Augusto Cury: fenômeno de crescimento começa a perder força (Renato Pizzutto/ Band /Flickr)
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Publicado em 1 de setembro de 2026 às 12h26.
Nesta semana, o candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) se descolou de outros candidatos como Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) e despontou como uma possibilidade, ainda incipiente, de terceira via, marcando dois dígitos de intenções de votos em três pesquisas.
No levantamento mais recente, divulgado pelo instituto Real Time Big Data nesta terça-feira, 1º, Cury aparece com 11% em um cenário de primeiro turno, atrás apenas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 38%, e de Flávio Bolsonaro (PL), com 30%. Na questão espontânea, o psiquiatra registra 4%, empatado com Renan Santos (Missão).
O salto também aparece na pesquisa BTG/Nexus, publicada na última segunda-feira, 31. Em uma semana, Cury passou de 2% para 11% das intenções de voto, enquanto Lula caiu de 41% para 39% e Flávio, de 37% para 33%. Segundo a análise do levantamento, a alta do escritor está diretamente relacionada à perda de espaço dos principais candidatos e indecisos. Segundo os números, Cury conquistou o eleitorado conservador não polarizado, que estava votando em Flávio ou Lula porque não via outra opção.
Uma análise da consultoria Eurasia estima em 30% a probabilidade de um candidato que não seja Flávio Bolsonaro chegar ao segundo turno contra Lula.
Cury se soma a Renan Santos, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), podendo fragmentar ainda mais o voto conservador e ameaçar a campanha do PL em direção ao segundo turno.
A consultoria avalia que um candidato alternativo precisaria atingir cerca de 15% em meados de setembro, com Flávio caindo para aproximadamente 25%, para se colocar como voto estratégico contra Lula.
Mas o que explica a alta de Cury?
De acordo com o Instituto Democracia em Xeque, a movimentação nas pesquisas foi acompanhada por uma explosão de repercussão nas redes sociais. Em um levantamento especial, o instituto revelou que as menções ao candidato chegaram a 127.932 entre 21 e 27 de agosto, alta de 1.000% em relação à semana anterior, enquanto o engajamento avançou 1.600%, para 5,9 milhões.
O debate da Band, realizado em 23 de agosto, aparece no levantamento como um dos principais gatilhos para a mudança de patamar. Mas o fenômeno não se resume ao crescimento da exposição: o próprio levantamento mostra que a repercussão nas diferentes plataformas ocorre em direções distintas, deixando os próximos resultados em aberto.
Até 22 de agosto, o nome de Cury circulava nas redes em volume baixo e relativamente estável. No dia 21, foram registradas 3.487 menções e, no dia seguinte, 2.426. O cenário mudou após o debate da Band, em 23 de agosto, quando usou seu tempo de tela para se posicionar contra a polarização e comentar sobre pautas de grande apelo público, como soberania nacional, corrupção e tecnologia.
Segundo o levantamento do Democracia em Xeque, as menções no X saíram de cerca de 100 por hora e chegaram a 5.036 às 21h daquele dia. O pico foi superado nos dias 26 e 27, quando o volume chegou a 8.978 menções por hora.
O efeito do debate também aparece na comparação entre diferentes plataformas. Entre 22 e 27 de agosto, o volume de referências ao candidato no X se multiplicou por 20. No Instagram, o ganho diário de seguidores passou de 1.779 em 23 de agosto para 896.769 em 27 de agosto. Em 13 dias, o perfil de Cury saiu de 8,3 milhões para 10,1 milhões de seguidores.
Apesar do volume elevado de publicações, o levantamento não identificou grandes perfis conduzindo a circulação no X. Em 27 de agosto, foram analisadas 16.983 publicações de 11.322 autores. Cerca de 76% deles publicaram apenas uma vez, o autor mediano tinha 246 seguidores e 96% dos perfis tinham menos de 5 mil seguidores. Apenas 0,2% tinham mais de 100 mil seguidores.
Ao mesmo tempo, a conversa apresentou forte concentração em poucas mensagens. Retuítes representaram 80,9% das publicações analisadas, distribuídos sobre apenas 662 mensagens distintas. As 20 mensagens mais replicadas concentraram 65,6% dos retuítes. Para a pesquisa, esse desenho indica adesão espontânea a formulações prontas, e não uma operação coordenada.
Repercussão do candidato Augusto Cury no X (Reprodução/-)
O que também explica o crescimento é o perfil de quem passou a declarar voto no candidato. Na pesquisa BTG/Nexus, 19% dos eleitores de Cury se classificam como não polarizados, contra 2% na semana anterior. Outros 19% se definem como anti-Lula e anti-Bolsonaro, 26% apontam Flávio Bolsonaro como segunda opção e 14% citam Lula.
Na comparação com a pesquisa anterior do instituto, o candidato do PL perdeu quatro pontos percentuais, enquanto Lula recuou dois. Também houve queda de dois pontos em Zema e nos votos brancos e nulos.
O crescimento de Cury, portanto, ocorre em um cenário de redistribuição de votos entre candidatos e indecisos, especialmente entre eleitores que não se identificam com a polarização entre Lula e Bolsonaro.
