Repórter
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 12h15.
Existe um lugar na Terra tão árido que algumas de suas estações meteorológicas nunca registraram uma gota de chuva. Pois em agosto, esse mesmo lugar — o Deserto do Atacama, no norte do Chile — apareceu coberto de neve em imagens de satélite, surpreendendo cientistas e reacendendo uma pergunta curiosa: como o ambiente mais seco do planeta consegue nevar?
A resposta está em duas tempestades de inverno que atravessaram a região em agosto, transformando temporariamente uma paisagem de dunas e sal em um cenário quase polar.
Imagens de satélite da Nasa mostram o avanço da neve sobre o planalto de Chajnantor, no norte do país, após duas tempestades de inverno registradas em agosto. (Nasa/Divulgação)
O Atacama é conhecido por sua aridez extrema: em certos trechos, a umidade do ar é tão baixa que a Nasa já usou a região como referência para simular as condições de Marte. É justamente por isso que qualquer precipitação por ali chama atenção — e neve, então, é motivo de manchete.
Segundo um comunicado divulgado pela agência espacial americana, satélites captaram o fenômeno em tempo real. As imagens dos satélites Landsat 8 e 9, feitas nos dias 6 e 14 de agosto, mostram a neve cobrindo o planalto de Chajnantor, uma área de altitude elevada dentro do complexo vulcânico Altiplano-Puna.
Não é uma região qualquer: é ali que fica o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), um dos observatórios astronômicos mais importantes do mundo. A combinação de neve pesada com ventos fortes chegou a obrigar a suspensão temporária das operações, com as antenas colocadas em modo de proteção para evitar danos.
Se a primeira leva de neve já era incomum, a segunda tempestade — registrada na segunda metade de agosto — ampliou ainda mais a área afetada. Uma imagem do satélite Terra, captada em 19 de agosto, mostra uma extensa faixa branca descendo dos Andes e avançando por uma das regiões mais secas do mundo até quase alcançar o litoral do Pacífico, ao sul da cidade de Antofagasta.
Nas partes mais baixas, o fenômeno não veio como neve, mas como chuva — e em volumes que, para os padrões do Atacama, beiram o absurdo. Na cidade litorânea de Taltal, por exemplo, choveu quase 40 milímetros em apenas três dias. Para comparação, isso equivale a cerca de dez vezes a média de chuva que a cidade costuma registrar em um ano inteiro.
De acordo com René Garreaud, cientista atmosférico da Universidade do Chile, eventos dessa magnitude não seguem um calendário previsível: podem acontecer algumas vezes por década ou simplesmente não ocorrer por dez anos seguidos.
O gatilho, segundo ele, costuma ser a chegada de sistemas de baixa pressão que se desprendem da corrente de jato e avançam ocasionalmente sobre o norte do Chile. Mas, no caso de agosto, havia um ingrediente extra: o sistema estava ligado a uma área de baixa pressão excepcionalmente ampla, que cobria boa parte do Hemisfério Sul.
Some a isso a umidade vinda do Oceano Pacífico, que alimentou o sistema e ajudou a espalhar a precipitação por uma faixa incomumente extensa — do oceano à costa, passando pelo interior do deserto até a Cordilheira dos Andes.
A quantidade de água que caiu sobre uma região historicamente seca teve um efeito colateral sério: enchentes repentinas e deslizamentos de terra em diversos pontos do norte chileno. De acordo com o Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (Senapred), milhares de pessoas foram afetadas e centenas de imóveis sofreram danos significativos.
Garreaud também aponta um pano de fundo climático relevante: o fortalecimento do El Niño. O fenômeno altera os padrões de circulação atmosférica sobre o Pacífico e tende a deixar o inverno mais úmido do que o normal no centro-norte do Chile, abrindo espaço para que tempestades cheguem a áreas que, na maior parte do tempo, permanecem extremamente secas.
Nevar no Atacama não é exatamente inédito: a região já teve episódios parecidos em anos como 2011 e 2025. O que tornou o evento de agosto de 2026 diferente, segundo a Nasa, foi a extensão da cobertura de neve, que avançou muito mais perto do litoral do Pacífico do que costuma acontecer — um lembrete de como até os lugares mais extremos do planeta podem, ocasionalmente, surpreender.