium, sócio da Megamatte e vice-presidente da Associação Brasileira de Franchising Seccional Rio de Janeiro (ABF Rio).