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João Bortone, diretor-geral da Intel para a América Latina (Intel/Divulgação)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 11h59.
Em tempos de Redata, toda empresa ligada a data centers quer opinar sobre o quanto pode ganhar com a lei. O projeto, que deve ser votado nesta terça-feira, 1º, no Senado, virou o principal termômetro do setor de tecnologia — mas a Intel prefere não arriscar números. Pelo menos por enquanto.
Em entrevista à EXAME, João Bortone, diretor-geral da empresa na América Latina, evita qualquer estimativa de impacto direto do regime de incentivos tributários sobre o mercado brasileiro, resumindo o que espera da aprovação em uma palavra: confiança.
"O efeito mais importante é estrutural: criar confiança para que o Brasil atraia os próximos ciclos de investimento em infraestrutura digital", diz Bortone.
Diferentemente da Nvidia, associada a GPUs de treinamento de inteligência artificial (IA), a Intel também vende processadores usados em inferência — a etapa de rodar um modelo já treinado.
Bortone recusa a ideia de que o Redata deva beneficiar mais um tipo de chip do que outro. "O futuro da IA será heterogêneo: valor real virá da combinação certa de arquiteturas para cada aplicação, e não de uma única tecnologia isolada", afirma.
Como fornecedora de montadoras de servidores no Brasil, a Intel também sente indiretamente a carga tributária que hoje chega a 35% sobre equipamentos de data center, segundo a Brasscom — contra 13% no Chile.
"Quando o custo total é mais previsível, empresas conseguem modernizar com mais segurança e acelerar a adoção de tecnologias", diz.
A empresa também vê espaço para ampliar a montagem local de servidores no país, via Processo Produtivo Básico (PPB) — separando claramente essa oportunidade da fabricação de semicondutores propriamente dita, negócio de escala muito maior.
O Redata também não cobre o ICMS, imposto estadual que responde por dois terços da carga tributária sobre equipamentos de data center, segundo a Brasscom.
Bortone é conciliador ao tratar da lacuna. "Há oportunidade de fortalecer a coordenação entre políticas federais e estaduais, simplificar o ambiente para investimentos e dar mais previsibilidade ao setor", afirma.
Para ele, a agenda tributária sozinha não basta para o Brasil ganhar competitividade, mesmo com a lei aprovada — ela "ganha força quando vem acompanhada de energia disponível, conectividade, licenciamento eficiente, segurança jurídica, mão de obra qualificada e planejamento de longo prazo", reconhecendo gargalos não tributários que seguem no radar do setor.
Ainda assim, a Intel aposta que o Brasil tem trunfos difíceis de replicar frente a outros mercados emergentes, como Índia e México.