A velocidade da alta de Cury nas redes sociais é outro elemento central do fenômeno. O perfil no Instagram ganhou 62.458 seguidores em 24 de agosto, 686.547 no dia seguinte e atingiu o pico em 27 de agosto, com 1.209.891 novos seguidores em 24 horas. A base chegou a mais de 10,8 milhões seguidores em 29 de agosto
O crescimento, porém, não se sustentou no mesmo ritmo. O ganho caiu para 314.609 seguidores em 28 de agosto e para 68.763 no dia seguinte. Em 30 de agosto, o perfil perdeu 19.128 seguidores e, em 31 de agosto, outros 10.158.
Segundo o Democracia em Xeque, foi a primeira vez desde 23 de agosto que os indicadores de seguidores no Instagram e de menções nas redes recuaram simultaneamente.
Números de Augusto Cury no Instagram (Instituto Democracia em Xeque/Reprodução)
O fenômeno também passou a ser acompanhado por questionamentos sobre a natureza do crescimento nas redes. No X, a repercussão é majoritariamente negativa: em uma amostra de 16.983 publicações de 27 de agosto, 44,7% foram classificadas como deboche e desqualificação, enquanto apenas 0,3% representavam apoio inequívoco.
A suspeita sobre uma possível mobilização artificial ganhou espaço após uma apuração da GloboNews mencionada pelo Instituto Democracia em Xeque. A reportagem apontou a possibilidade de contratação não declarada de cerca de 200 influenciadores, com públicos entre 20 mil e 50 mil seguidores, que passaram a declarar voto em Cury de maneira simultânea e padronizada.
No levantamento do Instituto, que analisou 16.983 publicações no último dia 27, influenciadores aparecem em 1.736 publicações, robôs em 487 e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 295. O documento ressalta que a possibilidade de uma operação coordenada foi levantada por terceiros e que a onda inicialmente analisada no X apresentava características de base orgânica.
A hipótese também foi associada ao impulsionamento gerado por Pablo Marçal (PRTB), que está inelegível. Marçal aparece em 204 publicações, enquanto o próprio Cury agradeceu publicamente uma mensagem do ex-candidato.
Além da discussão sobre as redes, a candidatura passou a enfrentar questionamentos sobre a credencial profissional de Cury. O levantamento registra críticas à ausência de doutorado e à chamada “síndrome do pensamento acelerado”, formulada pelo escritor e sem reconhecimento pela literatura médica. Depois da entrevista ao Jornal Nacional, no sábado, 29, o tema ganhou força nas redes, ao lado de críticas ao desempenho do candidato.
O conjunto dos dados indica que a alta de Cury foi rápida e teve forte impacto nas redes, mas ainda não é possível tratá-la como uma tendência consolidada. Segundo a Nexus, apenas 59% dos eleitores que declararam voto no escritor estão decididos, enquanto 39% ainda admitem mudar de ideia, variável bem menor entre os eleitores de Lula e Flávio Bolsonaro.
Na pesquisa do Democracia em Xeque, a reversão do crescimento no Instagram e a queda de 39,2% nas menções nos últimos dias aparecem como os primeiros sinais de perda de fôlego do fenômeno. Na avaliação do Eurasia Group, Cury precisa provar que consegue sustentar o ímpeto da última semana.
O crescimento de Augusto Cury nas pesquisas também é orientado por um crescimento de curiosidade em torno de sua figura pessoal, profissional e política.
Confira a seguir algumas das perguntas e respostas mais buscadas sobre o candidato no Google.
Qual o partido de Cury?
Cury é filiado ao Avante desde abril deste ano, para concorrer a um cargo eletivo pela primeira vez.
O que muitos não sabem é que o candidato foi filiado ao Partido Verde (PV) em 2009, na mesma época em que Marina Silva (Rede) entrou na legenda. Ele chegou a colaborar com propostas de educação para a pré-campanha de Marina e saiu do partido no ano seguinte.
Qual o patrimônio que Cury declarou ao TSE?
O total em bens declarado por Augusto Cury no TSE é de R$ 242.281.162,52. Este valor é dividido em pelo menos 18 propriedades rurais espalhadas pelo país, terrenos e imóveis, participações societárias em empresas, investimentos e aplicações dentro e fora do país.
Cury se define de direita ou esquerda?
Em público, Cury não se define nem de direita nem de esquerda, portando-se como um candidato de centro. A frase que guia o posicionamento de sua campanha é “mente capitalista e coração social”.
No entanto, sua visão econômica prática pertence ao campo liberal (de direita). O candidato defende conceitos como a meritocracia e valoriza o empreendedorismo. Preza por um Estado mais enxuto e impostos mais baixos. Uma de suas bandeiras é a defesa da liberdade de expressão e da família.
Ele chegou a declarar em entrevista que, se eleito, pretende avaliar a prisão de Jair Bolsonaro e consideraria a possibilidade de anistiar os condenados pelos atos de 8 de janeiro.
Qual a idade de Augusto Cury?
Augusto Cury tem 67 anos de idade. Ele nasceu em 2 de outubro de 1958.
Quais as propostas de Cury?
Em seu livro de propostas intitulado ‘O Brasil dos nossos sonhos’, Cury foca em reformas políticas, como a transição para um modelo de semipresidencialismo, incentivo ao empreendedorismo e foco em saúde mental como parte da solução para problemas como a misoginia e o desinteresse educacional.
Algumas de suas propostas também se tornaram polêmicas, como seu plano para a saúde, de transformar o Brasil “na maior telemedicina do mundo”.