Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira (Creative Commons)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 8 de julho de 2026 às 14h08.
A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara (CREDN) aprovou, nesta quarta-feira, 8, a convocação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ao colegiado para esclarecer o teor de um ofício enviado pelo chanceler à Câmara em 1º de julho que menciona o risco de uma ação militar americana no Brasil. O documento relaciona esse suposto risco à decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas como terroristas.
O chanceler precisará comparecer à comissão para esclarecer o posicionamento do Itamaraty sobre o tema. O requerimento de convocação foi apresentado pelo deputado bolsonarista Evair de Melo (Republicanos-ES).
O mesmo parlamentar direcionou questionamentos ao Ministério de Relações Exteriores sobre a classificação, pelos EUA, das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas. O ofício que cita o risco de ações militares americanas foi uma resposta do Itamaraty às perguntas de Melo.
Evair de Melo criticou o teor do documento e disse que está colhendo assinaturas de outros parlamentares para pedir a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre a atuação do Itamaraty no caso. Apesar disso, mesmo que o deputado consiga as assinaturas necessárias, é improvável que uma CPMI seja instalada a três meses das eleições.
A CREDN, que é presidida pelo também bolsonarista Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), aprovou ainda uma moção de repúdio à "postura militante e ideologizada" do Ministério das Relações Exteriores na condução da política externa brasileira. O documento, de autoria do próprio presidente da comissão, afirma que a atuação do Itamaraty estaria "marcada pela adoção de retórica agressiva contra agentes nacionais e pela violação da tradição de isenção e profissionalismo da diplomacia, colocando em risco os interesses soberanos do país".
O deputado Orleans e Bragança critica a linguagem das notas oficiais do Itamaraty, que, segundo ele, estão "em claro desacordo com os padrões da diplomacia profissional" e têm "linguagem inadequada, incompatível com a dignidade e o decoro exigidos da chancelaria brasileira, comprometendo sua credibilidade institucional".
A crítica faz alusão, por exemplo, a uma nota publicada em 24 de junho na qual o Itamaraty afirma que "os traidores da Pátria devem ao Brasil é um pedido de desculpas pelas tarifas e pelos prejuízos causados a milhares de brasileiros". A nota foi uma resposta ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após o presidenciável solicitar participação em uma audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sobre a possível imposição de tarifas ao Brasil.
O ofício do Itamaraty, assinado por Mauro Vieira, foi enviado no dia 1º de julho ao primeiro-secretário da mesa diretora da Casa, Carlos Veras (PT-PE), em resposta a questionamentos do deputado bolsonarista Evair de Melo (Republicanos-ES) sobre a classificação, pelo governo de Donald Trump, das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
No documento, o chanceler Vieira diz que o Brasil não foi consultado pelas autoridades americanas antes do anúncio da classificação e afirma que a medida traz "possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro". O ofício não explica, porém, o porquê da conclusão.
"A designação pode servir para que autoridades estadunidenses apliquem medidas administrativas e judiciais de caráter unilateral e extraterritorial contra pessoas, empresas ou organizações brasileiras, inclusive contra aquelas sem vínculos diretos com os EUA ou cuja ligação com os grupos designados seja indireta ou meramente involuntária. Adicionalmente, tal aplicação pode ocorrer com amplo grau de discricionariedade, dada a amplitude dos termos adotados na legislação de contraterrorismo daquele país, com sérias possibilidades de implicações para cidadãos brasileiros nos planos financeiro, migratório e penal", afirma o documento.
Em outro momento, Vieira reitera que a classificação das facções como terroristas "poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal". Em seguida, o documento reforçou "o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional".