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'Segunda já tenho que estar fora?': o que diz a PF sobre conversas de Moraes e Vorcaro

Relatório da PF reúne mensagens sobre contrato milionário, pagamentos a escritório e contatos antes da prisão

Publicado em 1 de setembro de 2026 às 15h39.

Última atualização em 1 de setembro de 2026 às 15h41.

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Um relatório da Polícia Federal que teve o sigilo levantado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira, 1º, trouxe novos detalhes sobre a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e o próprio ministro.

O documento, de 218 páginas, foi elaborado a partir da análise do celular apreendido com Vorcaro durante a Operação Compliance Zero. Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de fraudes na cessão de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB, em operações que somariam aproximadamente R$ 12 bilhões.

A investigação deu base a um despacho de Mendonça em que pede que o caso entre Vorcaro e Moraes seja levado ao plenário do Supremo de forma pública e transparente, e requer uma data ao presidente da Corte, o ministro Edson Fachin.

O que a PF diz sobre pagamentos ao escritório Barci de Moraes?

As informações incluem mensagens nas quais Vorcaro trata dos pagamentos previstos no contrato de cerca de R$ 131 milhões firmado com o escritório. Em uma das conversas, o banqueiro afirma que o acordo era o “mais importante” que tinha e diz que o pagamento não poderia “atrasar um dia”.

Em outro diálogo, Vorcaro orienta uma funcionária do Banco Master: “Pode pagar sempre, sem nota”. O relatório registra ainda que ele completou a orientação com a frase “Do jeito que for”. Na sequência da conversa, a funcionária enviou o registro de uma transferência do Banco Master ao escritório no valor de R$ 3.422.268,14.

Em uma ocasião diferente, ao tratar do pagamento de mais uma parcela prevista no contrato, o empresário determina que os valores destinados ao escritório não sejam transferidos por Pix. “Não é bom”, afirmou.

A própria PF identifica a conversa como uma orientação para que os pagamentos ao Barci de Moraes não fossem feitos por Pix.

O acordo de prestação de serviços advocatícios entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes previa pagamentos mensais de R$ 3 milhões. A versão final do contrato foi enviada a Vorcaro por Viviane em 17 de janeiro de 2024.

A PF também encontrou informações sobre os metadados do arquivo. A primeira minuta enviada por Viviane a Vorcaro, em 11 de janeiro de 2024, aponta como autor um usuário denominado “Guilherme Benazzi” e registra a última modificação por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, às 16h30 daquele dia.

A versão final da minuta apresenta novamente o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação, dessa vez em 15 de janeiro de 2024, às 23h04, segundo a PF.

O relatório acrescenta que não foram encontrados registros de chamadas entre Vorcaro e o contato salvo como “Vivi Moraes” antes de 11 de janeiro de 2024. Naquele dia, Viviane escreveu: “Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise”.

Em nota, o escritório de Viviane Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento legal para a contratação.

Além disso, o escritório sustenta que os serviços contratados foram efetivamente prestados, que Moraes foi consultado apenas sobre eventuais impedimentos legais e que o ministro nunca julgou no Supremo uma causa envolvendo o Banco Master.

Segundo a banca, Moraes verificou a minuta e concluiu que não havia impedimento para a assinatura do acordo. O escritório afirmou ainda que o ministro nunca julgou no STF uma causa envolvendo o Banco Master e que os serviços previstos no contrato foram efetivamente prestados.

A banca também afirmou anteriormente que o contrato foi suspenso após a liquidação do Master.

O relatório da PF revela ainda a existência de um segundo contrato envolvendo o Barci de Moraes. O documento, datado de 12 de maio de 2025, foi firmado entre o escritório e a Vikings Participações Ltda.

O que diz a PF sobre os cuidados de Vorcaro para pagar escritório?

As conversas incluídas no relatório mostram Vorcaro cobrando atenção aos pagamentos destinados ao escritório.

Em março de 2024, Fábio Faria enviou mensagem ao banqueiro afirmando que “O careca (sic) não pode atrasar”. O diálogo aparece na seção do relatório dedicada às cobranças referentes ao primeiro contrato do Banco Master com o Barci de Moraes.

Em outra conversa, Vorcaro escreveu a um funcionário: “Pague o que contrato 3mm”, segundo reprodução apresentada pela PF. Na sequência, afirmou: “Contrato mais importante que temos” e pediu que o pagamento fosse feito imediatamente.

Poucos minutos depois, o banqueiro reiterou a orientação a outra funcionária. Disse que o pagamento não poderia “atrasar um dia”, pois era “o pgto mais importante que temos”.

Na sequência, escreveu: “Pode pagar sempre, sem nota” e “Do jeito que for”. A funcionária então encaminhou um documento referente a uma transferência de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para o escritório de Viviane de Moraes.

