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Setores reagem a tarifas dos EUA e pressionam por retirada dos 40%

Entidades do café, da indústria, das carnes e das frutas dizem que a manutenção da sobretaxa compromete competitividade e pedem avanço nas negociações com Washington

Produção de café especial no Brasil: entidades pedem avanço nas negociações para remover a tarifa adicional dos EUA (Carl de Souza/AFP/Getty Images)

Produção de café especial no Brasil: entidades pedem avanço nas negociações para remover a tarifa adicional dos EUA (Carl de Souza/AFP/Getty Images)

Publicado em 15 de novembro de 2025 às 14h51.

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A nova ordem executiva assinada por Donald Trump, que altera o escopo das tarifas recíprocas aplicadas a produtos agrícolas, abriu uma nova rodada de reações entre associações e entidades setoriais brasileiras.

Conforme mostrou a EXAME, o governo americano retirou a tarifa-base de 10% aplicada a itens como café, carne bovina, suco de laranja e frutas tropicais, mas manteve a sobretaxa adicional de 40% imposta em agosto, que elevou de forma significativa o custo das exportações para os Estados Unidos. No caso do café especial, os embarques para o mercado americano caíram cerca de 55% entre agosto e outubro em relação ao mesmo período do ano anterior.

O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a redução parcial como um movimento positivo, mas insuficiente. Ele afirmou que o Brasil continuará pressionando pela retirada da sobretaxa de 40% e citou avanços nas negociações após conversas entre os presidentes Lula e Trump e uma reunião recente entre os chanceleres Mauro Vieira e Marco Rubio.

“Há uma distorção que precisa ser corrigida. No caso do Brasil, tinha 50%, ficou com 40%, que é muito alto”, disse Alckmin. Ele destacou ainda que a tarifa sobre o suco de laranja foi zerada, o que representa impacto direto sobre um mercado que movimenta US$ 1,2 bilhão por ano em exportações brasileiras.

Com os efeitos do tarifaço ainda em curso, associações setoriais começaram a detalhar suas avaliações sobre o alcance da medida e os riscos da manutenção das barreiras.

Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA)

A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) afirmou que a manutenção da tarifa adicional de 40% pelos Estados Unidos representa um entrave sério ao setor e não atende às demandas do mercado brasileiro de cafés especiais. A entidade destacou que a exclusão apenas da tarifa-base não resolve a distorção criada neste ano e mantém o produto brasileiro em desvantagem competitiva no principal destino dos cafés especiais do país.

Segundo a BSCA, os efeitos já são visíveis nos embarques. Nos três primeiros meses de vigência da sobretaxa, as exportações de cafés especiais do Brasil para os EUA caíram cerca de 55%, passando de 412 mil sacas de 60 kg no mesmo período de 2024 para 190 mil sacas em 2025. A entidade avalia que esse cenário tende a se agravar no curto prazo caso não haja uma revisão rápida do tratamento tarifário.

Diante desse quadro, a BSCA defende a aceleração das negociações entre Brasil e Estados Unidos para restabelecer o fluxo comercial em condições equilibradas. A associação afirma que o setor aguarda uma solução “o mais rápido possível”, já que a permanência das tarifas adicionais compromete a competitividade do café especial brasileiro e coloca em risco a relação comercial construída ao longo dos últimos anos.

Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé)

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) afirmou que ainda é necessário analisar os efeitos do novo decreto dos Estados Unidos sobre o café brasileiro, especialmente porque o setor enfrenta impacto direto das tarifas de 50% aplicadas às exportações do país. A entidade lembrou que, diferentemente da indústria de carne bovina, que conseguiu redirecionar embarques e abrir novos mercados, o café tem sido mais penalizado pelas cobranças adicionais.

O Cecafé destacou que o Brasil paga duas tarifas distintas ao exportar café para os EUA: a alíquota-base de 10% e o adicional de 40% previsto no Artigo 301. Diante disso, a entidade considera essencial entender se o novo ato assinado pelo governo americano altera apenas a tarifa-base, apenas a adicional ou ambas, já que essa definição tem impacto direto sobre a competitividade do produto brasileiro.

Segundo o conselho, o momento exige cautela e diálogo técnico. A entidade informou que está em contato com seus pares nos Estados Unidos para analisar com precisão o alcance da medida e ter clareza sobre o cenário real que se apresenta para as exportações brasileiras de café.

Confederação Nacional da Indústria (CNI)

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou que a mudança tarifária anunciada pelos Estados Unidos reforça a urgência de eliminar a sobretaxa adicional de 40% aplicada especificamente ao Brasil. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, mesmo com a retirada da tarifa-base, o país segue em desvantagem em relação a concorrentes que não enfrentam a cobrança extra. Ele afirmou que a competitividade brasileira só será restabelecida com um acordo que suspenda integralmente essa taxa.

Segundo a CNI, dos mais de 200 produtos que tiveram redução da tarifa-base, 80 são exportados pelo Brasil e somaram US$ 4,6 bilhões em vendas para os EUA em 2024, o que representou 11% das exportações totais enviadas ao mercado americano. Apesar da abrangência da lista, apenas quatro itens brasileiros — três tipos de suco de laranja e a castanha-do-pará — passam a ter isenção total. Os demais 76 produtos, entre eles café não torrado, cortes de carne bovina e cera de carnaúba, continuam sujeitos à tarifa adicional de 40%.

A entidade também observou que a nova medida americana não faz referência à ordem executiva que instituiu a sobretaxa específica ao Brasil, o que, na avaliação da confederação, amplia a incerteza e reforça a necessidade de avançar nas negociações bilaterais. Para a CNI, é essencial que o governo brasileiro acelere o diálogo com Washington para garantir condições competitivas equivalentes às oferecidas a outros fornecedores globais.

Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec)

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) considerou positiva a decisão dos Estados Unidos de reduzir as tarifas aplicadas à carne bovina brasileira e afirmou que a medida reforça a confiança no diálogo técnico entre os dois países. Para a entidade, a revisão reconhece a relevância da proteína brasileira no abastecimento global.

A Abiec destacou que a redução tarifária devolve previsibilidade ao setor e melhora as condições de comércio, especialmente porque os Estados Unidos são o segundo maior destino da carne bovina do Brasil.

A entidade afirmou ainda que a decisão fortalece a relação comercial e cria espaço para uma retomada mais equilibrada das exportações, indicando que seguirá trabalhando com autoridades brasileiras e americanas para ampliar oportunidades e consolidar o Brasil como fornecedor competitivo.

Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas)

A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) avaliou que o cenário para os produtores brasileiros permanece difícil, mesmo com a redução parcial das tarifas pelos Estados Unidos. O alívio proporcionado pela retirada da alíquota de 10% é limitado enquanto a sobretaxa de 40% continuar em vigor, o que mantém pressão significativa sobre as exportações brasileiras de frutas.

A entidade ainda analisa o alcance da ordem executiva americana e seus efeitos sobre outros países exportadores, o que pode alterar a competitividade das frutas brasileiras no mercado dos EUA. A mudança, contudo, contemplou quatro das cinco frutas mais relevantes enviadas pelo Brasil — manga, melão, melancia e papaya — ficando a uva fora da nova lista.

Segundo a Abrafrutas, ainda é cedo para estimar prejuízos totais, mas a entidade já observa retração expressiva nas vendas, com queda de cerca de 70% nas exportações de uva em relação ao mesmo período do início da safra de 2024. A associação continuará monitorando o impacto das tarifas e o comportamento do mercado nas próximas semanas.

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