Vânia Neves, conselheira de administração do Grupo Ultra
Redatora
Publicado em 12 de junho de 2026 às 19h00.
Vânia Neves aprendeu cedo uma frase que atravessaria sua carreira: “Você quer chegar? Se prepare”. A orientação veio da mãe, em uma família humilde, e ganhou novos sentidos ao longo de uma trajetória construída entre liderança, tecnologia, inovação, transformação digital e, mais recentemente, conselhos de administração.
Hoje, Vânia atua como conselheira de administração do Grupo Ultra e do Pacto Contra a Fome, além de Co-Chair do Women Corporate Directors, reúne uma experiência que passa pelo conselho de administração do Grupo Carrefour, conselho consultivo da Rede Mulheres Empreendedoras e por empresas como Vale, GSK e Intelig Telecom. Ex-CIO e ex-CTO, ela levou para os conselhos uma visão formada em décadas de atuação executiva global, com foco em estratégia tecnológica, governança de dados, inovação, cibersegurança, transformação digital e inteligência artificial
Mas, antes de migrar da cadeira executiva para a de conselheira, percebeu que a bagagem acumulada precisava ser ampliada. Não bastava dominar tecnologia — fez vários cursos de governança, mas ainda era necessário compreender, com profundidade, temas de finanças estratégia de negócios, aspectos comportamentais e dinâmica de decisão colegiada.
Foi nesse contexto que Vânia decidiu complementar sua jornada de preparação para transição de carreira ao cursar o Advanced Boardroom Program for Women (ABP-W), da Saint Paul Escola de Negócios, programa voltado à formação de mulheres conselheiras.
A transição para conselhos de administração costuma exigir mais do que reputação e experiência.
Vânia já havia participado de comitês executivos em grandes empresas, mas reconheceu que o conselho exige uma lente diferente. O olhar deixa de ser apenas funcional — no caso dela, tecnologia, inovação e transformação digital — exige a capacidade de ampliar a perspectiva, migrando da responsabilidade pela execução para a responsabilidade do colegiado pelo futuro da organização.
“Eu queria trazer para minha caixa de ferramentas uma visão mais abrangente de negócios, especialmente sob o ponto de vista estratégico, financeiro, e de criação de valor para a companhia”, afirmou.
Segundo ela, a formação ajudou a transformar experiência em repertório de governança. Em vez de entrar em discussões apenas a partir de sua especialidade técnica, Vânia passou a se sentir mais preparada para analisar empresas, avaliar riscos e apoiar decisões colegiadas com mais segurança.
Vânia citou uma ideia defendida por José Cláudio Securato, CEO da Saint Paul: a necessidade de o conselheiro desenvolver fluência para entender o que está acontecendo no negócio, na perspectiva de governança, finanças e riscos. Essa fluência, para ela, não se limita ao momento em que alguém já ocupa uma cadeira no conselho. Começa antes. Envolve a capacidade de avaliar uma empresa, compreender seus desafios, analisar sua situação financeira e decidir se faz sentido assumir determinada posição.
“É importante você conseguir analisar qual o cenário da empresa para tomar suas decisões”, disse.
No conselho, esse preparo se torna ainda mais relevante. As decisões são tomadas em colegiado, muitas vezes diante de temas complexos e interdependentes.
Para Vânia, a capacitação permitiu contribuir com mais propriedade nos conselhos, somando novas perspectivas à sua sólida experiência acumulada em tecnologia.
O ABP-W, da Saint Paul, integra os High Impact Programs da escola, voltados a profissionais em posições estratégicas que buscam aprofundar sua capacidade de análise e tomada de decisão em contextos complexos.
O programa é direcionado à formação de mulheres conselheiras e reúne conteúdos voltados aos desafios gerenciais, às tecnologias emergentes e à atuação em ambientes de alta liderança. A proposta combina desenvolvimento técnico, visão de negócios e networking qualificado, com uma comunidade ativa de mulheres em posições de influência.
Vânia Neves, conselheira de administração do Grupo Ultra
Para Vânia, esse ambiente foi parte central da experiência. A turma reunia profissionais com diferentes trajetórias, competências e repertórios, o que tornou as discussões mais ricas e próximas dos dilemas reais enfrentados por empresas e conselhos.
Além das aulas no Brasil, Vânia viveu duas experiências internacionais durante sua jornada de formação. Em 2023, participou de um módulo na China, na Cheung Kong Graduate School of Business. Embora seu módulo original fosse na Austrália, decidiu antecipar a vivência chinesa, pelo viés da tecnologia e ao saber que aquela oportunidade não se repetiria todos os anos.
Foram 15 dias de imersão em um país que, segundo ela, se tornou essencial para qualquer liderança entender. A experiência combinou aprendizado acadêmico, contato cultural e trocas com executivos de diferentes áreas.
Em 2025, Vânia realizou também o módulo internacional na Austrália, com sua turma. As duas vivências, segundo ela, foram complementares à sala de aula As visitas e debates sobre a governança e impactos da inteligência artificial, negócios globais, transformação digital e liderança ampliaram seu repertório para apoiar discussões estratégicas atuais nos conselhos sobre evolução tecnológica, riscos e criação de valor sustentável.
Aos olhos de Vânia, o aprendizado contínuo não é um discurso abstrato. É uma prática de carreira.
Mesmo com uma trajetória consolidada, ela decidiu voltar à sala de aula, reorganizar a agenda e viajar mensalmente do Rio de Janeiro para São Paulo para acompanhar o programa. A rotina exigiu disciplina, negociação de compensação com a empresa, mas o resultado, segundo ela, valeu o esforço.
“Foi a melhor escolha que eu fiz em termos de capacitação para a jornada de governança em conselhos”, disse.
A fala se conecta a uma dimensão mais ampla de sua trajetória. Vânia também é fundadora do LÍDERNEGRA, programa de mentoria voltado ao desenvolvimento de mulheres negras em posições de liderança. Em suas publicações, ela associa educação, preparo e representatividade a uma ideia central: ampliar o acesso de mais profissionais aos espaços de decisão.
Para Vânia, a formação não terminou com o certificado. A rede criada ao longo do curso segue ativa, tanto entre colegas de turma quanto entre professores e profissionais conhecidos nas viagens e eventos.
Essa continuidade é parte do valor da experiência. O aprendizado, em sua visão, não acontece apenas na grade curricular ou nas aulas formais, mas também nas conversas, nos casos compartilhados e nas relações que permanecem.
“É uma rede que não se dissolve”, afirmou.
Em uma carreira marcada por tecnologia, inovação e governança, Vânia Neves resume sua jornada com uma ideia simples — e exigente: liderança e preparo. Foi o que sustentou sua ascensão como executiva, orientou sua chegada aos conselhos e segue guiando sua defesa do aprendizado contínuo para geração de impacto na sociedade. "Afinal, por que estamos aqui?”, ela finaliza.