Gasoduto explode e crise escala na Europa: às vésperas da eleição, o que esperar para o Brasil?

Com novos aumentos do preço do gás e instabilidade global crescente, país pode estar mais exposto a risco caso haja nova crise hídrica; Petrobras adia entrega de gasoduto para 2024
Explosão de gasoduto no mar Báltico: escalada de tensão (Danish Defence/Anadolu Agency via Getty Images/Getty Images)
Explosão de gasoduto no mar Báltico: escalada de tensão (Danish Defence/Anadolu Agency via Getty Images/Getty Images)
Carla Aranha
Carla Aranha

Publicado em 29/09/2022 às 12:56.

Última atualização em 29/09/2022 às 17:11.

Nesta terça, dia 27, depois que enormes piscinas borbulhantes de 700 metros de largura emergiram no mar Báltico devido à explosão de dois gasodutos russos, os preços do gás natural dispararam (de novo), com aumentos de até 14%. O setor privado tremeu nas bases. Com altas de mais de 100% no custo do gás desde o início da guerra  na Ucrânia, várias indústrias têm anunciado a redução ou paralisação da produção. A Nyrstar, gigante do setor de zinco, informou que deverá suspender as atividades na Holanda. Na Alemanha, a Speira, fabricante de alumínio, deverá cortar pela metade a produção. Ao mesmo tempo, as perspectivas para o inverno, quando há um maior consumo de gás, são sombrias -- e as tensões seguem em alta voltagem.

Sem os gasodutos, que ficaram inoperantes depois do ataque desta terça, qualquer possibilidade de retomada do fornecimento do gás russo para a Europa foi riscada do mapa. “Mesmo que a Alemanha quisesse retomar as negociações com a Rússia para o suprimento de gás com a proximidade do inverno, isso se tornou impossível porque a infraestrutura dos gasodutos foi simplesmente destruída”, avalia Rivaldo Moreira Neto, sócio da consultoria Gas Energy. Em um cenário de recordes de preços do gás natural e escassez do insumo, o quadro é de preocupação – com eventuais repercussões para o Brasil.

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"Uma coisa parece certa, o pior está por vir”, diz Neto. Na Europa, uma disputa entre a estatal russa Gazprom e a ucraniana Naftogaz sobre o pagamento de impostos pelo trânsito de gás russo exportado pela Ucrânia vem colocando mais lenha na fogueira. “Caso a questão não se resolva, deve colocar em risco a única rota que restava para abastecer a Europa de gás vindo da Rússia”, afirma Laura Page, analista sênior de gás natural da consultoria Kpler. De todo o insumo consumido na Alemanha, 60% era fornecido pela Rússia. Outros países, como a Hungria e Búlgaria, dependiam ainda mais do gás russo.

Brasil pode ser afetado?

No Brasil, os impactos também poderão ser sentidos. “Estamos expostos na medida em que dependemos de um bom regime de chuvas para não precisar importar gás natural para gerar energia”, diz Neto. Este ano, o país provavelmente poderá respirar mais tranquilo – com os reservatórios cheios, não deverá haver necessidade de adquirir gás natural, diferentemente do que aconteceu no passado.

Em 2021, com a crise hídrica, foi preciso acionar as usinas térmicas, que produzem energia a um custo mais alto dos que as hidrelétricas. Na busca por matéria-prima para a geração de energia, o Brasil se tornou um dos principais importadores de gás natural no ano passado, de acordo com a Goldman Sachs. Apenas entre janeiro e setembro de 2021, o país comprou 5,1 milhões de toneladas de gás no mercado internacional, segundo dados da Kpler. Durante todo o ano de 2020, as importações somaram 2,4 milhões de toneladas. Resulado: a inflação do setor elétrico chegou a 21,2%, diante de 9,1% em 2020 – o IPCA fechou 2021 em 10,6%, o maior índice desde 2015, segundo o IBGE.

Se não chover, isso pode representar um risco para o país em um momento no qual os preços internacionais do gás natural estão muito altos e é difícil prever até quanto podem chegar”, diz Neto. “O desenvolvimento do mercado de gás nacional é primordial para escaparmos da armadilha de termos que nos submeter à importação do insumo”.

Uma das apostas do mercado é o gasoduto Rota 3, da Petrobras, cujo início das operações estava previsto para 2020. A construção, no entanto, foi adiada. Nesta segunda, dia 26, a Petrobras informou que a infraestrutura deverá entrar em operação somente em 2024. O motivo, de acordo com a empresa, é um novo atraso na execução da obra. O contrato com a empresa encarregada da construção da unidade de processamento de gás natural do complexo, a SPE Keriu-Método, foi suspenso neste mês devido a disputas sobre valores de aditivos do serviço. A Petrobras irá buscar uma nova construtora, segundo informações da empresa.

O gasoduto deverá processar e escoar até 20 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia produzidos na região do pré-sal da Bacia de Santos, em São Paulo. O Rota 3 deverá ter cerca de 355 quilômetros, sendo a maior parte por via marítima até o polo petroquímico Gaslub, em Itaboraí, no Rio de Janeiro. "É preciso investir em gasodutos", diz Neto.

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