Primeiro debate presidenciável transmitido na TV foi conduzido por Marília Gabriela
Colaboradora
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 08h00.
O primeiro debate presidencial da televisão brasileira foi ao ar em 17 de julho de 1989, ao vivo pela Rede Bandeirantes, e reuniu nove dos 22 candidatos à Presidência da República daquele ano.
O evento marcou a estreia do formato no país e se tornou uma referência para todas as eleições seguintes.
A data marcava a redemocratização do Brasil.
Depois de quase três décadas sem escolher diretamente um presidente da República, o país voltava às urnas em uma eleição direta, prevista pela nova Constituição de 1988.
A última vez que isso tinha acontecido foi em 1960, quando Jânio Quadros foi eleito.
Entre esse ano e 1989, o Brasil passou por 21 anos de ditadura militar e por um longo período de transição democrática, então uma geração inteira de eleitores nunca havia votado para presidente.
O cenário econômico também pressionava a disputa.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país vivia a escalada da hiperinflação que marcou os anos 1980: entre 1980 e 1994, quando o Plano Real foi implantado, o índice oficial de preços acumulou a marca de mais de 13,3 trilhões por cento.
Era esse pano de fundo de instabilidade que os 22 candidatos ao Palácio do Planalto precisavam enfrentar diante do eleitor.
O primeiro debate presidencial da televisão brasileira foi ao ar em 17 de julho de 1989, transmitido ao vivo pela Rede Bandeirantes, direto de um estúdio em São Paulo.
Não houve gravação prévia nem edição: tudo aconteceu em tempo real, diante das câmeras.
A transmissão já era colorida. O Brasil havia adotado oficialmente o padrão de televisão em cores em 1972, quando a Rede Globo realizou a primeira transmissão nesse formato durante a Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS).
Ou seja, em 1989 a TV a cores já era a realidade de praticamente todas as emissoras do país.
O estúdio contou com plateia presente, o que ajudou a tornar o clima do debate ainda mais tenso em determinados momentos.
A jornalista Marília Gabriela foi escalada para mediar o confronto entre nove dos 22 candidatos ao Planalto naquele ano.
Na época, um detalhe chamou atenção: o então líder das pesquisas de intenção de voto, Fernando Collor de Mello (PRN), não compareceu.
Ele só participaria de debates televisivos no segundo turno, já contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ulysses Guimarães (PMDB), outro convidado, também ficou de fora dessa primeira edição.
Até então, o principal palco da disputa presidencial eram os comícios de rua, além do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.
O debate ao vivo trouxe algo novo; pela primeira vez, os candidatos precisavam responder uns aos outros, em tempo real e sem roteiro fechado.
O debate de 1989 ficou marcado por embates acalorados, com destaque para a discussão entre Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS) e Ronaldo Caiado (PSD), quando o próprio passado político dos candidatos durante o regime militar virou tema de acusações diretas no estúdio.
Como não existiam ainda regras consolidadas para esse tipo de evento, boa parte da dinâmica foi sendo definida na hora, inclusive as intervenções da plateia, que a mediadora precisava conter durante o programa.
Além da curiosidade, é comum que o primeiro debate presidencial televisionado gere dúvidas. Veja as principais:
Nove dos 22 nomes que disputavam a Presidência naquele ano estiveram presentes: Paulo Maluf, Leonel Brizola, Aureliano Chaves, Affonso Camargo, Guilherme Afif Domingos, Ronaldo Caiado, Lula, Mário Covas e Roberto Freire.
Não houve um vencedor declarado oficialmente, já que, assim como nos dias atuais, esse tipo de avaliação não é feita pela Justiça Eleitoral nem por nenhum órgão oficial.
O momento mais lembrado da noite foi o embate entre Paulo Maluf (PDS) e Leonel Brizola (PDT), quando o pedetista rebateu críticas ao seu governo chamando parte da plateia de simpatizante da ditadura militar.
Vale lembrar que quem venceu a eleição de fato, Fernando Collor de Mello, nem esteve presente nessa primeira edição.
Não. A regulamentação que hoje disciplina os debates eleitorais na TV, prevista no artigo 46 da Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), ainda não existia em 1989.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), esse dispositivo passou a exigir que emissoras convidem obrigatoriamente candidatos de partidos com representação mínima na Câmara dos Deputados, além de garantir tratamento equilibrado entre os participantes.
Em 1989, essas regras ainda eram combinadas diretamente entre emissora e campanhas, sem previsão legal detalhada.
O formato ficou mais estruturado, com tempos de fala definidos, direito de resposta e regras negociadas previamente entre emissoras e assessorias, conforme disciplina o TSE por meio da Resolução nº 23.610/2019.
Já em 1989, o confronto era mais espontâneo, o que também explica boa parte da tensão que marcou aquela primeira edição.