Repórter
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 20h27.
Última atualização em 23 de janeiro de 2026 às 20h29.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou, nesta semana, a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um órgão paralelo à Organização das Nações Unidas (ONU) voltado à resolução de conflitos internacionais. Chamada de "Conselho da Paz", a iniciativa foi apresentada por Trump em recentes discursos de campanha.
Ao comentar a proposta, Lula afirmou que Trump deseja "ser dono da ONU", sugerindo que a criação do novo conselho representaria um esforço para esvaziar o papel da organização multilateral.
A declaração foi feita durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizado em Salvador.
"Vocês estão acompanhando e percebendo que nós estamos vivendo um momento muito crítico na política mundial. O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada. E ao invés de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que eu fui presidente (pela primeira vez) em 2003, reforma da ONU com a entrada de novos países (no Conselho de Segurança), com a entrada de México, do Brasil, de países africanos, o que está acontecendo? O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono da ONU", declarou Lula.
A ideia de um conselho alternativo à ONU tem sido mencionada por Trump como parte de sua plataforma de política externa. Ele alega que a atual estrutura das Nações Unidas é ineficaz na mediação de conflitos e na manutenção da paz global.
No evento, Lula também afirmou que tem conversado com líderes de outros países em um esforço para fortalecer o multilateralismo. Recentemente, ele teve conversas telefônicas com o presidente russo Vladimir Putin, o líder chinês Xi Jinping e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.
"Estou há uma semana telefonando para todos os países do mundo. Já falei com muitos países. Já falei com as figuras mais importantes. Já falei com o Putin (líder da Rússia), com o Xi Jinping (da China), já falei com o primeiro-ministro da Índia (Narendra Modi), com o presidente da Hungria e com muitos outros presidentes, com a Claudia (Sheinbaum), do México, tentando ver se é possível a gente encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado no chão e que predomine a força da arma e da intolerância de qualquer país do mundo", detalhou.
Durante uma de suas falas, Lula mencionou a participação do presidente americano Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial, ao destacar a ênfase dada ao poderio militar dos Estados Unidos.
Ao comentar a situação brasileira, afirmou que as Forças Armadas enfrentam limitações orçamentárias e declarou desejar uma atuação baseada na "guerra com o poder do convencimento".
"Toda vez que o presidente Trump fala na televisão, ele fala: 'eu tenho o exército mais forte do mundo, tenho os melhores aviões do mundo, os navios mais fortes do mundo'. Ele agora falou em Davos (cidade suíça onde é realizado o Fórum Econômico Mundial): 'eu tenho armas que vocês nem sabem o poder'. Eu fico olhando e eu falo: 'eu não tenho nada'. Tenho um Exército, uma Marinha, Aeronáutica que muitas vezes não têm dinheiro nem para comprar bala para treinar. Então, eu não quero fazer guerra armada com os Estados Unidos. Não quero fazer guerra armada com a China. Não quero fazer guerra armada com a Rússia. Não quero nem com o Uruguai e com a Bolívia. Eu quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, com narrativas, mostrando que a democracia é imbatível".
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta semana o Conselho da Paz, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
A iniciativa surge no contexto das negociações entre Israel e o Hamas, envolvendo a Faixa de Gaza, mas levanta preocupações entre autoridades e analistas pela possibilidade de atuação além do Oriente Médio. A proposta tem sido vista como uma tentativa de criar um mecanismo paralelo ao sistema das Nações Unidas.
Apesar do movimento de Trump apontar para uma reconfiguração da ordem internacional, países historicamente aliados dos Estados Unidos, como Reino Unido e França, demonstraram resistência à adesão. Ambos rejeitaram o convite, sobretudo após a inclusão de líderes com perfil autoritário, como o presidente da Rússia, Vladimir Putin. O Kremlin, por sua vez, ainda avalia sua participação e condiciona o ingresso ao descongelamento de ativos russos bloqueados nos Estados Unidos em razão da guerra na Ucrânia.