O presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sessão da promulgação da escala 6x1 no Congresso (Ivan Martinez-Vargas/EXAME)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 16 de outubro de 2026 às 10h25.
Última atualização em 16 de outubro de 2026 às 12h11.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a redução da jornada de trabalho e o fim da chamada escala 6x1 nesta sexta-feira, 16, durante a cerimônia do Congresso que promulgou, nesta sexta-feira, 16, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que implementa a jornada de 40 horas semanais e a escala 5x2 no país. No mesmo evento, foi promulgada também a PEC que concede aposentadoria especial a agentes de saúde.
Por serem emendas à Constituição, os textos não precisam de sanção presidencial, mas Lula foi convidado e compareceu à sessão, que teve tom comemorativo devido à vitória do governo na articulação para a aprovação da redução da jornada e da escala de trabalho no país.
O fim da escala 6x1 é uma das principais bandeiras da campanha de reeleição do presidente Lula. O texto foi aprovado na última quarta-feira pelo Senado, por 75 votos a 1, em dois turnos. Somente o ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS) votou contra a medida.
"Ninguém quer que empresa quebre, mas também ninguém quer que um trabalhador morra por falta de descanso", disse Lula em seu discurso.
O presidente rebateu críticas à mudança da escala de trabalho e comparou as posições contrárias à PEC à oposição, no passado, a benefícios como as férias de 30 dias e ao 13º salário.
"Não tem uma conquista do povo trabalhador que não apareça aquele dizendo: 'olha, isso vai ser um atraso para o país. Isso vai quebrar as empresas, isso vai quebrar a economia, isso não pode dar certo'. Isso é histórico, crônico, já faz parte da literatura política desse país", disse Lula.
Em seu discurso, Lula ironizou a crise que teve no relacionamento com Alcolumbre, desatada em maio por ocasião da rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, pelo Senado.
"Eu queria dizer ao companheiro Alcolumbre, presidente do Congresso Nacional, e ao companheiro Hugo Motta: o dia de hoje é um dia que mostra que vale a pena a democracia. Outro dia parecia que eu e você éramos dois inimigos. Outro dia, de vez em quando, sai uma futrica colocando a inimizade entre o presidente da República, o deputado, o senador. Isso é uma bobagem. Quando a gente ganha as eleições, a gente tem que governar. E, quando a gente vai governar, a gente governa com as instituições existentes. Não fui eu que elegi a Câmara. Não fui eu que elegi o Senado, o povo que elegeu", afirmou Lula.
Após a reaproximação com Lula, Alcolumbre tem atuado em prol da agenda legislativa do governo. Aliados do presidente do Senado veem no movimento a tentativa de ajudar na reeleição de Lula para, então, conseguir o apoio do Executivo para se reeleger na presidência do Senado em meio a um cenário de crescimento da bancada bolsonarista.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que, após ter feito acordo com Lula para o avanço das pautas prioritárias do governo, passou a trabalhar em prol da aprovação do texto, chamou, durante a sessão, o senador Paulo Paim (PT-RS), parlamentar que historicamente defendeu a redução da jornada de trabalho, para sentar-se à mesa diretora do Senado. Paim, que não se candidatou à reeleição neste ano, apresentou, ao longo das últimas três décadas, uma série de proposições nesse sentido.
"Uma honra para o Congresso Nacional brasileiro, em uma data histórica para a nação, (...) ter a satisfação de ter (a presença de) Vossa Excelência", disse Alcolumbre a Lula no início da sessão.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) também discursou e disse que a mudança da escala de trabalho, que agora garante duas folgas semanais mínimas, é um avanço comparável ao das férias e do 13º salário no país.
A PEC promulgada reduz gradualmente a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais e assegura dois dias de repouso remunerado por semana, sem redução de salários. Um dos dias de descanso deverá ser, preferencialmente, aos domingos.
A mudança será implementada em duas etapas. Em 60 dias, a jornada máxima cairá de 44 para 42 horas semanais e passará a valer a exigência de dois dias de folga por semana. Um ano depois, a carga máxima será reduzida novamente, para 40 horas semanais.
A proposta, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio. No Senado, ficou por meses sem avançar até que Alcolumbre, após negociações com o Palácio do Planalto, enviou o texto à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O relator do texto no Senado, Omar Aziz (PSD-AM), manteve integralmente a versão aprovada pelos deputados, o que permitiu que a proposta fosse diretamente à promulgação depois da votação no Senado, sem retornar à Câmara.
A aprovação ocorreu em meio ao segundo turno da eleição presidencial, disputado por Lula e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e deu ao governo uma vitória política a menos de duas semanas da votação de 25 de outubro. Flávio também votou a favor da PEC, apesar de integrantes do PL defenderem um modelo alternativo de flexibilização das relações de trabalho.
O Congresso também promulgou a PEC 14/2021, que estabelece regras especiais de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias. A proposta havia sido definitivamente aprovada pelo Senado em 14 de julho e aguardava, desde então, a promulgação.
O governo Lula trabalhou ativamente contra a aprovação da PEC por considerá-la uma pauta-bomba devido a seu impacto bilionário. O custo para a União pode chegar a cerca de R$ 3 bilhões por ano, devido à compensação de despesas previdenciárias de estados e municípios e aos repasses relacionados às aposentadorias pelo regime geral. Quando o texto foi a plenário, no entanto, a base aliada votou favoravelmente à PEC.
Pela nova regra, agentes que tenham 25 anos de contribuição e de efetivo exercício na atividade poderão se aposentar, inicialmente, aos 50 anos, no caso das mulheres, e aos 52 anos, para os homens. A idade mínima será elevada gradualmente: passa para 52 e 54 anos, respectivamente, até 2035; para 54 e 56 anos até 2040; e, a partir de 2041, chega a 57 anos para mulheres e 60 anos para homens.
A emenda também prevê integralidade e paridade para agentes vinculados a regimes próprios de Previdência e cria um mecanismo para que trabalhadores vinculados ao INSS recebam da União a diferença entre o benefício previdenciário e a remuneração integral prevista pelas novas regras.