Messias: decisão do Senado deve ter repercussão na eleição parlamentar (Andressa Anholete/Agência Senado/Flickr)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 30 de abril de 2026 às 09h54.
A rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado para a vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF) amplia a percepção de crise institucional e reforça o papel do Legislativo no centro das decisões políticas, segundo análise de Cila Schulman, CEO do instituto Ideia.
“O que mais chama atenção é a insegurança que essa crise institucional cria. Como é que o governo vai amanhecer hoje com essa situação com o Senado e o Davi Alcolumbre", afirma.
A derrota histórica do governo Lula é creditada ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), que defendia a indicação de Rodrigo Pacheco (PSD) e teria articulado para a rejeição do AGU. Messias foi o primeiro indicado rejeitado pelo Congresso em mais de 132 anos.
Schulman afirma que um dos possíveis reflexos dessa situação é a dificuldade do governo para aprovar pautas em ano eleitoral, como o fim da escala 6x1.
“Tem muitos projetos que precisam ser aprovados, projetos importantes para a reeleição. Não sabemos como é que vai se dar o andamento das coisas com um rompimento a essa altura", diz.
Na avaliação da presidente do Ideia, o episódio reforça uma tendência já em curso: o deslocamento do centro de poder para o Legislativo.
“A recusa do Messias mostra a mudança do centro do poder para o Legislativo. Isso a gente já vinha apontando e essa é mais uma prova”, diz.
Esse movimento, segundo Schulman, se reflete diretamente na dinâmica eleitoral e nas estratégias partidárias.
Ela observa uma perda relativa de protagonismo do Executivo, enquanto o Congresso ganha relevância na alocação de recursos e nas decisões políticas.
"Mostra a desimportância que vai se criando na disputa pelo Executivo. Vemos a formação das etapas para a eleição. Poucos candidatos a presidência e os partidos optando muito mais por ter força no Congresso, que é onde as decisões, os recursos, têm se concentrado", afirma.
Além do impacto institucional, a rejeição também dialoga com a percepção pública sobre o papel do Senado, especialmente na relação com o Supremo Tribunal Federal (STF).
Para Schulman, o episódio reforça no eleitorado a ideia de que o Senado detém poder decisório relevante sobre o Judiciário.
“Isso também, do ponto de vista de opinião pública, é mais um ingrediente na questão do STF com o Senado. Da população ter esse entendimento de quem decide, quem vai e quem fica no STF é o Senado”, diz.
Na prática, a analista vê que essa percepção deve influenciar o comportamento eleitoral.
“Isso, sem dúvida, terá repercussão na eleição para senador deste ano, visto que a reputação do STF está comprometida”[/grifar], afirma.
A CEO do Ideia ressalta ainda que, embora o eleitor tradicionalmente tenha baixo conhecimento sobre as atribuições do cargo, episódios como esse ajudam a redefinir prioridades na escolha dos candidatos.
“O eleitor não sabe o que um senador faz. Quando fazemos a pesquisa, vemos que ele não sabe que precisa votar em dois nomes nesse ano. Mas o eleitor já sabe que um senador tem o poder de fazer o impeachment de um ministro do STF, e tem o poder também, como se viu hoje, de não aprovar uma indicação do presidente”, diz.