Fachada da White Martins em Jacareí (SP): nova unidade terá cinco vezes mais capacidade de produção que a primeira planta de hidrogênio verde da companhia, que entrou em operação em dezembro de 2022, em Pernambuco. Juntas, as duas têm mais de 1 mil toneladas de capacidade produtiva por ano. (DIVULGAÇÃO)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 11h28.
Mesmo em um ambiente de juros elevados, a White Martins, companhia do setor de gases industriais e medicinais, mantém uma visão otimista para o Brasil — e também para a América do Sul. No radar para o próximo ano estão investimentos da ordem de R$ 1 bilhão, além de um portfólio com mais de R$ 1,5 bilhão em oportunidades de curto e médio prazos.
A empresa opera atualmente mais de 70 plantas de produção no Brasil e mais de 120 unidades de negócios. Produz gases do ar — como oxigênio, nitrogênio e argônio — além de CO₂, acetileno, gás natural liquefeito (GNL) e carbureto de cálcio.
“Somos uma empresa muito robusta. Não precisamos nos endividar para investir. Pelo contrário, queremos crescer com a indústria brasileira”, afirma Gilney Bastos, CEO da White Martins.
A previsão é de que a companhia registre um faturamento anual superior a R$ 8 bilhões no Brasil neste ano, e cerca de US$ 2 bilhões na América do Sul — região que inclui países como Argentina, Chile, Peru, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O mercado brasileiro responde por aproximadamente 70% da receita regional.
Nos últimos anos, a empresa inaugurou diversas unidades industriais voltadas a setores como siderurgia, mineração, papel e celulose, vidro e petroquímica.
Um dos principais destaques é uma nova planta em Campo Bom (RS), inaugurada em outubro, que recebeu investimentos de US$ 40 milhões, o equivalente a mais de R$ 200 milhões.
A unidade terá capacidade para produzir cerca de 250 toneladas por dia de oxigênio, nitrogênio e argônio, atendendo tanto uma indústria de vidro quanto o mercado regional.
“Essa é uma planta emblemática para nós. É a primeira com esse novo modelo tecnológico após a fusão entre a Praxair e a Linde, com maior eficiência e menor custo de produção”, diz o executivo.
Em 2019, a Praxair — que já controlava a White Martins no Brasil — e a alemã Linde concluíram uma fusão global, dando origem à Linde plc, uma das maiores empresas de gases industriais do mundo. A operação foi aprovada por órgãos reguladores internacionais, incluindo o Cade no Brasil, com restrições.
Como resultado, a nova holding global passou a controlar oficialmente a White Martins, que hoje atua como a operação brasileira da Linde, com foco em inovação e hidrogênio verde.
A estratégia da companhia — e que “tem funcionado”, segundo o CEO — passa por estar fisicamente próxima dos clientes, reduzindo custos logísticos e aumentando a confiabilidade do fornecimento.
“Nosso produto é uma commodity de baixo valor unitário. Quanto mais perto do cliente, mais competitivo você é. Além disso, gases industriais exigem altíssima confiabilidade”, afirma Bastos, citando hospitais, siderúrgicas e refinarias como exemplos de operações críticas.
A empresa pretende expandir sua atuação na produção de hidrogênio verde, um setor que ainda carece de regulamentação no Brasil.
Ainda assim, a companhia inaugurou, no início deste mês, sua segunda planta de hidrogênio verde no país, localizada em Jacareí (SP). A primeira unidade da empresa, inaugurada em 2022, fica em Pernambuco. Juntas, as duas plantas somam mais de 1.000 toneladas de capacidade produtiva anual.
A unidade de Jacareí tem capacidade para produzir 800 toneladas por ano, das quais 20% abastecerão a fabricante de vidros Cebrace, no interior paulista, e 80% serão destinadas a clientes dos setores metalúrgico, alimentício e químico da região Sudeste.
O CEO afirma que a planta é totalmente alimentada por energia renovável e que o hidrogênio produzido passará por um processo de certificação alinhado a normas internacionais — a companhia não divulga o valor do investimento.
“O hidrogênio verde é uma realidade para nós. Só produzimos porque o projeto é economicamente viável, tanto para o cliente base quanto para o mercado”, afirma Bastos.
Apesar do avanço em soluções energéticas, o CEO diz que o custo do gás natural no Brasil compromete a competitividade da indústria nacional.
“Na média, o gás natural aqui custa entre US$ 13 e US$ 14 por milhão de BTU (British Thermal Units, unidade de medida de energia). Nos Estados Unidos, custa entre US$ 2 e US$ 3. Na Argentina, custa US$ 1. Assim, como competir?”, diz.
Para o executivo, o país acaba perdendo valor ao importar produtos que poderiam ser fabricados internamente.
“Temos capacidade instalada para produzir plásticos, químicos e termoplásticos, mas não produzimos porque a matéria-prima é cara demais. O Brasil ganha no óleo e perde na importação de produtos industriais”, afirma.
Para o próximo ano, o plano da White Martins é manter o ritmo de crescimento. A aposta, segundo Bastos, é acompanhar a expansão industrial e avançar em projetos ligados à transição energética. “A largada já foi dada. A nossa transição está andando", diz.