Em outra ocasião, ao tratar da quitação de uma nova parcela prevista no acordo, Vorcaro orientou que o dinheiro não fosse transferido por Pix. “Não é bom”, afirmou.

Os registros reunidos pela PF mostram que Vorcaro acompanhava pessoalmente os pagamentos ao escritório e dava orientações a funcionários sobre a execução das transferências.

O que a PF diz sobre conversas de Vorcaro e Moraes?

O material também contém conversas e outros registros de conversas relacionadas a Vorcaro e Alexandre de Moraes. A PF reconstruiu contatos, encontros e comunicações entre os dois ao analisar os dados extraídos do aparelho do banqueiro.

Segundo a PF, o telefone associado ao contato “Alexandre de Moraes BRASILIA” foi compartilhado com Vorcaro por Fábio Faria, ex-ministro de Comunicações, em 26 de dezembro de 2023. O mesmo número aparecia salvo sob diferentes denominações, como “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”.

O relatório também apresenta registros que, segundo a PF, indicam diversos encontros entre Vorcaro e Moraes ao longo de 2024 e 2025.

Em 15 de novembro de 2024, Vorcaro escreveu à filha que estava “com alexandre moraes (sic)”. Na mesma data, um funcionário em Brasília informou ao banqueiro que o “Min Alexandre chegou”.

Em 19 de março de 2025, Vorcaro afirmou a um diretor do Banco Central que estava “com Moraes aqui”. Horas depois, já na madrugada, disse que Hugo e Ciro haviam chegado para falar com Alexandre. Segundo a PF, o contexto indica que o encontro pode ter durado mais de quatro horas.

Há outros registros. Em 19 de abril, Vorcaro escreveu que estava “indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa”. Dez dias depois, disse que estava com “Alexandre”. Em maio, afirmou que teria outro encontro com ele e que estava marcando um jantar com Fábio Faria e as respectivas mulheres. Em agosto, voltou a dizer que estava com “alexandre”.

A documentação também menciona a organização de eventos em Londres. Em abril de 2024, por exemplo, mensagens analisadas pela PF tratam de convite de Moraes para um evento na capital britânica e de uma reunião marcada “na casa do Alexandre”. Outros diálogos discutem veículos que ficariam à disposição de ministros do STF durante a viagem.

Como Vorcaro interagia com Moraes, segundo a PF

Outro ponto considerado pela PF envolve a forma de comunicação entre Vorcaro e o contato atribuído a Moraes. Os investigadores identificaram um padrão no qual o banqueiro escrevia textos no aplicativo Notas do iPhone, fazia capturas de tela e, segundos depois, enviava mensagens pelo WhatsApp ao número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

A perícia cruzou registros de abertura do aplicativo "Notas", horários dos screenshots, arquivos temporários gerados pelo iPhone, abertura do WhatsApp e logs de envio. O relatório afirma que esse padrão permitiu correlacionar as capturas com mensagens destinadas ao número atribuído ao contato de Moraes.

Entre as notas analisadas está uma de 30 de outubro de 2025 na qual Vorcaro afirma ter recebido “informações informais e em confidencia” de pessoas do Banco Central e diz ser importante “reforçar com Andrei e Paulo” para evitar que alguém “de baixo” fizesse uma “sacanagem”.

A PF ressalva que, naquele contexto, os nomes “Andrei” e “Paulo” “podem indicar”, respectivamente, Andrei Passos, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. O relatório não apresenta essa identificação como conclusiva.

O texto-base também relata conversas diretas entre Vorcaro e Moraes nos dias anteriores à prisão do ex-banqueiro, incluindo questionamentos sobre o avanço da Operação Compliance Zero. O relatório, contudo, não estabelece de forma definitiva que Moraes tenha repassado informações sigilosas da operação a Vorcaro.

A própria PF ressalva que sua análise não pode ser considerada exaustiva e poderá ser alterada com o aprofundamento das investigações.

O documento afirma ainda que, diante das regras específicas aplicáveis a magistrados e integrantes do Ministério Público, não foram realizadas diligências de aprofundamento direcionadas a esses agentes, limitando-se o trabalho à identificação e exposição dos elementos encontrados no material apreendido.

Vorcaro perguntou sobre deixar o país a Moraes, diz PF

No material, agora publicizado, Vorcaro pergunta, em mensagem a Moraes via Whatsapp, em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso pela primeira vez, se tinha de deixar o país.

Reprodução de trecho do relatório da Polícia Federal publicizado pelo ministro André Mendonça (Reprodução/Reprodução)

Acompanhe tudo sobre:Alexandre de MoraesSupremo Tribunal Federal (STF)

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